Ontem à noite, o Projeto Memória das Gentes foi acolhido em Machico. Agradecemo-lo à equipa do Solar do Ribeirinho, à Universidade Senior, à Câmara Municipal e à Junta de Freguesia. Contamos convosco!
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
Esta vai ser a minha terra.
Refere-se à África do Sul, a Durban. Aquilo sim, que era o
mundo. Na Madeira, na Fajã, o trabalho era duro e a vida difícil. A chegada à
África do Sul foi um sonho. Aquela era
uma cidade com mar e amigos.
- Não vou voltar à
Madeira!
Maria tinha 16 anos. Já estava casada com um rapaz que não
conhecia. Assim: ele – vamos chamar-lhe M.
– veio à Madeira com intenção de casar. Um primo provocou o encontro, trocaram
olhares, receberam a bênção do pai, apertaram a mão e casaram na Igreja de S.
Pedro – que o tempo não era de festas.
A África do Sul foi a sua vida. Hoje, tem pena de ter
voltado, de ter vendido tudo, de ter perdido aquela terra, aquelas gentes,
aquela vida. Afinal, as áfricas não são todas iguais....
Maria trouxe-nos passaportes. Estão ali os seus caminhos,
afinal.
It meant
South Africa, Durban. She had finally seen the world. Back in Madeira, in the
country side life was hard and miserable. Arriving to South Africa was a dream
came true. She encountered old friends and relatives.
This is
where I want to live
-
I am not ever going back to Madeira!
Maria was
16 years old. She had just married to a young boy she had met once. He had come
to Madeira to look for a bride. A cousin arranged the meeting. After a quick
glimpse, he talked to the girl’s father,
gave a hand shake to seal the matter and
the young couple married at S. Peter’s church in Funchal – a family dinner was
more than enough.
She is a
cheerful lady. She laughs at lot, she sings and occasionally she drops a tear (
when painful memories get in the way). She has worked hard but she enjoys life.
She regrets
having returned to Madeira. The family had to sell everything they owned … and part of
her was left there. South Africa was a good place to live in.
Maria
showed us some old photos and her passports… so as to show us the endeavours of (her)
life.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
MARCOS TEIXEIRA e o(s) caminho(s) que a vida lhe indicou
O que leva um miúdo de 12 anos a embarcar sozinho para o Brasil? O que sente um menino quando separa os seus olhos dos olhos da mãe que fica no cais, sem metade do coração? O que significa o silêncio da lembrança quando a lancha se afasta do cais e a terra vai ficando longe?
Começou assim a entrevista com Marcos Teixeira. Primeiro, o
Seixal, a escola, a professora, a terra, a vida. O pai já estava embarcado na
Venezuela. Em dia de carta, juntavam-se todos à volta da mesa, à luz de uma
lamparina. A mãe lia a carta e guardava a remessa:
– vinha sempre um dinheirinho para pagar a venda.
Olha com ternura para o passado que a memória lhe traz.
Ilustra a sua história, com retratos que fotocopiou par nos mostrar:

- a minha mãe, eu e os meus irmãos. Eu era o do meio. Esse
rapazinho de fato e gravata sou eu. Foi para a viagem:
E avança: a aventura,
a viagem no Salta, o encapelamento do mar, os clandestinos que iam no barco:
- Havia um cesto que passava debaixo da mesa. Cada um metia
lá dentro alguma coisa: um pão, fruta…. Eram quatro, desembarcaram no Rio de
Janeiro com os nossos passaportes que alguèm nos trouxe, depois, de volta . É
que eu ia para Santos.
Na sua história, há um Brasil doloroso, com saudades da mãe,
há um menino que chora quando a noite vem, há a chegada do pai e depois da mãe
e dos irmãos….
Na sua história, há a Venezuela, a padaria, o quarto, a arte
de estofador, a música… a música. Na sua história, há um disco (http://www.youtube.com/watch?v=leFMen96i60),
o gosto de cantar, o negócio, o trabalho, a casa, o amor, os filhos.
Na sua história, há o sucesso, o medo, a insegurança. E a
saudade do cais. Em 1977, veio à ilha pela primeira vez. Em 1980, vieram todos.
Em 1983, vem para ficar.
Da sua casa, via-se a Sé. Um desejo velho de quem sabe o que
é não estar. E ouvia-se o sino. Como dantes. E era-se feliz. Como nos sonhos.
É empresário. Falou com orgulho do que construiu, do amor
que tem à família, dos filhos, da vida que tem, entre o trabalho, a casa e a
igreja. Falou sem preconceitos de si, dos seus, de Deus.
Um homem de fé, sim. Um homem feliz.
Marcos
Teixeira … Life has showed him the way
What was
the real reason for flying to Brazil at the age of twelve? What did a young boy
feel when he looked back and saw the tears in his mother’s eyes and her broken
heart? How heavy was the silence that accompanied him in the rowboat that took
him on board the vessel?
This is how
the interview has started. Marcos Teixeira talked first about his childhood in
Seixal, the school, the teacher, his house and everyday life. He explained his
father had already gone to Venezuela. He was two years old and could hardly
remember his face. Whenever a letter arrived, he and his brothers sat around the
kitchen table, his mother lighted the oil lamp and read the letter. She also kept
the money that had been sent inside the envelope:
-
It helped to pay the greengrocer’s
bill.
Marcos looks
back with tenderness and while talking he showed us some old pictures.
-
My mother, me and my brothers. I am
here, in the middle. I was dressed in a suit and tie. This picture was taken
for the passport:
And he carried
on: he talked about adventure, about the vessel, the Salta from Argentina, he remembered the rough sea and also those
who travelled undercovered:
-
There was a basket hidden under the
table. Everyone tried to put something inside: a piece of bread, some fruit …
there were four of them, they landed in Rio de Janeiro with our passports…
later someone brought them back. I needed my passport to land in Santos.
We have noticed some pain and some sadness. The
young boy missed his mother terribly …. He cried almost every night and sometime
later, his father joined him and so did his mother and his brothers …
In Venezuela he started working in a baker’s.
Then he decided to learn a job: upholsterer and he also started singing … he
even recorded a single http://www.youtube.com/watch?v=leFMen96i60). Those were fantastic days! He started
his own business, had a house built and fell in love.
But there was also fear and a lot of
insecurity. And most of all he missed his home land. He visited Madeira in
1977. He came back for another visit with the whole family in 1980. In 1983
they settled down in Funchal.
He found a house with a view over the city and
from where he could look at the Cathedral. He could also hear the church bells.
Like it used to be when he was a child in Seixal. A dream came true!
Today he is a local businessman. He has shared
his story. He has opened his house and his heart … he is spiritual man, indeed.
He is a happy man, indeed!
sábado, 2 de fevereiro de 2013
A propósito
Acabo de ler isto:
<Gosto muito das linhas que Certeau escreve (...): <O quotidiano é o que nos revela mais intimamente... é uma história a meio caminho de nós mesmos, quase em retrato, por vezes velado ; não devemos esquecer este <mundo-memória>, segundo a expressåo de Péguy. A tal mundo estamos presos pelo coração, memória olfativa, memória dos lugares de infancia, memória do corpo, dos gestos, dos prazeres...O que interessa ao historiador do quotidiano é o invisível>.
Mendonça, JoséTolentino, 2012, Nenhum caminho será longo, p.84.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
Entre a Madeira e a Madeira [ as áfricas]
O protagonista de hoje embarca no
navio Angola, no dia 28 de dezembro de 1960. Tem 18 anos, uma carta de chamada
para Moçambique e um mundo de possibilidades pela frente. Durante 18 dias, o
mar, S. Tomé e os tubarões, Luanda, Lobito, Moçâmedes e umas bananas enormes,
Capetown [Capitão,no dizer dos
madeirenses que com ele embarcaram no navio]
Depois, foi começar. Outra vez.
Reconstruir a vida. Encontrar trabalho. Refazer casa. ..
Chama-se Gualberto Teixeira e contou-nos a sua vida. Trouxe-nos documentos
importantíssimos para a construção da “outra” história das gentes da nossa
terra.
ALGUNS NÚMEROS:
- ordenado de um furriel: 5.100$00 (25 euros e 50 cêntimos)
- emprestimo para a casa: 600$00 (3 euros)
- 1Kg de carne da melhor: 9$00 (menos de 5 cêntimos)
- 1Kg de camarão grande: 12$50 (pouco mais de 6 cêntimos)
- 1l de gasolina: 4$00(2 cêntimos)
And what a roller coaster life has turned out:
He started as official of the Civil Government in Lourenço Marques (you can’t
imagine how beautiful the bay of Espírito Santo was! And the harbour: huge, busy,
modern … Funchal harbour was being enlarged when he left the island …) ; he was
responsible for the registration of the Indian population when the “India thing”
arose; then he joined the army and in Tete
he read everything he could in order to
pass the time( the most profitable time of his life, he said smiling); he joined
the Scouts, entered theater plays and soon after started working at the Radio Clube. He also wrote articles and
poems in the local papers. At the same he had found a place to build his house;
fell in love and got married. Years later he and his wife had to go to South
Africa because their little daughter was seriously ill. Things were getting hard
in Mozambique (but no one could ever imagine what was to follow). While in South Africa the couple stayed in a
refugee camp and could not turn back. Although the rest of the family was still
in Africa, the only solution was to go to Belfast where a job in a factory had
been procured. Two years later they were landing in Madeira: empty
pockets. Safe and sound. And ready to start from scratch!!
His name is Gualberto Teixeira. We have had an interesting talk … hard to put
in words as you can all imagine … he brought us documents … precious sources
that will help us to understand this important period of our history.
We share some (curious) figures:
- sergeant’s
salary: 5.100$00 (25 euros and 50 cêntimos)
- loan to have a house built: 600$00 (3 euros)
- 1Kg of
best quality beef: 9$00 (less than 5 cêntimos)
- 1Kg of shrimps:
12$50 (a little more than 6 cêntimos)
- 1l of petrol: 4$00(2 cêntimos)
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
domingo, 27 de janeiro de 2013
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
«Poor kids»
A casa é um lugar de memórias. Cada objeto conta a história de um cá ou de um lá, onde a angústia se cruza com o amor, onde o tempo se mistura nos retratos da parede, na loiça do aparador, na voz da senhora que nos recebeu em sua casa, como quem recebe duas amigas.
Não, não vou dizer o nome. Tambem não falo daquilo que hoje faz para que muitas vidas tristes sejam um bocadinho menos tristes. Mas vou contar a história que nos contou: nasceu num tempo em que o campo era muito mais longe do que agora, em que estudar era coisa de rapazes, em que o amor nem sempre era coisa do coração... Gostava de um rapaz pobre. Tinha um pretendente rico. Mas ela não podia casar com o dinheiro que esse venezuelano acenara à mãe. Ela que não. A mãe que sim. Ela que não. Tinha vinte anos quando saiu de casa. Nesta história, há um tio padre que a acolhe, que a protege, que a casa. [O seu retrato ainda domina aquela sala].
Conta-nos que, um ano depois do casamento, o marido tem de emigrar. Em casa dos sogros, redescobre o sonho que tinha adormecido no seu peito: estudar. Em dois anos, faz o 5º ano e prepara-se para o futuro que há-de vir. Grávida, embarca com o marido para os Estados Unidos. Têm lá familia. E vai feliz. Estão juntos.
O pai morrera de tuberculose e deixa-lhe, como herança, uma mancha no pulmão. Os oficiais de saúde não a querem deixar sair do barco. Têm medo da doença que vem do outro lado do Atlântico. Os cunhados, porém, que já ali viviam há muito tempo e conheciam todos os procedimentos, assinaram um termo de responsabilidade e a família foi acompanhada pelo sisitema de saúde americano. Visitavam-na em casa. Faziam-lhe exames médicos, seguiram o crescimento dos filhos. Quando decidiram regressar à Madeira, as palavras foram
- Poor kids....
A Madeira ficava do outro lado do mar.
Veio então fazer a vida aqui. Ingressou na Escola do Magistério Primário (- que era ali atrás do Liceu), no limite de idade. Fez-se professora primária. Trabalhou.~
- Tinha 35 anos, a idade limite em que um funcionário podia, nessa altura, entrar na função pública. Estudou. Fez um Curso Superior. E hoje, hoje é quem é: uma mulher de força, uma voluntária ao serviço de outros.
Se voltou a ver a mãe? Voltou. Estava doente. Muito doente. Recebeu-a bem, sim. Não esqueceu. Mas perdoou.
- Ela só não queria que eu passasse as dificuldades que ela tinha passado. Fomos cruzando memórias. Vendo fotografias. Falando de outras coisas. De futuros tambem.
- Sim, tenho muitas cartas, tenho coisas escritas. O meu neto anda atrás de mim para lhe mostrar as minhas coisas. Não sei. Talvez quando eu morrer.
Não insistimos. Todos têm o direito de proteger as suas memórias. Claro que sim.
Não, não vou dizer o nome. Tambem não falo daquilo que hoje faz para que muitas vidas tristes sejam um bocadinho menos tristes. Mas vou contar a história que nos contou: nasceu num tempo em que o campo era muito mais longe do que agora, em que estudar era coisa de rapazes, em que o amor nem sempre era coisa do coração... Gostava de um rapaz pobre. Tinha um pretendente rico. Mas ela não podia casar com o dinheiro que esse venezuelano acenara à mãe. Ela que não. A mãe que sim. Ela que não. Tinha vinte anos quando saiu de casa. Nesta história, há um tio padre que a acolhe, que a protege, que a casa. [O seu retrato ainda domina aquela sala].
Conta-nos que, um ano depois do casamento, o marido tem de emigrar. Em casa dos sogros, redescobre o sonho que tinha adormecido no seu peito: estudar. Em dois anos, faz o 5º ano e prepara-se para o futuro que há-de vir. Grávida, embarca com o marido para os Estados Unidos. Têm lá familia. E vai feliz. Estão juntos.
O pai morrera de tuberculose e deixa-lhe, como herança, uma mancha no pulmão. Os oficiais de saúde não a querem deixar sair do barco. Têm medo da doença que vem do outro lado do Atlântico. Os cunhados, porém, que já ali viviam há muito tempo e conheciam todos os procedimentos, assinaram um termo de responsabilidade e a família foi acompanhada pelo sisitema de saúde americano. Visitavam-na em casa. Faziam-lhe exames médicos, seguiram o crescimento dos filhos. Quando decidiram regressar à Madeira, as palavras foram
- Poor kids....
A Madeira ficava do outro lado do mar.
Veio então fazer a vida aqui. Ingressou na Escola do Magistério Primário (- que era ali atrás do Liceu), no limite de idade. Fez-se professora primária. Trabalhou.~
- Tinha 35 anos, a idade limite em que um funcionário podia, nessa altura, entrar na função pública. Estudou. Fez um Curso Superior. E hoje, hoje é quem é: uma mulher de força, uma voluntária ao serviço de outros.
Se voltou a ver a mãe? Voltou. Estava doente. Muito doente. Recebeu-a bem, sim. Não esqueceu. Mas perdoou.
- Ela só não queria que eu passasse as dificuldades que ela tinha passado. Fomos cruzando memórias. Vendo fotografias. Falando de outras coisas. De futuros tambem.
- Sim, tenho muitas cartas, tenho coisas escritas. O meu neto anda atrás de mim para lhe mostrar as minhas coisas. Não sei. Talvez quando eu morrer.
Não insistimos. Todos têm o direito de proteger as suas memórias. Claro que sim.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
uma carta do Brasil
13 de Novembro 1985

Amiga Dona ...
Desejo que esta minha carta os vá encontrar de saúde assim como o seu
marido e filho.
Nós felizmente vamos indo sofríveis. Dona ... como vê mesmo longe a gente se lembra de
si e mais uma vez para lhe pedir um favor, a minha mãe está a acabar os
comprimidos da tensão alta e os calmantes e por isso a gente gostaria que a
Dona ... fize-se
o favor de comprar e enviar pelo correio para fazer o volume mais pequeno
talvez fosse melhor por tudo dentro de uma. Isto é uma ideia a Dona ... depois vê qual a melhor maneira. Era bom também por
algodão que eles no correio abanão o pacote e se faz barulho eles não deixam
vir. Assim que a minha mãe chegou a gente levamos ao doutor este que ela foi
aqui aconselhou para minha mãe deixar os calmantes, mas como sabe a minha mãe
estava tomando três por dia e talvez ainda vá deixar de tomar, agora os outros
da tensão ela tem de tomar. Do primeiro
doutor não gostamos muito vai-se levar a outro, entretanto os remédios estão a
acabar se fosse da sua vontade fazianos este grande favor. Vai aqui 1.500$00
para os remédios e 5. doláres para o seu filho que eu lhe mande
isto é uma pequena lembrança mas já a umas semanas que não trabalho a semana
inteira há falta de trabalho. Vai se esperando até que melhor não há outro
remédio.
E por hoje é tudo receba um grande abraço para si e beijinho para o seu
filho e cumprimentos ao seu marido.
(assinatura)
O Brasil está longe. É do outro
lado do mar. Um outro lado que fica não sabe bem onde. Longe é suficientemente
distante para aumentar as saudades que se sentem dos que ficam para trás… e há
sempre tantos motivos para nos lembrarmos dos amigos … nem que seja para dar notícias
e pedir um favor… porque só os amigos nos estendem a mão… perto ou longe… só os
amigos!!!!
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
há histórias assim!
e o mundo é uma ilha … uma ilha de afetos e instantes que
nos trazem à memória sorrisos estridentes e mornos.
José António Gonçalves , Conselheiro Permanente das Comunidades Madeirenses, é um homem que
precisava de mais mundo… da ilha já conhecia quase todos os mundos. Em 1982,
trocou a Madeira pela Bélgica e, quase sem dar por isso, e apesar do frenesim
profissional, tropeçou no coração de uma belga, por quem, passados já largos
anos, ainda fala com paixão!
Há histórias assim!
E há histórias que nos surpreendem… sim, porque sem que eu sequer imaginasse, a
infância de José António Gonçalves, cruza-se com os recantos da casa da minha avó...
o beco, as escadas, as vozes , as gargalhadas e os olhares ternos. Há histórias assim!
sábado, 19 de janeiro de 2013
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Pistas de conversa
Manuela Rosa e Estêvão Rosa:
- A(s) comunidade(s) portuguesa(s) na África do Sul
- Os homens e as mulheres
- As diferenças entre portugueses do continente e portugueses da Madeira
- A Casa Social da Madeira e a Liga da Mulher Portuguesa
- O trabalho e a missão [entre a lei e a intuição]
- Caminhos que se cruzam
- Parcerias
Fomos depois espreitar. Encontrámos isto:
http://bibliotecamulhermigrante.blogspot.pt/2009/09/comunicacoes-os-encontros-para.html
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
REFLEXÃO
La historia oral es la
historia hablada: el registro de los recuerdos irrepetibles y las historias de
vida de la gente.
Robert Perks
As conversas são redondas. Como a ilha. Como o mundo. Hoje,
numa conversa de que daremos conta brevemente, percebemos como a História está ao alcance da nossa mão. De memória em
memória, fomos percorrendo sonhos e realizações. De memória em memória, foram-se
juntando as peças de um puzzle que só agora começámos a construir.
De repente, cruzaram-se os nomes. E os lugares. E as
histórias. A conversa de hoje tocou a África do Sul do Senhor Manuel e o
Septeto Passos Freitas do Senhor Elmano.
A Memória das gentes é efetivamente a Memória da Ilha.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Mobilidades: de memórias e de afetos (não) reza a história?
Foi disto que falámos, ontem, na conferencia que fomos fazer aos formandos do Curso EFA – B3B, da Escola da Torre, em Câmara de Lobos.
Percorreremos os caminhos dos migrantes: os que foram e os que vieram; os que partiram e os que regressaram, os do “até ao meu regresso” e os do “até nunca mais”.
Falámos de emoções e de saudades, de lágrimas e de sonhos. Falámos de Memórias. Juntos. Percebemos que, dentro das casas, se guardam tesouros e se escondem verdades que a História nunca contou. Apelámos à(s) partilha(s) e à participação neste Projeto. Encontrámo-nos com o passado para, num presente complicado, prepararmos o futuro.
Agradecemos o convite dos coordenadores do curso. Sentimo-nos muito bem na vossa casa. Ficamos, agora, à espera dos vossos documentos. Tudo é importante para se entender a História. Todos são fundamentais para fazer deste Projeto, um novo caminho para a investigação.
Bem hajam!
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
HISTÓRIAS DE GUERRA E DE PAZ (PARTE 2)
- E a guerra, Sr. F.?
- Não gosto de me lembrar. Mudávamos de sítio durante um
dia. À noite, havia emboscadas. Mesmo assim, uma vez, um rapaz abafou uma
granada com o corpo. Íamos morrer todos. Não sei se tinha coragem de fazer o
que ele fez.
- Um herói.
- Acho que a família recebeu uma medalha. Para quê?
Não sei se o silêncio que a minha memória guardou, foi o
silêncio da voz, ou o silêncio de mim.
- Doutra vez, o jipe que ia à nossa frente ficou
estilhaçado. Era uma mina. Por muito que viva, não posso esquecer. Nunca.
A mulher do Sr. F. calou-lhe a angústia:
- Chegou aqui que ele tinha morrido.
Contou que o pai que trabalhava para o Blandy, deitou ao
Comando para saber… Acontecia muitas vezes:
- Houve uma rapariga que se casou antes do noivo ir para a
guerra. Foi e nunca mais deu notícias. Foi dado como morto. E ela, que era
nova, voltou a casar… Mas um dia, ele voltou.
- E depois?
- Devia ter ficado dividida. Mas já tinha filhos…. Não sei o
que foi feito dela
[confesso que gostaria
de saber…]
A conversa, entretanto, foi mudando de rumo,
- Tinha um colega… era doente… só comia sopa… chorava todas
as noites… de saudades… do medo de morrer…. da dor dos pais. Rezava…. era
demais….
- E o Sr. Francisco, rezava?
- Eu, não. Quer dizer, pedia à Senhora do Monte que me
deixasse voltar… Tinha lá uma Bíblia…
Ofereci-a ao João.
[O João é o mais velho de oito filhos. Tinha os olhos presos
nos olhos do pai.]
- E em casa?
[lembrei-me das palavras de Pessoa e d’ O Menino da Sua Mãe:
Lá longe, em casa, há a prece,
Que volte cedo e bem,]
- Recebíamos notícias. Vinha o helicóptero – acho que era um
helicóptero – , atirava o saco e o sargento – devia ser o sargento – chamava os
números… Era uma alegria quando as notícias eram boas. Era uma dor quando não
vinha nada.
Uma nota de humanidade: os soldados liam as cartas sozinhos,
- dava sempre vontade de chorar,
mas o oficial chamava um por um para saber se estava tudo
bem, se as notícias tinham sido boas, se ….
Escrevia também: à noiva, à mãe. Nos aerogramas, não
pagavam. E dizia que sim, que estava bem, que ia regressar. Claro que não
contava do medo, nem da dor, nem
A guerra roubou-lhe a juventude. E a saúde.
- Mas voltei. Vim a 15 de agosto de 1964. Não sei se foi
milagre da Nossa Senhora do Monte…
Trabalhou muito para poder casar, três anos depois.
- Ainda dava saltos na cama…
- Nunca me hei-de esquecer. Nunca.
Rasgou as cartas. Guardou apenas algumas fotografias num
álbum que os filhos gastaram à força de o folhear. E três livros: a Bíblia, um
livro de receitas e um outro… proibido.
Guardou o silêncio. Não fala muito destas coisas.
- Já não dói tanto, agora.
E pronto. Agora, a sua história é de paz. Sorri. Cumpriu.
Cumpriu-se.
domingo, 13 de janeiro de 2013
Histórias de guerra e de paz (parte1)
Ontem, estive com o Sr. F. Tem um sorriso doce, o Sr. F. À volta da mesa, as palavras soltaram-se-lhe ao ritmo alucinante das memórias.
- Nunca ouvi o
meu pai falar tanto.
Mas foi falando. Que não queria
ser gravado. Que talvez um dia. Que eu podia escrever estas coisas, assim, na
soltura da língua.
Era um rapaz. Andava para casar.
-Engracei-me
com esta cristã….
Olhou para a
mulher. Sorriu. Tocou-lhe na mão. Ela riu-se. Disse-lhe qualquer coisa, em tom
de brincadeira, tentando cortar a emoção.
Muitas casaram
com os noivos antes de eles se irem embora. Ela não: se tivesse de ser, seria.
Não se importava o dinheiro que podia receber, enquanto ele estivesse na tropa.
Mas, ser mulher de soldado… e se ele não voltasse…
E ele
continuou: em rapaz, esteve para embarcar, mas não embarcou. Era muito
complicado. Só se fosse ilegal. Mas muitos tinham sido presos e isso…
Quando a carta de chamada chegou,
no finalmente das esperas, a Junta chamou. E ele foi. Teve de ir.
- eu não
queria ir à tropa.
E embarcou para um quartel
qualquer no continente. Era o número…..59. Nunca se há-de esquecer deste
número. Nunca se há-de esquecer de o ouvir no meio de outros:
- Angola.
Nunca se há-de esquecer das
palavras de Salazar. Nunca se há-de esquecer. Não sabe das lágrimas da mãe
quando se foi embora. Duplamente só.
- Todos tinham
alguém no cais. Havia uns rapazes que levavam panos de cores para que a família
os identificasse no meio das centenas de soldados que embarcavam no Quanza….
Subiam aos mastros para verem mais, mais longe, mais longe. Eu não tinha
ninguém. E isso é muito pior. Muito pior.
Confesso que me deixei ir. E vi
aquele soldado, pequenino – o Sr. F. é muito baixinho – a chorar, sem lenços,
- e deixar
esta rapariga….
Olha terno para a mulher. Ela
ri-se, desconversa, não o deixa avançar muito na emoção.
- Perdi a minha juventude.
- Não esperei por ti?
Os filhos têm mares no olhar. Vão
puxando, eles também, memórias guardadas há mais quarenta anos.
- O pai era cozinheiro.
- Era.
A minha sopa era conhecida. Os oficiais queriam a sopa do rancho geral.
- O que se passou!!!! Ficámos por
ali, perto do Congo. A cama era o chão. O travesseiro era a terra. Fomos para o
norte.
- Cozinhava em andamento. A
cozinha era um atrelado. Mas tinha tudo. Fome não se passava. Às vezes, o
oficial mandava distribuir o que sobrava pelo povo que se encontrava no
caminho.
- Havia um pretinho…
- Aquele da fotografia, pai?
Que sim. Andava sempre com a
companhia. Tiraram-no do mato. Quando voltou com o retrato, o sogro metia-se
com ele:
- não me digas que é teu filho, o
miúdo…
Que muitos tiveram amores pelas
áfricas. Ele não. Queria que aquilo passasse depressa. Foram três anos. A
juventude inteira [que quem vai à guerra, já vem velho. E doente].
CONTINUA ….
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
OUTRA(S) HISTÓRIA(S)
Entre o amor e uma carreira na Alemanha, escolhi o amor.
Muitas pedras da minha casa foram ganhas a cantar. E a tocar. E a escrever músicas.
Chama-se Elmano Gomes. Tem 78 anos. A sua vida passa pelo Septeto Passos Freitas, pela Orquestra de Câmara da Madeira, pela Academia de Musica e Belas Artes, pela Escola Hoteleira, pelo Marítimo, pela Juventude Católica Antoniana, pela Casa do Povo de Santo António, pelos palcos da ilha, pelos caminhos que o mundo trouxe para a Pensão Astória e para a Residencial Monumental.
Trouxe-nos músicas e memórias... Trouxe-nos nomes e saudades. Trouxe-nos sonhos antigos e projetos de futuro...
Vai trazer-nos os papéis... e os retratos que guarda ao abrigo dos pombos e dos canários que lhe lembram outros sons, de outras melodias, de outros tempos.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Uma carta que a literatura guardou
Maria de Jasus:
Gracas a Deus vua indo bem na casa. Os patroes so no sabado e que vem ao escritorios pagar a feria. Eu ainda nao os intendo proque eles falo ingles e na conhecem a nossa fala. Aqui tudo e munto grande comparado com ei nossas casas e ruas. O jardim é comprido. Maria de Jasus, espero tar aqui cinco anos e ao depois vua a Madeira p’ra gente se casar. O dinheiro de quatro anos deve chegar para manda fazer ũa casa. Nao ha cuma se viver naquilo que e nosso. Nao se paga renda nem o dono aumenta renda. Ja tenho soidades de ti e alembro-me sempre do Palheiro Ferreiro onde nos conhecemos, naquele mes de Maio.
Da soidades a tua mae e arrecebe muntas soidades que so a
vista terao fim, do Manulinho.
(Gouveia,Horácio Bento, 1959, Lágrimas correndo mundo, pp. 65-66)
sábado, 15 de dezembro de 2012
Encontrei isto. Era o tempo a sair do álbum e a contar do meu avô que conhecia o mundo e colecionava a ilha que morava nos maços de tabaco de há muitos anos atrás.
Encontrei lá dentro as memórias de um tempo que já não existe porque o tempo vai e não volta. Como a vida. Como a vida. Como as pessoas.
Encontrei o mundo ilhéu dos anos 50, legendado pelo amarelo da caixa, misturado com restos do dote de uma das mulheres da casa, embrulhado em papel de seda com cheiro a naftalina.
Partilho-o. O Projeto Memórias precisa da sua generosidade. A sua história será a próxima protagonista. Dentro do baú há uma caixa; dentro da caixa há o passado; dentro do passado há muita força de futuro.
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