segunda-feira, 11 de março de 2013

Uma guitarra


 
A história de hoje, traz fado dentro. Pela voz da filha, conhecemos a história de João - jardineiro da Câmara, nos anos 40, plantador de flores e de sonhos.

Já casado, decide partir para a Venezuela, à procura de futuro. Tem lá um irmão que o manda chamar. .. Pede, então, dinheiro ao tio padre, para a viagem. Tinha de passar em Lisboa por causa do visto. Mas o visto demorou. Demasiado tempo.

E o dinheiro para se manter em Lisboa – por mais humilde que fosse a pensão – acabou. Era preciso mais uma remessa. Escreveu, então, uma carta que chegou ao destinatário uma semana depois. Demasiado tarde.

Não havia outra solução, senão vender um dos dois valores que levava: a aliança do casamento ou a guitarra. Vendeu a..... aliança.

Ele morreu, mas a  guitarra permanece. Sentada . Ainda guarda a mesma corda que lhe abraçou as noites duras dos primeiros tempos em Venezuela:

- o meu pai tirava areia de um rio e dormia sobre sacas, mas nunca deixou de cantar o fado.

A vida mudou. Como outros emigrantes, João construiu a vida. Levou consigo a familia. Conheceram treze casas. Porque à procura do lugar melhor. Sempre de passagem.

O seu lugar era aqui. E voltou. Para ficar. Logo que pôde, comprou outra aliança. Mas  foi fiel à guitarra. E ao  fado. E à família. E ao seu lugar. 



A guitar


Our tale of today tells about Fado. Joao´s daughter remembers her father so well – a gardener, who during the 40s, went away chasing his dreams.

He was already married when he decided to leave Madeira. He wanted to go to Venezuela because he had already a brother there. He asked for a loan to one of his uncles, who was a priest. João had to stop for some days in Lisbon waiting for the visa.

The days passed and he spent all the money. He wrote a letter back home asking for more money but it took too long to get to Madeira.

He had no other choice. He needed money desperately and the solution was either to sell the wedding ring or the guitar. He decided to sell ….. the wedding ring.

João is already dead. His daughter still keeps his guitar … the one that helped him endure the long and harsh nights in Venezuela:

-          My father used to work in the river…. he collected sand…. and he used to sleep on the top of the sand sacks … and he never stopped singing Fado.

Life has changed. Like most of Madeira emigrants, João struggled hard to build his own life. He sent for this family after a while. They were always on the move: they have lived in 13 different houses… always rolling.

But he belonged here and so he came back. As soon as possible, he bought another wedding ring. He never ever sold his guitar, though. Nor will his daughter!!

 
 
 


 
 




 

sexta-feira, 8 de março de 2013

À procura de artistas


29 de Maio de 1962, Teatro Baltazar Dias, Funchal

Helena Paula e Carlos Alberto, locutores das produções HC, apresentaram a grande final do concurso À Procura de Artistas. Do programa da noite, constaram 12 concorrentes que interpretaram, na maioria, temas originais.

No dia seguinte, a imprensa regional anuncia os grandes vencedores:

Vozes masculinas

1º Classificado- Fernando Madeira, eleito igualmente príncipe da Rádio

2º Classificado- Carlos Gama

3º Classificado- Artur Campos

4º Classificado- Carlos Teixeira

Voz feminina

Lígia Fernandes, eleita Princesa da Rádio


Onde andam estas vozes? Porque impera o silêncio e o esquecimento? Ficamos à espera de notícias vossas, temos a certeza de que algures, alguém nunca se esqueceu destes artistas madeirenses!









29th May 1962, Teatro Baltazar Dias, Funchal

 

Helena Paula and Carlos Alberto, from HC productions, presented the grand final of the contest Looking for Artists. The evening was animated by 12 competitors who sang, most of them, original songs.

In the following day, the local press proudly announced the winners:

Male voices

1st classified – Fernando Madeira, who was also elected Radio Prince

2nd classified – Carlos Gama

3rd classified - Artur Campos

4th classified - Carlos Teixeira

Female voice

Lígia Fernandes, elected the Radio Princess.  




Why don’t we hear these voices anymore? Where are they? Why are they silent and why have we lost memory of these artists? We are sure somewhere out there somebody does remember them. Please, come and share with us what time cannot erase!

quinta-feira, 7 de março de 2013

ARAÚJO, Lídio, 2003, Os Bravos da Picada, O Liberal, Madeira.


Um diário de guerra. Ou quase. Porque a escrita do eu – jovem furriel madeirense – se esconde atrás de uma terceira pessoa:

“24/11/73: (...) Poderia ter fugido para lá dos Pirinéus, como muitos rapazes da sua idade, e trabalhar nas obras em França, no Luxemburgo ou na Alemanha. Mas para quê? Este era o seu país. (...) Ali era o lugar onde desejava constituir família e viver sem problemas de consciência po ser considerado refractário. Partiria, com fé e muita esperança de regressar são e salvo.” (p.11)

 

Ao longo de 127 páginas,o leitor acompanha a vida da 2ª Companhia do Batalhão Expedicionário 5014, entre novembro de 1973 e dezembro de 1974, entre Viana do Castelo e Moçambique, entre o Zóbué  e Lisboa [com a Madeira à vista]. São memórias de coragens e de angústias, lembranças de aerogramas e silêncios.

Deixamos-lhe  alguns excertos:

“25/11/73: Sem possibilidade para receber os últimos conselhos dos familiares mais queridos, guardar um abraço amigo, provar o beijo amargo da partida (...) os furriéis Araújo e Medeiros, ambos ilhéus, da Madeira e dos Açores, encontraram acolhimento, vão consolo de despedida, no gesto de solidariedade de uma desconhecida figura feminina(...). (p. 12)

“26/11/73: Pediu uma Coca-Cola. Era o seu primeiro contacto com aquela bebida americana. (...) E as Províncias Africanas não pertenciam à mesma nação? Coisas da governação salazarista” (p. 14)

26/11/73 : “é urgente vencer o primeiro inimigo, o medo” (p.15)

29/11/73 – 1ª CARTA: “os que já estão contaram-me coisas que não sei se devo ou não acreditar, mas tudo se ha-de compor...Adeus até ao meu regresso” (p.18)

4/12/73: “ Rezou à Virgem de Fátima, pediu-lhe protecção para si e para os seus companheiros e prometeu-lhe ir visitá-la no Santuário se conseguir regressar ao convívio dos seus familiares são e salvo” (p.22)

 25/12/73 [militares]: “escravos da incongruência bélica de uma alcateia de lobos atacada por semil demência”  (p. 27)

3/3/74:“Recebemos o pré. A nível dos furrieis, 4.300$00, ca e na Metrópole ficaram 11.700$00 (...) Quase todso os militares optaram por deixar 2/3 do pré na Metrópole, à guarda da família. (p.54)

1/4/74: “A grande maioria dos mainatos é composat por crianças os cinco aos doze anos, subnutroidos, esfarrapados e sem escolaridade que vagueiam pelo quartel, voluntários,sempre prontos a executar qualquer trabalho. Nada mais querem senão comida e protecção.

Uma vez por semana, levam a roupa para ser lavada no rio e trazem-na fresca e passada a ferro, quase sempre pelas suas próprias mãos, recebendo em troca 50$00 mensais. (p. 65)

Epílogo:

“fomos actores e espectadores de um drama que (...) deixou marcas profundas”  (p. 109)

“partimos contrariados. (…) Regressámos de cabeça erguida” (p. 109)

ESPERAMOS AGORA PELO SEU RELATO. Contacte-nos.
 

A war journal. Or a war notebook. It does not really matter the text type because what is important is that this is the story of a young soldier who created a persona to tell about wartime in the former Portuguese Overseas colonies:
24/11/73: (…) I could have tried to escape at the Pyrenees, like some did, and go to work in the construction field in France, Luxemburg or even Germany. But what for? This was my homeland (…) this is where I belonged and where I was sure to build my family in the future. Besides would I be able to live with the idea of being a deserter? So, I went to war and with hope and faith I was sure I was going to come back home safe and sound. (p.11)
In a 127 page book the reader gets to know the everyday life of the 2nd Expedition Company 5014 between November 1897 and December 1974. The story location is centered in Viana do Castelo, Mozambique, Zóbué and Lisbon [with Madeira Island always in sight, though]. These are pages full of courage, anguish, memories and many silences:
25/11/73: With no chance of listening to the advice of family and friends, to give a hug and kissed them goodbye (…) soldiers Araújo and Medeiros, from Madeira and from Azores found themselves welcomed and somehow comforted by an unknown feminine figure …. (p. 12)
26/11/73: He ordered a coke. It was the first time he was going to taste the American drink. (…) Were the Oversea colonies a part of the Portuguese nation? He wondered. Salazar policies he answered. (p.14)
26/11/76: The most important thing is to conquer the worst enemy: our fear. (p. 15)
19/11/73: 1st Letter: the ones who have arrived here first have told me stories I am not sure whether to believe or not, but I am sure everything will turn out right…. Goodbye and see you soon. (p. 18)
4/12/73: He prayed to Our Lady of Fatima and asked for her protection and made a promise to visit the Sanctuary if he ever came back safe and sound. (p.12)
25/12/73 [military]: we were the slaves of an absurd war; a pack of wolves suffering of insanity. (p.27)
3/3/74: We received the salary. The Senior Officers were paid 4.300$00 but here and in the mainland the amount of 11.700$00 was left. (…) Almost all the military chose to leave 2/3 of the salary in the mainland to be sent to their families. (p.54)
1/4/74: most of the servants were young boys, 5 to 12 year old boys, starving, ragged and illiterate who voluntarily were always ready to do any job. They only asked in return some food and protection. Once a week they did the laundry and brought the clothes back already ironed and were paid 50$00 for this service. (p.65)
Epilogue
We have been actors and spectators of a life drama (…) which has caused so many traumas. (p. 109)
Most of us left against our will (…) but we came back proud of ourselves. (p. 109)
This was officer Araújo’s tale. What about yours? Come and share it with us!!!!

 

terça-feira, 5 de março de 2013

O Bomboteiro[ nas palavras de Carlos Fino]


o bomboteiro vem a bordo

traz a ilha nos dedos

 

só não sabe bem que memória varou o casco

e porque sobe agora as ladeiras com espuma nos olhos

só o outono invoca os dias longos dos paquetes

 

já não regressa

ginga os passos ao sabor das nuvens e sonha

o bomboteiro

 
FINO, Carlos, 1986, XXIII poemas de ilha mar, DRAC, p. 15.

segunda-feira, 4 de março de 2013

UM BOMBOTEIRO - LUIS DA MOTA

Luis da Mota é (ainda) bomboteiro, filho de bomboteiro:

- o meu pai morreu a bordo do vapor do Cabo. Foi o coração. Estava a fazer negócio e deu-lhe um ataque, Eu e o meu irmão fomos tirar a licença.

Tem 83 anos, usa uma barreta preta, como nos outros tempos, vive na Rua de Santa Maria e continua a amar o mar, que lhe traz (ainda também) o pão de cada dia. Ele e mais uns ainda tentam vender os seus produtos na Pontinha, apesar de continuar a dizer

- quando há navio, vamos ao mar.

Traz uma ampliação de um retrato antigo de canoas e bombote

- os marítimos,

e vai narrando a arte , apontando para a imagem, como se voltasse atrás, a um tempo de durezas e alegrias, de negócios e de ingleses. Conta das canoas, das licenças, dos vimes que iam comprar à Camacha, das bonecas, dos barris, dos bordados

- que as nossas mulheres bordavam,

no intervalo das vidas.

Fala da forma como faziam subir a mercadoria, entre a canoa e o vapor, quando não era um vapor do Cabo, porque a esses podiam ir a bordo. Fala das vezes em que a mercadoria era recebida e

- não arriavam o dinheiro.

Fala pouco e precisa das fotografias para apoiar o seu discurso: 

- A mergulhança era isto: os pequenos saltavam das canoas. Eram  8 ou 9 canoas da mergulhança. Isto era daquele tempo do Venena.  Era dinheiro que entrava no país, de graça. O dinheiro era para os 3 do barco O cabo do mar deu cabo dessa mergulhança. Era reles, esse cabo do mar. Era o Alemão. Alguns ainda estão vivos. Ainda conheço alguns. Andam na zona velha. Param ali. Há um que trabalha com a gente, o Jana.

Fica depois calado, quando lhe perguntamos de outras coisas, como era a vida, se havia outros negócios, embrulhados nas toalhas que vinham de volta.

Que a vida era melhor, naquele tempo:

- às vezes, fazia-se mais de cinco contos e cinco  contos dava para as compras , para pagar a casa. Agora não dá para nada.

Como não tem mar para olhar, olha para os retratos que nos trouxe. Diz que serviram de reclame na Expo. E isso foi bom. Já ninguém se lembra deles….



Luis da Mota: a bumboat’s salesman

Luis da Mota was ( and still is) a bumboat’s salesman like his father was:

-          My father died on board a vessel. He had a heart attack. He was doing business and had a stroke, so me and my brother we decided to take a license.

He is 83 years old. He wears a black hat and he still lives in Rua de Santa Maria. He loves the sea and most of all he is thankful for having been able to make a life out of it. He, and some other guys sell their products at Pontinha whenever a vessel anchors at Funchal and although they have a small shop at the harbour they still say:

-          When a vessel comes in, we go to sea.

He brought along a painting of old bumboats and men selling their products

-          All men of sea,

And he pointed to the picture and going back on time he told  about good and bad moments, of business, of the English. He remembered the boats, the licenses, the wickerwork bought in Camacha, the dolls, the wine barrels, the embroidery,

-          Our wives stayed at home and made embroidery,

in their spare time.

He explained how the merchandize was lifted up on board. They were only allowed to go on board in the vessels that were destined to Cape Town. And he recalled the occasions when they kept the goods

-          And did not pay back.

He did not talk much and he needed the photos to organize his speech:

-          Young boys jumped from the little canoes into the water. Normally there were 8 to 9 canoes. One of them was called Venena. This was a way of earning money, for free. The money was divided between the men. The sea captain put an end to this activity. He was very strict. His nickname was “the German”. Some of these boys are still alive. I still know some of them. They come frequently to the old part of the town. They hang out there. One of them, works with us, his name is Jana.

Then he stopped. We asked him about living conditions and if there were other types of business … if smuggling was frequent…

And he answered that life was better back then:

-          Sometimes, we earned around 5 contos and the money was enough to pay the rent and go to the supermarket. Nowadays is not enough.

He focused on the photos he had brought to show us. They were used as a promotion during the Expo. It was a good thing to do. Now, nobody remembers these men any more…..

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Memórias de maio [evocações]


Às nossas mãos chegaram versos da Ponta de Sol, datados de 1 de maio de 1938, devidamente assinados por duas senhoras: Laurencia Amado de Freitas  e Guiomar de Freitas Pita Ferreira. Evocam a festa dos Pinheiros e os “brincos” da serra, entre piqueniques e namoros. Evocam as cantigas de roda e o tempo que as manchas gravaram no papel de carta.

(...)
Hoje, 1º de maio,
Há festa cá nos Pinheiros
Vem da vila e do Funchal
Quantidade de romeiros

(...)
Ou ainda:
Hoje é dia de alegria
Ninguem pode duvidar
Vem toda a gente aos Pinheiros
Para o maio festejar.

 

À nossa memória, chegaram outros maios, de outros lugares, de outros tempos: a Procissão do Voto a São Tiago Menor, os passeios ao Palheiro Ferreiro, a estreia de um vestido de chita e de alpargatas coloridas, os bailes, a laje, os colares de maios, as cantigas de roda....

Continuamos à sua espera. Traga-nos memórias de outros tempos, de outras festas, de outros momentos. Precisamos delas para construir a Nossa História Coletiva.

 

Remembering May Day

We have received some popular poems written in May, 1st 1938 in Ponta do Sol signed by Laurenciana Amado de Freitas and Guiomar de Freitas Pita Ferreira during the May Day Festival.  This feast was celebrated by the community in a place called Pinheiros and where people used to spend the day, doing picnics, playing, dancing and flirting, of course. 

(…)

Today is May Day
and there is a feast at Pinheiros
many people come up here
from the village and from Funchal


(…)

Today we are all happy
there is no doubt about it
many people come to Pinheiros
to celebrate May Day.

(OBS: We apologize for perhaps having killed poetry with our translation)

 

All this made us remember so many other May Day Festivals, in other places, in other times: the São Tiago Procession, the picnics at Palheiro Ferreiro, the new dress girls wore to match the colourful tennis shoes, the dancing balls, the necklaces made of flowers, the singings…

We are still waiting for you stories. Please, come and share with us your memories, your dearest moments. They are important to get to know us better. You are part of History.






 

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Às avessas



Um casamento por procuração. Um baú cheio de sonhos misturados com o dote num vapor do Cabo. Um homem de chapéu à sua espera em  Capitão” [ porque de Cape Town não conhecia o sentido]. Um comboio. Joanesburgo. Um medo enorme do futuro numa casa pronta à sua espera.

Ilda traz uma história triste para contar: uma história de inteira submissão ao marido, de inteiro desconhecimento do dinheiro, de inteiro desconhecimento da língua, de dores e de lágrimas, de medo, de solidão.

Sozinha, em casa, no silêncio angustiante de quem não sabe dizer uma palavra, vive uma gravidez sem acompanhamento, um filho com deficiência e outras coisas que não conta mas que os olhos e a inquietude das mãos denunciam.  Traz uma história de negócios ilícitos, de prisões  e de fugas. 

Regressa. Só  na ilha se assume Eu:

- o negócio era meu, fui eu que escolhi a casa,  agora sou eu que mando .

A nossa história não é uma história feliz. Mas talvez seja a história comum de muitos emigrantes que só se encontraram  com a vida quando regressam a casa.

Upside-down

The marriage was arranged. She barely knew him. She packed a bag and went on board to Cape Town, South Africa. There was a man wearing a hat waiting for her at the harbour. A train took her to Johannesburg. She could hardly disguise the anxiety of a future totally unexpected and a house waiting to become a family home.

Ilda has shared a sad story with us: she was a submissive wife, she did not speak English and thus she was totally dependent on him even for money. Her husband was involved in illegal business. He was arrested. Then he ran away. She did not know of his whereabouts.

Alone at home, without being able to speak a word with nobody she endured a pregnancy with no medical surveillance. A disabled son was born and she remembered the pain, the suffering, the tears, the fear and the loneliness. She did not say too much but her trembling voice and hands denounced so much more.

Later, the family came back to Madeira. Only then Ilda had the willing force to become a self:

-          I decided to buy a greengrocer’s, I chose the house to settle in, now, I was in charge.


This is not a happy story but life isn’t always colourful and we are sure that some emigrants who left Madeira looking for better living conditions, sometimes had to come back in order to find exactly what they were looking for.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

PEDAÇOS DA HISTÓRIA DE T. [gentilmente cedidos pela própria]



                               (n. Caracas, 1952)

1957 – 1ª vinda à Madeira – paquete Vera Cruz:

“Ao chegar cá é que não gostei muito do que vi. Tínhamos de fazer o transbordo para uma pequena lancha que, por sua vez, nos levava até ao cais, porque na época não existia o molhe da Pontinha e isso assustou-me um pouco.”

“(...) lá fomos nós, rumo a Machico. (...) Fomos num táxi daqueles antigos, descapotáveis, que eram usados para transportar turistas. Aquela viagem durou quase duas horas. Aquelas estradas eram tão estreitas, com tantas curvas, para uma criança como eu, era uma autêntica aventura. O mais divertido era quando passávamso pelas pessoas e elas gritavam: “olha os ingalêses (...)”

Sobre a Escola:

“Guardo na memória os exames (...) O que mais nos impressionava era o ambiente, que parecia um tribunal, pois testemunhavam os exames o embaixador de Portugal, o Cônsul de Portugal, o director do colégio e todos os professores. (...)  Depois de acabar a escola (digo acabar, porque se eu quisesse continuar, teria de vir para Portugal), mudámo-nos para outra cidade (...) de Caracas fomos para La Guaira, onde o meu pai abrira umapadaria, na qual eu fui trabalhar ao balcão durante quatro anos”

1968 - O regresso

(...) A ideia de voltar não agradava a mim nem à minha irmã mais nova (...). Desta vez o navio já acostou na Pontinha(....). (Alguma coisa tinha evoluido na Madeira). E lá estavam os nossos familiares à nossa espera. Foi um choque (...). O grupo quase parecia saído de um lar de terceira idade. Achei tudo muito mais pequeno do que da vez anterior. Parecia impossivel que naquelas ruas pudesse caber um carro. (....) tudo era pequeno demais.

Os anos seguintes foram de aprendizagem, já que tudo era novo para mim (...) .
 
 
T’s life story pieces
                                             (Kindly shared with us)

(born in Caracas,1952)

1957 – 1st trip to Madeira – on board Vera Cruz:

“ when I first came I did not like Madeira very much. We had to board into a small rowing boat which took us to the pier, because at that time there was no harbor in Pontinha and that scared me a lot”.

“(…) then, we went to Machico. (…) we took a taxi, a convertible car that was used to transport tourists. It took us three hours to get there. The roads were narrow and winding but, for me, a young child, it was a lot of fun. I really enjoyed passing by and listening to the people saying: look, there go the English (…)

About the school:

“I remember the exams (…) the atmosphere was heavy, it seemed like a court because the Portuguese Ambassador, the Portuguese Consul, the School Master and all the teachers used to be present (…) then, when I finished school (if I have wished to carry on studying I would have been obliged to come back to Portugal) we moved to another city (…) we moved from Caracas to La Guaira where my father established a Baker’s. I worked there for four years.

 

1968 – the return:

(…) Me and my younger sister we did not want to come back (…) this time, however, the vessel anchored at Pontinha (…) . (Some progress was evident after all). Our family was there welcoming us. What a shock to look at them and realize they seemed to have just left the elderly shelter, all too old. Besides, everything seemed now much smaller than before. How could cars circulate in these narrow streets? (…) everything was too small indeed.

During the following years I have learned to live a new life (…)

 

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Madrinhas de guerra – anjos que adoçavam o medo....


 
XXXXXXXXX , o cavaleiro do ar, soldado para-quedista n.º xxxxx, em XXXX [Angola, Moçambique, Guiné....] , deseja corresponder-se com menina dos 17 aos 25 anos, alegre, comunicativa e que goste de música pop. Resposta para o SPM xxxxxxxxx..
 

 
Bastava um anúncio. Bastava a generosidade das raparigas. Ou a ilusão cor-de-rosa de estar a cumprir um dever.

Longe da vida, os militares viviam na expetativa da chegada do correio. Os aerogramas – ou bate-estradas – traziam novas do mundo, da paz, da terra, da alegria. O que se pedia às Madrinhas – anjos que lhes  adoçavam o medo – era que lhes escrevessem e lhes transmitissem coragem, confiança, orgulho pela prestação de um importante serviço à Pátria. Aquele. O de dar a juventude [e a vida].

Do lado de cá,  elas esperavam a volta do correio. E as palavras deles. E um retrato. E a esperança nas palavras finais: “Adeus e até ao meu regresso.”

 

Ainda está por estudar a função destas meninas – mulheres – anjos que seguraram o fio de muitas vidas do outro lado do Império. Este pode ser o princípio. Para isso, precisamos de conhecer as histórias das madrinhas de guerra, precisamos de ver as cartas que guardaram, precisamos de mostrar a sua importância.

 

SE FOI MADRINHA DE GUERRA OU GUARDA ESSAS MENSAGENS, POR FAVOR CONTACTE-NOS. Estamos aqui.

Rua das Mercês, nº 8 , Funchal

Tel: 291 214 970

Email:


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Na guerra - as madrinhas

Zélia Sousa sorri. Sim, foi madrinha de dois soldados. Não, não deu em casamento. Numa conversa descontráida, conta dessa amizade que as raparigas – devia ter aí uns 15 ou 16 anos – mantinham com um militar que defendia o que era nosso. Angola era nossa, pelo que, aos olhos desse tempo, era preciso queos nossos rapazes estivessem lá. Conta que nas revistas – a memória não lhe trouxe o nome, mas é capaz de visualizar a capa [não era pequenina como a Crónica Feminina], talvez a Flama ou outra do género, - havia nas páginas finais anúncios de soldados a pedir correspondentes femininas, madrinhas portanto. Diz que escolheu um nome, ao acaso. Veio a saber, mais tarde, que era da Madeira. Coincidências.
- Aquilo era para nós uma missão. Tínhamos a obrigação de fazer alguma coisa por aqueles jovens que estavam longe da pátria, longe dos seus. A ideia era criar amizades e fazer alguém feliz.

Elas falavam de trivialidades, de coisas banais.... Eles falavam da guerra, do lugar onde estavam. Elas gostavam. Queriam muito saber coisas dessas províncias que ouviam falar na escola, de que decoravam as linhas de caminho de ferro e os rios. Movia-as a curiosidade e a possibilidade de se corresponderam com um rapaz no Ultramar.
Lembra-se de, enquanto madrinha, procurar nos jornais notícias do lugar onde estava o afilhado. Lembra-se de ir aos correios pedir os aerogramas. E de não pagar nada. Lembra-se de se preocupar se a resposta demorava.
Quando ele voltou, combinaram um encontro. Ela viu-o de longe. Não se apresentou. Nunca mais o viu.



War godmothers



Zélia Sousa smiled when she told us she had been the godmother of two soldiers. And then she explained: no, I did not get married to neither of them. Enthusiastically she recalled how this type of connection between the soldier who were at the battle field fighting for our country and the many young girls. At that time, Angola belonged to us so it was normal to have young men sent there to protect the territory. She explained that in some magazines, which she cannot remember the name, although she can still visualize the front page [not so small as the magazine Crónica Feminina], maybe it was Flama or some other – there were ads where soldiers asked for a godmother. She told us she picked one, by chance and later found out he was also from Madeira Island. What a coincidence.

- We believe it was like a mission. We felt we had an obligation towards those young boys. We had to do something for them since they were far away from home and family. The main idea was to entertain them, and so we wrote about everyday life, simple stuff … and they answered back giving details about the war and the place they were. We, girls, liked it a lot. It was a way of getting to know about the provinces that we had learned at school. I believe curiosity was an important figure in this process.

She remembered to look at the papers so as to find news about the place where her godsons were. She also remembered going to the post office to collect the aerograms. It was free of charge. She also remembered to get worried when the answer did not arrive soon. When he came back, a meeting was arranged. She saw him at a distance. She had looked at him for some minutes and then she turned back and went away.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Um tesouro

[excerto de uma carta de Maria da Conceição XX ao marido emigrado no Curaçao.]

Lugar de Baixo, 16 de Junho de 1930
Meu querido e para mim sempre lembrado marido do meu saudoso coração.....

(...)
2
No dia nove de Outubro
Ultima vez que te vi
Jurei no meu coração
de acabar e morrer por ti
3
Não pences por estar longe
Que de ti me hei de esquecer
Quanto mais longe estiveres
Mais amôr te hei de ter
7
Tenho-te todo na ideia
Nos meus olhos retratados
Assim te trago em meu peito
No coração encerrado
8
Não há hora nem estante
Que me vães do pensamento
Escreve-me todos os mezes
Dá allivio ao meu tormento
13
Recomendo a Sam Francisco
E ao pae do ceu adorado
Para levar esta carta
Ás tuas mãos meu amado.

Maria da Conceição....


( transcrito conforme o original)

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

CUMPRIMOS


E quando o tempo se imobiliza durante três anos? E quando se arrumam projetos, na incerteza de os concretizar? E quando se parte, sem se saber do regresso? E quando se pendura a vida no cabide do dever?

A nossa história foi passando por estas perguntas. E tem todas as categorias da narrativa: um protagonista – Paulo Camacho; um tempo – 1969-1971; um espaço – Angola; e a ação – guerra do Ultramar.

Em 40 minutos de conversa, passaram palavras e silêncios, passaram emoções e opiniões, passaram sorrisos e angústias. Falou-se da inevitabilidade da partida,

- Eu sabia que ia ser mobilizado.

Quando partiu, em 1969, já se questionava aquela guerra, a JOC, de uma forma velada, tinha um papel na consciencialização da juventude. Que guerra era aquela? Para quê? Para quem? Que interesses estavam atrás daquele dever?

- Mas então? Era ir ou desertar.

Falou-se das cartas, das notícias “trabalhadas” dos jornais; falou-se do medo e das dicas dos que já conheciam os segredos da guerra; falou-se de gestão de tempo e de emoções; falou-se da noiva que ficara à espera:

- eu não precisava de madrinha de guerra. Tinha quem me escrevesse.

A conversa levou-nos, então, para o campo de batalha, dos laços que uniam todos os homens da companhia, da desconfiança dos nativos, das traições, das “fogueirinhas” que a noite do mato denunciava. Conta do “inimigo “e dos movimentos que era preciso combater.

Trouxe-nos um “troféu de guerra”, com vestígios de morte:

- Nesse dia, matámos….

E a dor do verbo há-de doer-lhe para sempre. A lembrança:

- ou eles ou nós.

Com emoção – nas mãos e na voz – faz desfilar os retratos e lê as notas que a memória guardou.

- Não podíamos ganhar aquela guerra. Estávamos isolados do resto do mundo. Tínhamos armas obsoletas. Eles (os que mandavam) não entenderam os sinais, nem os exemplos dos outros.  Era uma guerra com prazo.

 Depois, foi recomeçar. Carregando o passado. E as lembranças. E as dores. E as sequelas. E.

- Mas, apesar de tudo, estou aqui.
 
“We did our job”
And if time had stood still for 3 years? And if all the projects and dreams of a life had to be postponed or eventually put aside? And what do you feel when you have to leave without knowing whether you would ever come back? And what do you feel when you had no other choice?

Today’s story was based on all of these questions and it can be presented as a narrative: it has a main character- Paulo Camacho; a period of time – 1969-1971, a place – Angola, and a plot – the war at Overseas Portugal.

We had a 40 minutes’ conversation full of words and silences, emotions, opinions, smiles, tears and pain. He talked about the mobilisation. It was compulsory. There was no choice,

-          I knew they were going to call me.

When he left, back in 1969 the war was already being questioned, and the JOC, although unveiled, tried to convince the young men to join the army and defend the motherland. But what kind of war was that, after all? What were these men fighting for? What interests were behind all of this?

-          The only possibility was to go. The other was to runaway.

He talked about the correspondence; the “fabricated” news for the local papers; the fear and advice from those who had more experience; he talked about how they spend the time and how they learned to hide emotions; and the longings… and of the bride who was expecting his comeback;

-          I did not need to write to a war godmother. I received letters from my bride.

Then, conversation turned into the battle field. He remembered the bonds between the soldiers, the feeling of suspicion, and the double-dealings. He recalled the little fires lighted in the jungle that immediately gave them away. He told about the “enemy” and how they fight.

He shared a “war trophy”, tainted with blood:

-          People were killed that day …

And this hurtful memory has never gone away. It is always here… and he explains:

-          You had to protect yourself.

With trembling hands and voice he showed us old photos and notes kept during all these years.

-          There was no chance of winning the war. We were isolated. We were abandoned and our guns were outdated. Those who were in charge did not understand this, or even the past examples. This war had a deadline.

Later I had to start all over again. I had to learn to live with the past… with these terrible memories… with this pain… with all the transformations it caused in my life.

-          However, I am here. Safe and sound!