sexta-feira, 7 de junho de 2013

Quantos tempos tem a guerra?


O verbo tem vários tempos. A vida tem vários tempos. O tempo tem várias vidas. E a guerra? Quantos tempos tem a guerra?

Poderá parecer estranho mas a guerra não tem tempo, porque quem vai à guerra sabe da eternidade que carrega para todo o sempre.

No entanto, cada militar fazia a (sua) contagem do tempo – e a contagem do tempo era apenas uma só – os dias que faltavam para regressar a casa.
 
 
 

Ao longo destes meses, temo-nos deparado com estratagemas, pequenos truques de como registar de forma visível [tal como uma tatuagem] o passar dos dias.

Partilhamos aqui alguns desses calendários de guerra. Sim. São calendários. Não tem fotos de paisagens nem meninos ou meninas com caras de anjo mas guardam a paisagem de quem espera o fim do inverno e o regresso da primavera.





What is the length of a war?


A verb has different tenses. A life has different times. And time has different modes of living. And what about war? What is the length of a war?

Odd as it may seem, war has no time. All those who have been into war know how eternal it is for once you have been in a war you will shoulder it forever.

However, each soldier counted time on its own – but the counting of the days meant only one thing – the days missing to return back home.

During these past months, we have come across different tricks and strategies to register the passing of days so as to make it visible [just like a tattoo].

We share here some of those war calendars. Yes, they are homemade calendars. They have no landscapes and no photos of baby angels but they mirror the hope of those who anxiously waited winter to end and the return of spring.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

CHEIO E VAZIO [DE GUERRA]


T. veio da guerra cheio: cheio de combate, cheio de dever cumprido, cheio de Africa [ cujo cheiro nunca se esquece] e cheio de saudades da ilha. Foi por isso que nem esperou pela passagem a que tinha direito e,  pagando do seu bolso, meteu-se no primeiro avião, com destino à Madeira. Deixou lá a roupa. Deixou lá vários anos de vida. Deixou lá alguns companheiros. E deixou lá Djáci e Fátima.

Djáci era o negro que ajudava lá no quartel. Entre tantas coisas, servia à mesa durante os almoços e os jantares do esquadrão.

Fátima era a negra que lavava a roupa e amansava a solidão do furriel T. que, em troca, lhe pagava muito mais do que ela pedia sempre que vinha entregar a trouxa com a roupa lavada.

T. veio da guerra vazio: Djáci e Fátima ficaram lá. Nunca mais soube deles. Julga que foram mortos [como todos os outros, sobretudo aqueles que conviviam com o inimigo].

- não faço ideia do que lhes terá acontecido- explicou com serenidade. [ aquela serenidade que só o tempo empresta às dores]

 Mas lembra-se deles[ porque há memórias que se colam a nós e que nos dão vida, sem que a gente se aperceba do seu fôlego].

 
 

T. came back from war feeling complete: he had fight, he had served his country, he had been in Africa [ an unforgettable land] and he missed the Island a lot. This is why he did not wait for the ticket he was entitled to and he paid his own trip back to Madeira. He left his uniform there. He left part of his life. He left some companions.  And he left Djáci and Fátima.

 

He was a Negro and helped at the quarters. He used to help at lunch and dinners. He served the meals to the officers.

Fátima was a Negro washerwoman. Every week she washed his clothes and tamed his solitude. In return he paid her so much more than she expected for washing the laundry and thus helped her to support a child.

T. came back from war feeling empty: Djáci and Fátima stayed there. He never heard about them anymore. He believes they were killed [just like all the others who had helped the enemy].

- I have no idea what happened to them – he explained with serenity [ the serenity that only time affords]

But he remembers them well. [ because there are memories that become our life even though we ever hardly feel their breath]

 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

E começámos a desvendar ...

Espólio de  Horácio Bento de Gouveia
 
 
 
1912. Ponta Delgada. Virgílio Bento de Gouveia. (irmão de Horácio Bento de Gouveia )

 
 
 
 
 



quarta-feira, 29 de maio de 2013

terça-feira, 28 de maio de 2013

Uma história do Eu: R.



R. ainda tem o mel dourado da voz do Porto Santo , num tempo em que as casas eram de salão e tinham chão de terra batida. Veio partilhar uma história antiga de pobrezas e solidões, em que a morte da mãe, primeiro, e do pai, depois, o traz para a Ilha grande.

De mão dada com a irmã, vem para um lugar sem afetos: ela para um colégio interno, ele para a Casa do Gaiato.

- Desculpe, não gosto de chorar. Já tenho cabelos brancos.

Conta a vida e pede-nos que a calemos, por enquanto. Cumpriremos.  


Há de voltar. Tem retratos e lembranças da eira e da lota, do cinema e dos dinheirinhos do carreto.

- A gente  carregava as malas dos senhores que vinham  nos barcos e ganhávamos uns tostões... dava para o cinema.... Viu o Cinema Paraíso? Era assim.

R. vai voltar com esse Porto Santo nas mãos, na voz, no coração. Daremos conta dessas histórias, aqui, um dia destes.

A lifestory…

R. has a melted voice like the golden sand of Porto Santo beach, and makes us remember the time when houses were still roofed by a mixture made of earth. He shared old tales of past times when poverty and loneliness were constant and of harsh times tainted by the death of his mother, and later of his father and the consequent depart for the big island.

Hand in hand with his sister, he was sheltered at a place that lacked affection: she went into a boarding school and he entered Casa do Gaiato 

-          I am sorry… I don’t like crying. I am already a grown up man.

He had to share his stories but he has asked us not to share. We will keep our promise.


He will come back. He has photos and memories of the old cinema, of the fish market and of the pocket money he used to collect.

-          We carried the luggage of the passengers and so we earned some coins … it was enough to pay for the cinema … Have you seen the film Cinema Paraíso? It was just like that.

R. is going to come back. He still carries Porto Santo Island in his hands, in his voice, in his heart. Soon we will tell you all about it.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Funchal. Coimbra. Angola - por entre lugares da memória


Coimbra fervia de estudantes. Os alunos assistiam às aulas e nos tempos livres juntavam-se para falar e discutir (às escondidas) sobre o Regime.

Rui frequentava o terceiro ano de Direito. A ilha e a família tinham ficado para trás. A namorada também estudava em Coimbra e uma vida nova tomava cor.

A meio do ano, foi mobilizado para cumprir o serviço militar. Hesitou. Podia pedir um adiamento, afinal tinha bom aproveitamento. Ou podia emigrar: França, talvez.  Mas não. O seu lugar era ali. Junto com os outros. Os seus colegas. Os da sua geração. Os do seu país.

Após o curso de miliciano em Mafra, fica colocado no Funchal. Volta à terra. Satisfeito por estar de novo mais perto dos seus.

Estamos no ano de 1961 e o Alferes é chamado para Angola. E vai! Tinha de ir!

A guerra foi dura. Esteve 31 vez debaixo de fogo intenso. A morte, a dor, o sofrimento colavam-se à pele tal como a lama e o breu da noite. Os turras conheciam melhor o terreno e faziam o jogo do “bate e foge”;

- nós estávamos mais bem apetrechados. Tínhamos melhor armamento mas a partir do momento que começaram a usar minas ( 1963),  a coisa piorou muito!

Em Luanda, encontra Manuel Alegre. Vão almoçar juntos. E a vida toma novamente outra cor. A cor da militância partidária. A cor de uma luta! A cor de uma liberdade que paulatinamente ganhava mais adeptos por entre os soldados que, no Ultramar, sentiam fazer parte de uma guerra que não era deles… que não lhes pertencia… que lhes roubava anos de vida, que lhes roubava irmãos, primos, amigos e sobretudo que lhes roubava a esperança … a hipótese de ter uma vida como toda a gente.

Rui  Nepomuceno falou-nos da Guerra do Ultramar. Esteve lá, sim. Mas já lá não está. [agora , cada vez menos penso nisso] . Guarda na sua memória as conversas, os ânimos da juventude, o companheirismo e os planos e os sonhos de um futuro melhor.

E guarda um sorriso … e um olhar terno mas vibrante ainda cheio de tantas vontades e de tantas lembranças. [ que prometeu partilhar connosco]
 
 
 
Funchal. Coimbra. Angola - in between places of memory
Coimbra was crowded with students. Young boys and girls attended classes and after school got together (undercovered) and talked about the Regime.
Rui was already at the third year of Law. Madeira Island and the family had been left behind. His girlfriend was also at Coimbra and there life had gained a new tone.
 
In the middle of the term he was called to do military service. He thought carefully about it. He could have asked for an adjournment because he had good grades. He could also go away: France, perhaps. But he decided not to. His place was right there. He had to be with his mates. He had to join his generation. And he had to help his country.
After the military course at Mafra, he came back to Funchal. He was so glad. He was back home.
Then, in 1961 he was forced to go to Angola. There was no other way! Portugal was at war and needed their young men.
War was thought! He was 31 times under severe fire. Death, pain, suffering clustered to skin the same way mud and night darkness. The enemy knew the place much better and used to attack and hide in the jungle;
-          But we were better armed. We had better guns but when they started using mines (1963), things got so much worse!
In Luanda he met Manuel Alegre. They had lunch together. Life was again tainted by other colours. The colour of the Communist Party. The colour of political struggle! And the colour of freedom which gradually gained supports among the soldiers who realized they were fighting a war that did not belong to them … a war that robbed their youth,  that killed their brothers, cousins, friends and above all a war that cut off the hope of having a normal life, just like everybody.
Rui Nepomuceno talked with us about war at Overseas Portugal. He was there. He is not there any longer [he hardly thinks about it now]. He remembers the conversations, the cheering and friendship of the boys and the planning and dreaming of a brighter future.
And he has kept a warm smile… and tender but blazing eyes so full of willing and nice remembrances [he has promised to share with us].
 

segunda-feira, 20 de maio de 2013

EXPOSIÇÃO


 
No CEHA, na rua das Mercês, nº 8, moram memórias. As de gente que ajudou a construir a ilha que somos. As da ilha que foi embarcando em vapores, à procura de outras felicidades. As dos rapazes chamados a defender o chão pátrio no Ultramar.

A exposição de alguns destes documentos – recolhidos no âmbito do Projeto Memória das Gentes que fazem a História, está patente ao público nestas instalações  até ao dia 21 de junho.

São retratos, cartas, troféus  de guerra, aerogramas, objetos. São recortes do passado e manuscritos, são versos e histórias....

 
Venha ver este pedaço da história. A entrada é livre.

 
 
 
Depois, se quiser, consulte o nosso catálogo, o blogue e venha ter connosco, traga-nos a sua história e os “papéis” que dormem, esquecidos,  no tempo.





 ESTAMOS À SUA ESPERA!  


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Exhibition

Memories have found a home at Rua das Mercês, nº8.  These memories belong to common people who have helped to build the history of the island. Some have left and went abroad looking for a better life. Some were boys and went to war at Overseas Portugal.

 
 
 
 
 
Some of these documents – collected within the MEMORIA project – can be seen until June, 21st. The collection includes pictures, war prizes, letters, postcards and other type of objects. There are also handwritten notes, poems, recipes… etc

You can also have a look at our catalogue and at our blog.

The entrance is free! Come and visit us! And in case you have similar documents, please bring them!!! Together we can make a difference!!

 









 

 
 

sexta-feira, 17 de maio de 2013


AGRADECIMENTO / CONVITE

 

Ontem, o auditório do CEHA derramou. De público. De emoções. De memórias. Contámos com a presença de muitos colaboradores, de muitos amigos, de gente que acredita que a História também se faz com as histórias da gente.

A todos agradecemos a presença, o apoio, o interesse e a colaboração. Estamos à espera das vossas histórias, do vosso testemunho, de documentos que contem outros lados da nossa história....

Venham  ao CEHA.  Temos a exposição aberta ao público até ao 21 junho. Temos cartas do princípio do século, retratos antigos, discos, pautas, guiões de teatro revista, almanaques, livros … e temos sonhos e medos, gargalhadas e lágrimas, silêncios e gritos. Venha visitar a história.... a sua! A nossa!

 







 



segunda-feira, 13 de maio de 2013

HISTÓRIAS DE VIDA : 16-05: 17H - CEHA


 

Na primeira pessoa, ouvimos contar histórias. Da vida real. De embarques de solidões à procura da vida, à procura do cumprimento de um dever, à procura de mundo.

No dia 16 de maio, às 17 horas, conheceremos os protagonistas deste blogue.   Perceberemos quem são e de que forma as suas histórias de vida contribuiram para a História do Arquipélago. Talvez as várias formas de nos dizermos e de nos escrevermos nos ajude a interpretar o presente e a preparar o futuro.

Quer saber como?

O dia 16 de Maio é o Dia Internacional das Histórias de Vida. O seu. Venha celebrá-lo connosco, no CEHA,  na Rua das Mercês, nº 8.

 

sexta-feira, 10 de maio de 2013

SOBRE AS HISTÓRIAS DA (NOSSA) VIDA 1


MEMÓRIAS [DAS GENTES QUE FAZEM A HISTÓRIA]

Neste projeto, entendemos que a História tambem se faz de baixo para cima, que a Ciência também se faz com gente, com afetos, com a implicação direta de quem conta a sua versão da História, na primeira pessoa.

Recolhemos testemunhos e documentos privados. Desencadeámos memórias – felizes, dolorosas, reconfiguradas, verbalizadas à luz do presente.

No dia 16 de maio, às 17 horas, apresentaremos alguns resultados deste processo. Entre uma mostra do que recebemos e o encontro com os verdadeiros protagonistas, pensaremos juntos uma parte da vida das gentes que, hoje, interpretam o [seu e o nosso] passado.

Contamos consigo, no CEHA, na Rua das Mercês, nº 8. Ajude-nos a escrever o outro lado da História , desta vez contextualizada por quem a viveu e no-la contou, como se a memória da ilha tivesse sido passada a limpo pelas suas palavras.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Outra "doação"

( A cena desenrola-se na esquina de uma rua com diversas casas) Assim começa o primeiro quadro da revista “É assim a Madeira” da autoria de Elmano Gomes. (guião, letras e música)

As personagens - o amolador, Gigi, Jorge, o leiteiro, o miúdo, o vilão e os ardinas - desfilam em cima do palco do teatro Baltazar Dias e levam-nos a tempos mais recuados.

  O texto é rico em piadas …
o telefone por vezes é uma coisa boa, outras vezes é um atrapalho. É bom, para quando a gente quer responder a uma pessoa e não tem lata de lhe dizer pela frente….

em queixas do dia a dia ...

os impostos , são cada vez mais altos… não deixo as vasilhinhas. Não acabo com o leite. Quando não houver fregueses pelas portas, levo o leite para o Marítimo, o Nacional ou União…

em opiniões intemporais...

Passei os olhos no Diário de ontem, mas aquilo é o mesmo. Eles trazem sempre as mesmas notícias….

e apontamentos etnográficos [cantado]

Fui ao arraial do Monte
E no largo da Fonte Até cantei o bailinho
Reparei numa pequena
Alta, bonita, morena
Era mesmo um amorzinho…..

E por entre gargalhadas e risos lá se iam dizendo “verdades” , mas sempre com cuidado pois:


Não falem alto! Estamos na via pública. Hoje em dia dizer mal dos outros é pior que roubar ou matar. Não temos perdão.




  ( LET’S IMAGINE WE ARE IN THE CORNER OF A STREET IN THE CITY)

This is how the play entitled “ this is Madeira” begins.
It was written by Elmano Gomes who wrote the text, the lyrics and the music

. The characters come on stage at Baltazar Dias Theater in Funchal and as if by magic we are transported to back in time.
The plot is rich in social satire…
Sometime the phone is good, but other times it is useless. It is good when you need to tell someone what you really think and don’t have the courage to say it face to face…
In complaints…
Taxes are higher everyday…I will not give them the cans. I will not put an end to the business. If I run out of costumers, I will offer the milk to the local football teams… Maritimo, Nacional or União…

And social sketches…. [singing]

I went to Monte party
And at Largo da Fonte
I even sung bailinho
And then I saw
A beautiful young girl
Who looked so lovely….

And in the middle of giggles and laughs “truths” were being told …. Carefully….
Don’t speak so loud. We are in the middle of the street. Today it is bad to talk about other people’s life… it is even worse than stealing or killing. There is no pardon for that.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

a casa onde nasci ....


- Gosto de saber que a casa onde nasci e vivi…. ainda existe … não gostava de lá voltar pois prefiro imaginá-la igual aquilo que era….

 

Assim começa a escrever Maria do Carmo. Assim começa o diário onde uma escrita redonda, dócil e aconchegante nos acompanha nesta visita às casas onde vivi – plural, pois a vida cresce em deslocações temporais e espaciais.

Foram várias as casas, terão sido várias as vidas? Nem tudo está escrito. Nem tudo é relembrado. No entanto, estas páginas com vozes de gentes, de cães, de gatos, de flores, de brincadeiras, de festejos, de instantes eternos, transportam-nos para um cenário íntimo e familiar:

- a corredoura do andar de baixo era de cimento vermelho .. e foi lá que aprendi a andar de patins…

Mas também nos levam de mão dada pelas ruas da cidade: o Colégio Apresentação Maria, o Colégio Júlio Dinis, o Caminho do Meio, a Conde Carvalhal, a Rua das Mercês [ é redondo o nosso espaço?!]…

E até nos levam a Cabo Verde, na voz de Mimi, a criada mulata que:

- veio para cuidar das crianças e que depois passou a cozinheira … e que depois de uma breca se foi embora…

Foi. Mas voltou.

- porque quando lhe passou a zanga vinha-nos visitar pois ficou sempre nossa amiga.

Tal como as casas … sempre nossas amigas.


The house where I was born...

 
- I like to know that the house where I was born and have lived… is still there…. I don’t want to go back there, though. I’d rather imagine it is still is what it used to be….
 
This is how Maria do Carmo began her narrative. Her diary starts like this and in a smooth, reassuring and chubby writing we accompany her to the visit to – the houses where I have lived – plural, because life grows in proportion to time and space twisting drills.
She has lived in many houses. Has she lived many lives? Not everything was written down. It is impossible to remember it all. However, these pages are tainted with many voices: people, cats, dogs, flowers, children’s playing, celebrations – eternal moments that carry us into a intimate and familiar setting:
-         The hall of the ground floor was paved in red cement… I  have learned to roller-skate there….
But it also takes us along the streets of the city: The Apresentação Maria College, Julio Dinis College, Caminho do Meio, Conde Carvalhal, Rua das Mêrces [ is space round,after all??!]…
 
And it also takes to far distant places. To Cape Verd for instance, by the voice of Mimi, who:
- had come to take care of the children and then became a cooker … and in the middle of a serious row, got angry and went away…
She did left. But she came back.
-         and when anger disappeared she came to visit us regularly  because she was a friend. Our friend.
Just like the houses… they will always be our close friends.
 



 

 

segunda-feira, 29 de abril de 2013

É PRECISO NÃO ESQUECER



Joel tem a guerra guardada dentro da voz. Entre a emoção e o sorriso fala da Guiné, do serviço militar [ que era obrigatório], do espírito de aventura que levou no barco.

- O Ultramar era uma forma de sair da ilha. Por isso, os madeirenses viam isto de uma maneira diferente.

E o isto era a guerra. Apesar do fantasma da morte. Apesar.

Numa rajada de palavras, falou-nos do silêncio que se seguia ao medo:

- Durante o fogo não há tempo: eles mandam, a gente manda..... mas depois.... depois, não se pensa em nada. Olhamos uns para os outros e esvaziamo-nos. É como uma bola cheia de ar....

E fala de outras coisas: da juventude que amadureceu de repente; no outro eu que regressou, na aflição persistente mesmo em tempo de paz : da angústia no meio da multidão; na necessidade de se proteger continuamente:

- quem vai à guerra, fica de guarda. Para sempre.

Trouxe-nos documentos – memórias de papel: aerogramas que recebeu de outros rapazes [- os da minha mulher, não. Não tenho esse direito. ],trouxe-nos o Diário do seu batalhão [está aqui a nossa vida toda], trouxe-nos um dossiê de imprensa que construiu ao longo do tempo.

- É preciso não esquecer. – diz ele – É preciso não esquecer.
 
 
We must not forget

Joel has locked war inside his voice. Through emotion and a disguised smile he told us about Guiné and about military service [compulsory] and about adventure, the reason why some many young boys boarded on the vessels.
-         Going to Overseas was the easiest way to get out of the island. This is why Madeirans saw it differently.
And this was war meant. Even though the shadow of death was always there.
Throwing words rapidly as if shooting a gun, he spoke about the silence that followed fear:
-         During shooting there is no time: they fire, we fire… and then… then…. We think about nothing. We look at each other and we empty ourselves. It is like an air bubble… full of nothing….
And the remembered other things: of growing up too fast, of the other self he has brought back with him, of the constant anxiety, of the fear of crowds and of the need of being in permanent alert:
-         Those who have gone to war, are always on guard. Forever!
He has shared some documents with us – memories kept in papers: letters he has received from friends [not his wife’s, he couldn’t share those] the journal of the battalion [ where our lives was written] and a press journal he has gathered along these years.
 
-         We have to remember- he adds. It is important not to forget.