segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A minha primeira viagem


Não importa onde te leva a viagem mas sim o que ela faz de ti
in, O lugar dentro de nós, Gonçalo Cadilhe



Nos dias 21 e 22 de outubro o CEHA promove um colóquio cuja tema é Mobilidade e Identidade(s).
Sabemos que vão estar connosco e hoje lançamos um desafio:  Conte-nos a sua primeira viagem!!!!
 Sabemos que ainda se lembra!!! é só começar...



... porque somos todos viajantes ... de um mesmo lugar... de um mesmo tempo ... de um mesmo acreditar...


sexta-feira, 11 de outubro de 2013

MOBILIDADES

Entre documentos vários, apareceu-nos isto. Imaginemos alguém que vai emigrar. Imaginemos a angústia de não saber falar a língua da terra para onde se vai. Imaginemos as dificuldades que isso havia de trazer....
Obs: este e outros assuntos serão tratados no Colóquio Mobilidades e Identidades, aqui, no CEHA, dias 21 e 22 de outubro.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O QUE É?

Às nossas mãos, vão chegando histórias, documentos, fotografias, papéis que, muitas vezes, só fazem sentido quando contextualizados pela memória de um tempo, de um lugar, de uma pessoa... Guardamos a nossa memória em "coisas". Da mesma forma que há guarda-documentos, guarda-joias, há guarda-memórias. Esta é uma delas. Cheira a capim e a saudades, a idas e a regressos [felizes ou não].
Falaremos destas e doutras coisas,no Colóquio das Mobilidades, nos dias 21 e 22 de outubro. Gostávamos que estivesse connosco. A entrada é livre!

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Lugar de Baixo, 21 Janeiro de 1920


Meu para mim sempre lembrado e querido Francisco muito estimo que esta te vá encontrar de perfeita saúde que é esse o meu maior desejo que quanto a mim e meus filhos ao fazer d'esta é melhor que se merece do pae do céu. Meu adorado marido eu recebi a tua estimada e desejada carta na oitava do meio estimei muito em saber as tuas notícias e não calculas a minha alegria parece que enloqueço de contentamento quando recebo carta tua ....
 
 ... e assim escreve Maria da Conceição para o marido que está emigrado no Curaçau. São folhas amarelecidas pelo tempo que passou e onde se gravou os anos de uma vida de esperas. Nas entrelinhas desvendámos as histórias não contadas ....

Venha saber mais acerca desta história! Contamos consigo nos dias 21 e 22 de Outubro.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

SOBRE A GUERRA E O AMOR


António procurou-nos. Guardava uma história de amor dentro de duas capas de cartão. Ele, no Ultramar, em Angola, tentava sobreviver à angústia da distância e ao medo de morrer. Ela, na Ponta de Sol, em pleno Atlântico, assume o papel de Madrinha de guerra, a que cuida, a que apoia, a que reza.

Aos poucos – porque a guerra tem muitos lados - , o afilhado pede-lhe o coração. E ela, um pouco a medo, talvez, vai lho entregando. Em palavras. Cuidadosamente desenhadas.

Lemos esta história que as cartas guardaram. Trabalhámo-la. Guardámo-la nas Memórias, como os protagonistas as guardaram: com cuidado.

Ele voltou da guerra. Ela estava à espera dele. Estão casados há muitos anos.  

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

NA LANCHA


Entre a juventude que a ilha representava e o dever que a Pátria exigia...

Entre a casa e um lugar longe do qual muitas vezes não se sabia o nome....

Entre o cais e o navio grande....

Entre a vida e a incerteza...

 ... a lancha...

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Memórias da pele

As memórias colam-se à pele. Escrevem-se nela. São memórias da vida e do mar. São memórias de um tempo em que o enjoo passava com pão molhado na água salgada. São memórias da Machiqueira a levar e a trazer passageiros da cidade para Machico, de Machico para a cidade. São memórias de lanchas e de pescarias, da vida.
O Mestre João contou-as na primeira pessoa. Os olhos ainda navegam. Como a lua, quando a tempestade se forma no fundo do mar.
                                                                                       Mestre João, CEHA, 23 de setembro.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

e quem se lembra do Fontes?

Vasco Fernandes, o Fontes ( nome de guerra) comercializava filigrana .... subia a bordo dos navios que aportavam no Funchal .... e....




sexta-feira, 20 de setembro de 2013

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Bombote e Mergulhança


Amanhã. 18horas. Gare marítima. Conferência. Memórias do Porto. Nós e eles: os bomboteiros, os mergulhadores, o Dia de São Vapor.....


https://app.box.com/s/dabmtpo2ucwcsboear21

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

estrelas de prata .....

são moedas, sim...são pedaços de uma vida feita de vagas de mar ....são estrelas do mar trazidas pela mão do Jana .... um às da mergulhança!

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Um recibo.... americano....


Encontrámos isto.         
 
 
 
                                     

sábado, 31 de agosto de 2013

Conversas velhas


Em conversas velhas de tempos antigos, Lília desencantou esta fotografia. O pai, bomboteiro, expunha, no convés do Noruega, os bordados que trazia na lancha: uns devidamente certificados, outros, não.

Ficámos à mesa, desfiando memórias: que nadava entre as lanchas, com os rapazes, que o pai lhe gritava da canoa que voltasse para casa, que aquilo não era para raparigas, que eram tempos duros, que tem saudades, que.

 Viviam ali, na babugem do mar, no Beco do Socorro. Viviam dos navios e do que se passava à volta deles. De vez em quando, no bolso do casaco do pai, havia um chocolate, um sabonete, uma novidade. Era o luxo do mundo que entrava em casa.
Ficámos à mesa. Nós. Um pouco perdidos no navio, no olhar de marítimo do pai da Lília que tentava lembrar-se do número da licença que estava gravado na barreta.


 



segunda-feira, 26 de agosto de 2013

o cais das nossas vidas .....


A meia travessa, um encontro inesperado no deck do Lobo Marinho ….

- Estiveste de férias?

- Sim! E tu? Foste visitar a família?!

- Pois … tem de ser!!!

E por entre recordações de infância e adolescência, na ilha dourada, o cais do Porto Santo: pano de fundo para tudo o que de importante se passava nas nossas vidas naqueles tempos em que o sal do mar se misturava com o sal da vida…. tomou conta da conversa. Trindade Melim recordou, com um sorriso largo nos lábios e os olhos raiados de saudade, os tempos de menino ...

- Sabes, quando chegava o barco (Maria Cristina, Devoto, Arriaga) nós ficávamos à espera … Os homens descarregavam as mercadorias e nós, os pequenos, se avistávamos um carro (uma corsa) livre, pegávamos nele e ajudávamos a colocar as bagagens … Por cada carreto entre a ponta do cais e a atual Praça do Barqueiro ganhava-se 2$50 …

 - E davam mergulhos? – Perguntei, partilhando o entusiasmo e recordando também a azáfama do velhinho cais das colunas …

- Sim. Mas não muitos!!! Os estrangeiros eram poucos. Muito poucos!! Mas quando lá aparecia algum, um de nós atirava uma moeda (a servir de engodo) e um grupo começava a mergulhar… dava pouco … isso e os carretos talvez chegasse a 20 escudos … em dias bons, claro!!!

E fomos ficando, assim os dois, nesta conversa marinha, embalados pelo tempo que o balanço do barco sugeria….

- Um dia destes, hás de contar-me mais coisas.

Trindade prendeu os olhos no mar. Disse que sim.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

DE REGRESSO



 
Estamos de volta às Memórias das Gentes que fazem a história. Entre o Porto do Funchal, o Ultramar e os muitos países para onde os madeirenses levaram a ilha. Neste Palácio das Mercês, queremos ouvir a sua história de vida, valorizar os documentos que repousam no tempo, dentro de caixas esquecidas, entender a história do nosso arquipélago, a partir das suas lembranças, dos registos que foi fazendo.
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 
Estamos de volta. Aqui. Venha ter connosco!
 
RUA DAS MERCÊS, 8
FUNCHAL
 

terça-feira, 13 de agosto de 2013


RAPAZES DA MERGULHANÇA OU APANHADORES DE ESTRELAS

 

Eram rapazes com pele de mar. Era miúdos a crescer na pressa dos dias, a querer participar no movimento colorido das canoas a povoar o azul do mar.

Eram anfíbios: corriam atrás da bola de trapos no Campo Almirante de Reis e enfiavam os corpos franzinos no mar, como se aquele fosse também o seu lugar. E era. Eram apanhadores de estrelas. Ora do céu. Ora do mar.

Quando o navio chegava, saltavam para a água, da canoa ou do navio, ao encontro da moeda que os ingleses lhes atiravam. Se branca, melhor. Dava para mais: para um almoço de meio pão com molho, para uns cigarrinhos que ajudavam a enganar o tempo.  

Alguns eram verdadeiros artistas – desenhavam movimentos aéreos, atravessavam o navio de ponta a ponta a ponta, apresentavam a moeda presa entre o polegar e o indicador ou entre os dedos dos pés.  E pediam palmas. E agradeciam como os verdadeiros acrobatas. E queriam mais.

Nas canoas, outros rapazes preparavam-se: o Anão, o Venena, o Jana e os outros, os da mergulhança. Às vezes, tentavam fugir. Da mesma forma que fugiam da escola. Outras, eram apanhados pelo Cabo do Mar, ou porque não tinham licença, ou porque….

Quando os barcos vinham de noite, saltar do barco era uma aventura maior. Era como se uma estrela saltasse do céu e descesse aos ziguezagues, no bailado prateado da maré. Tinha de ser branca. Melhor, portanto.

Às vezes, enganavam os turistas – talvez não se chamassem assim, nesse tempo, os senhores e as senhoras que se embebedavam da beleza da aproximação a terra. E enfiavam a moeda – que, efetivamente, tinham apanhado – na dobra do calção de ganga rude e pediam mais.

Desse tempo de meninice, ficaram os restos dessa meninice que ainda se percebe nos olhos do Duílio e do Jana. Sobrevivem à vida, às marés e às mudanças. Sobrevivem e contam, com orgulho, como eram os tempos e as coragens, como era a vida na Rua de Santa Maria, de que cor eram os sonhos, com que linhas se cozia o futuro.

Os outros miúdos olhavam-nos com alguma inveja. E imitavam-nos, saltando das rochas da Barreirinha, atrás de caricas brancas como as moedas que vinham do resto do mundo. São parte das Gentes que fazem a Historia. Guardamos as suas Memórias, no âmbito do nosso Projeto, no Centro de Estudos de História do Atlântico. Graças a este Projeto de Memórias, é possível descobrir novos heróis e protagonistas da ilha, da cidade e do porto do Funchal. Estes meninos-mar são personagens da História do Porto. São heróis de uma cidade com o mar aos pés. Não podemos deixar que o tempo os esqueça.
in JM: 13 de agosto

sexta-feira, 26 de julho de 2013

... os bandidos ....


A tarde de ontem estava morna .... o mar e o céu, ambos envoltos numa neblina densa e inebriante ... a baía sossegada ... a conversa recuando cada vez mais no tempo ... outras épocas, outras gentes, os bandidos!!! (da PIDE!) ....



Dona I. recorda esse tempo [maldito] … e sem sequer proferir uma palavra, sentimos a dor que as lágrimas não conseguem disfarçar.  Aguardamos em silêncio... aquele silêncio que vai falando ao coração.


Dona I. vai bebericando o café, devagar ... sempre devagar .... a pressa já não mora aqui [ aos 80 anos, o tempo tem todo o tempo para oferecer] ... e vai contando a história do pai.



- era um simples carpinteiro, mas meteu-se na politica. Teve de fugir. Eu tinha apenas 2 anos. O meu irmão talvez uns 11. Era ele e mais 3. O combinado era encontrarem-se nas Cruzes, de noite e depois irem juntos para a praia onde uma canoa os levaria até a um barco que estava ao largo ... bem longe. O meu pai conseguiu. Os outros dois não.

 
… volta a bebericar o café ....

 


- Fugiu para a Espanha (não sabe mais detalhes). Recebíamos cartas com um nome espanhol [já não me lembro sequer desse nome]. Até que um dia o meu irmão mandou dizer que ia casar. Já era um homem feito. As coisas estavam mais calmas e o meu pai chegou de surpresa.

 

… as lágrimas deram lugar a um sorriso largo … neste recordar do momento em que olhando para o porta de casa exclamou incrédula:

 

- é o meu pai!!!!


 
A alegria durou pouco. Logo no dia seguinte a família foi visitada por um agente da PIDE. E dias depois, o pai desapareceu … desta vez …. para sempre.