O assalto (golpe de mão) deu-se em poucos minutos. Enquanto dois“turras” conseguiam fugir por entre a densa mata, outros sete jaziam no chão.Um deles, ao tentar fugir, foi baleado de rajada pelas nossas G3. Não sei explicar o que senti. Foi um misto de glória, qual atirador que atinge a sua presa, e ao mesmo tempo se sente como um Caim fugindo para o deserto…
Reuniu-se o pessoal. A “safra” fora excelente. Além da eliminação de sete elementos IN, apreendemos grande quantidade de munições, uma bazooka de fabrico chinês, três Kalashnikov, duas PPSH, uma Sterling e três HK21.
Regressámos de seguida, trazendo orgulhosos os troféus… Um milícia(tropa nativa) trazia, pendurada ao peito, a orelha de uma vítima que, no dizer dele, «Éle mató méu “errmao”»…
Pela manhã, chegados ao nosso aquartelamento a 24 de Dezembro desse longínquo, mas sempre presente 1970, fomos recebidos como heróis. Os nossos camaradas que, conjuntamente com milícias e GE (Grupos Especiais) ficaram aguardar o destacamento, davam tiros para o ar, ao mesmo tempo que a população vibrava em ritmos africanos…
Era véspera de Natal…
Ao chegar ao Posto Rádio, enviei mensagem para o comandante de Companhia dando conta do feliz “golpe de mão”.
À noite fizemos a Consoada. Não faltou o bacalhau com as batatas e umas couves regadas com azeite e vinagre. O “apoio logístico“, como se chamava ao tinto também não faltou. No meio da refeição, o alferes não se cansava de dizer: «Eu não disse que este ano seríamos nós a lhes darmos as Boas Festas?!…»
A meu lado, o cabo enfermeiro Faustino falava-me da sua noiva em Paço de Arcos… Eu, o único madeirense da Companhia, contava-lhe que na Madeira o Natal tinha o seu quê de típico: as missas do parto, o característico almoço de Natal com carne de vinho-e-alhos e milho frito, etc., os licores caseiros, o bolo de mel…
Já bem “aviado”, pegando numa garafa de “Constantino”, o alferes, órfão de pai e de mãe, aproximou-se do nosso recanto e, ao despejar uma boa dose de brandy, pediu: «Camacho, tu que andastes lá nos padres, canta uma canção de Natal para o pessoal… E tu também, Faustino. Olha, e aqui o Silvino que anda sempre a cantarolar… Cantem qualquer coisa de Natal. Hoje é noite de Natal!»
Fizemos a vontade. E até cantámos a duas vozes. Semi-ensaiados à pressa, entoámos o “Noite Feliz” de Franz Grüber. Não tivemos nem guitarra nem gaita de beiços. Só as nossas três vozes que silenciaram todo o pelotão…Enquanto uns, lutando pela sua liberdade, tinham morrido dois dias antes, nós festejávamos a nossa, celebrando com copos e lágrimas, o nosso estado de vida…
Saindo da cantina, com uma Nocal na mão, fui andando sozinho até junto do arame farpado. Parei, olhando o céu, onde as estrelas pareciam não ter brilho para mim nessa noite. Imaginava o que os meus familiares estariam a fazer… Como desejaria estar ao pé deles… enfim, e… aquela figura negra acair-me aos pés cravada de balas…
Ouvindo no transistor os Beatles, em “All you need is love”, o soldado que estava a fazer “reforço” no posto de abrigo perguntou: «Quem é o maricas que está para aí a chorar?… Oh! Logo vi, tinhas de ser tu, madeirense!»
— Toma, bebe tua cerveja… Vou-me deitar. Bom Natal!
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
Em dezembro: Memórias da Festa
Estas são as nossas MEMÓRIAS, as Memórias das gentes que fazem a História... da Ilha.
[agradecemos a todos aqueles que têm feito parte deste projeto]
Boas Festas! https://app.box.com/s/bprxp9ve8nt0ym1677wy
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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
NA VIVENCIA DE UMA GUERRA, HOUVE NATAL... ( II)
No fundo, tínhamos medo, por vezes, de prosseguir estas dissertaçõesperante alguns soldados. Um havia que tinha fama de “bufo” e, curiosamente, um dia, fazendo gala dos dotes literários, o alferes declamou “O Mostrengo” de Fernando Pessoa, ao que o transmissões Camacho retorquiu com “O Menino de sua Mãe”, do mesmo poeta. O dito soldado mirando-os, estupefacto, andou o resto da comissão a olhar-lhes de soslaio. Talvez a suspeita não fosse errada. Viemos a saber, mais tarde, que ele, na vida civil, trabalhava numa barbearia na Calçadada Estrela, ali bem perto de São Bento…
Alferes Lourenço, passada a meia hora em que enfiei o “dolman” sobre o camuflado, o cinto com as cartucheiras bem municiadas, e meti o PRC-10 às costas, veio para o meio da parada aguardar o pessoal escolhido. O cabo vago-mestre não dava mãos a medir, distribuindo rações de combate para três dias… O pessoal questionava o que é que ia fazer. O olhar, entre angustiante e quase de negação em sair àquela hora, naquela quadra, deixava no ar um presságio de que algo nos iria correr mal. O alferes, à frente do pelotão, pede ao furriel Oliveira para dar voz de “firme, sentido”!
— Camaradas, tenho conhecimento de que o IN pretende vir estragar o nosso Natal, tal como o ano passado, quando estávamos no Sete. Lembram-se? Até canhão sem recuo eles utilizaram… Este ano, quem lhes vai dar as Boas Festas somos nós…
— Mas, meu alferes…
— Não quero ouvir mais nada. Vamos embora e… calou…
E o pelotão lá saiu silencioso, cabisbaixo entreolhando-se e encomendando a alma a Deus, à Virgem de Fátima e a todos os Santos das devoções de cada um.
A noite, fria, trouxe em breve nuvens engras que cobriam o céu estrelado. O Cruzeiro do Sul deixou de irradiar a sua potente e bela luminosidade que torna as noites mágicas na savana africana. As bátegas da chuva tropical aumentaram copoiosamente, ao ponto de nos pôr completamente encharcados. No firmamento, os raios iluminam o céu de lés-a-lés, imprimindo cenas dantescas por entre os ramos esqueléticos das árvores da floresta. O ribombar constante dos trovões, ao compasso das nossas botas, por entre asfolhas no chão, empresta ao ambiente a atmosfera dum inferno que se aproxima… A noite alonga-se num caminhar constante em direcção ao objectivo. Já madrugada, parámos para retemperar forças. Após um cigarro fumado e de mais um questionar por entre a malta, do porquê daquela operação, foi dada ordem de avançar. O rio que, à nossa frente, nos separava da outra margem e que nos levaria ao acampamento dos guerrilheiros do MPLA, corria caudaloso, turvo, como que a nos querer dizer das dificuldades que teríamos que enfrentar. Em “bicha depirilau”, lá conseguimos atravessá-lo a vau, vencendo a torrente que nos impelia para jusante. Feita a recolha, prosseguimos o itinerário que o alferes jamais nos referiria.
Sabendo das minhas obrigações de operador de transmissões, em fazerQTR diário, dirigi-me ao alferes perguntando-lhe como justificaria a minha ausência no “ar”. Resposta pronta:
— O rádio avariou…
— E a caminhada prosseguiu, ora por entre o capim, ora por entre a savana…
Na manhã do terceiro dia, 22 de Dezembro, acordámos aos sons do“kisenje”. Arrepiei-me todo, e penso que todo o pelotão, a julgar pelas expressões de toda a malta. Nos olhos do alferes Lourenço, um brilho misturado de vitória, de ansiedade e de ódio, expressou-se nas palavras: «Merda! Somos ou não somos o batalhão “Leões do Leste”? Somos ou não somos o pelotão “Tigres”? Vamos lixá-los…»
Não sei porquê, mas, nessa como noutras alturas esquecemo-nos de tudo e de todos. Sei que pensei em Deus, na minha mãe, na minha namorada e…
( continua...)
Alferes Lourenço, passada a meia hora em que enfiei o “dolman” sobre o camuflado, o cinto com as cartucheiras bem municiadas, e meti o PRC-10 às costas, veio para o meio da parada aguardar o pessoal escolhido. O cabo vago-mestre não dava mãos a medir, distribuindo rações de combate para três dias… O pessoal questionava o que é que ia fazer. O olhar, entre angustiante e quase de negação em sair àquela hora, naquela quadra, deixava no ar um presságio de que algo nos iria correr mal. O alferes, à frente do pelotão, pede ao furriel Oliveira para dar voz de “firme, sentido”!
— Camaradas, tenho conhecimento de que o IN pretende vir estragar o nosso Natal, tal como o ano passado, quando estávamos no Sete. Lembram-se? Até canhão sem recuo eles utilizaram… Este ano, quem lhes vai dar as Boas Festas somos nós…
— Mas, meu alferes…
— Não quero ouvir mais nada. Vamos embora e… calou…
E o pelotão lá saiu silencioso, cabisbaixo entreolhando-se e encomendando a alma a Deus, à Virgem de Fátima e a todos os Santos das devoções de cada um.
A noite, fria, trouxe em breve nuvens engras que cobriam o céu estrelado. O Cruzeiro do Sul deixou de irradiar a sua potente e bela luminosidade que torna as noites mágicas na savana africana. As bátegas da chuva tropical aumentaram copoiosamente, ao ponto de nos pôr completamente encharcados. No firmamento, os raios iluminam o céu de lés-a-lés, imprimindo cenas dantescas por entre os ramos esqueléticos das árvores da floresta. O ribombar constante dos trovões, ao compasso das nossas botas, por entre asfolhas no chão, empresta ao ambiente a atmosfera dum inferno que se aproxima… A noite alonga-se num caminhar constante em direcção ao objectivo. Já madrugada, parámos para retemperar forças. Após um cigarro fumado e de mais um questionar por entre a malta, do porquê daquela operação, foi dada ordem de avançar. O rio que, à nossa frente, nos separava da outra margem e que nos levaria ao acampamento dos guerrilheiros do MPLA, corria caudaloso, turvo, como que a nos querer dizer das dificuldades que teríamos que enfrentar. Em “bicha depirilau”, lá conseguimos atravessá-lo a vau, vencendo a torrente que nos impelia para jusante. Feita a recolha, prosseguimos o itinerário que o alferes jamais nos referiria.
Sabendo das minhas obrigações de operador de transmissões, em fazerQTR diário, dirigi-me ao alferes perguntando-lhe como justificaria a minha ausência no “ar”. Resposta pronta:
— O rádio avariou…
— E a caminhada prosseguiu, ora por entre o capim, ora por entre a savana…
Na manhã do terceiro dia, 22 de Dezembro, acordámos aos sons do“kisenje”. Arrepiei-me todo, e penso que todo o pelotão, a julgar pelas expressões de toda a malta. Nos olhos do alferes Lourenço, um brilho misturado de vitória, de ansiedade e de ódio, expressou-se nas palavras: «Merda! Somos ou não somos o batalhão “Leões do Leste”? Somos ou não somos o pelotão “Tigres”? Vamos lixá-los…»
Não sei porquê, mas, nessa como noutras alturas esquecemo-nos de tudo e de todos. Sei que pensei em Deus, na minha mãe, na minha namorada e…
( continua...)
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
NA VIVÊNCIA DE UMA GUERRA, HOUVE NATAL...
Paulo Gilberto Camacho enviou-nos este texto contando acerca de um grupo de jovens militares que viveu a quadra natalícia longe de casa ... alhures no meio de África .... atolados de saudades e recordações ...
Eram cerca das 21 horas de 20 de Dezembro de 1970, quando, em todo o aquartelamento do Sessa,no Leste de Angola, a maioria dos militares se entregava à escrita dos últimos “bate-estradas” a desejar Boas Festas à família, à namorada, à madrinha de guerra ou, ainda, aos amigos que deixaram no “Puto” (Portugal Metropolitano).Outros entretinham-se na velha palhota, o nosso “snack-bar, a jogar à lerpa ou às copas, acompanhados das inseparáveis Cuca ou Nocal…
No Posto Rádio, o operador de transmissões Camacho acabara de dar por terminado o QTR das 21h00. Retirando os auscultadores e, ao rodar na cadeira improvisada em grade de cerveja, deparou-se com o ar circunspecto do alferes Lourenço a olhar para todo o material disponível e operacional de transmissões. Ele sabia o operador que tinha no pelotão. Era um indivíduo muito minucioso, muito cioso na manutenção do material de radio. Fazia gala de dizer que o “transmissões” era o anjo da guarda da tropa…
— Boa noite, meu alferes. Apetece-lhe uma Nocal?…
Indiferente ao convite, com ar carregado, perguntou:
— Camacho, o material rádio está todo OP a sair para a mata?
— Como sempre, meu alferes, porquê?
— Quero-te pronto, dentro de meia hora porque vamos sair por dois, três ou mais dias…
— Sair? Mas não recebemos nenhuma mensagem para tal, nem tão pouco o PAO (Plano de Actividades Operacionais) tem agendada alguma acção para esta data!…
— Prepara-te. Vou informar outros. Silêncio absoluto. Sabes, os “cabrões” como no ano passado, devem querer dar-nos as “Boas Festas”. Este ano, quem lhas vai dar somos nós…
— Está louco? Nesta altura, em época de Natal, ir para a mata à caçados “turras“ por capricho seu? Já pensou na reacção do resto da malta? Jáviu que se algum de nós “lerpa” o problema de consciência que você vai ter?…
— Daqui a meia hora quero-te pronto. — E seguiu rumo ao nosso “snack” e à caserna, seleccionando o pessoal.
A confiança de diálogo entre os dois permitia, por vezes, que se esquecessem patentes e que falassem num tu a tu. Os serões de ambos eram passados a dissertar sobre filosofia, sobre o mundo actual, sobre a leitura de clássicos portugueses e estrangeiros, bem como dos escritores de então. Quase sempre terminavam o diálogo questionando-se do porquê daquela guerra, porquanto tempo ela iria aguentar, das razões que a fizeram e a mantinham. Havia sempre um misto de orgulho de um dever que estavam a cumprir e de uma revolta latente a lhes dizer estarem ali a defenderem as costas de determinados senhores e não o Império.
( continua...)
Eram cerca das 21 horas de 20 de Dezembro de 1970, quando, em todo o aquartelamento do Sessa,no Leste de Angola, a maioria dos militares se entregava à escrita dos últimos “bate-estradas” a desejar Boas Festas à família, à namorada, à madrinha de guerra ou, ainda, aos amigos que deixaram no “Puto” (Portugal Metropolitano).Outros entretinham-se na velha palhota, o nosso “snack-bar, a jogar à lerpa ou às copas, acompanhados das inseparáveis Cuca ou Nocal…
No Posto Rádio, o operador de transmissões Camacho acabara de dar por terminado o QTR das 21h00. Retirando os auscultadores e, ao rodar na cadeira improvisada em grade de cerveja, deparou-se com o ar circunspecto do alferes Lourenço a olhar para todo o material disponível e operacional de transmissões. Ele sabia o operador que tinha no pelotão. Era um indivíduo muito minucioso, muito cioso na manutenção do material de radio. Fazia gala de dizer que o “transmissões” era o anjo da guarda da tropa…
— Boa noite, meu alferes. Apetece-lhe uma Nocal?…
Indiferente ao convite, com ar carregado, perguntou:
— Camacho, o material rádio está todo OP a sair para a mata?
— Como sempre, meu alferes, porquê?
— Quero-te pronto, dentro de meia hora porque vamos sair por dois, três ou mais dias…
— Sair? Mas não recebemos nenhuma mensagem para tal, nem tão pouco o PAO (Plano de Actividades Operacionais) tem agendada alguma acção para esta data!…
— Prepara-te. Vou informar outros. Silêncio absoluto. Sabes, os “cabrões” como no ano passado, devem querer dar-nos as “Boas Festas”. Este ano, quem lhas vai dar somos nós…
— Está louco? Nesta altura, em época de Natal, ir para a mata à caçados “turras“ por capricho seu? Já pensou na reacção do resto da malta? Jáviu que se algum de nós “lerpa” o problema de consciência que você vai ter?…
— Daqui a meia hora quero-te pronto. — E seguiu rumo ao nosso “snack” e à caserna, seleccionando o pessoal.
A confiança de diálogo entre os dois permitia, por vezes, que se esquecessem patentes e que falassem num tu a tu. Os serões de ambos eram passados a dissertar sobre filosofia, sobre o mundo actual, sobre a leitura de clássicos portugueses e estrangeiros, bem como dos escritores de então. Quase sempre terminavam o diálogo questionando-se do porquê daquela guerra, porquanto tempo ela iria aguentar, das razões que a fizeram e a mantinham. Havia sempre um misto de orgulho de um dever que estavam a cumprir e de uma revolta latente a lhes dizer estarem ali a defenderem as costas de determinados senhores e não o Império.
( continua...)
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
as [nossas] lapinhas .....
(…) – dispôr nos recôncavos da “rocha” os pastorinhos de
barro, colocar os pequenos candelabros de estanho com as velas de côr, ao alto,
e cá em baixo, junto à boca da furna que simboliza a choça de Belém, entremear
as “searas” com as jarras de junquilhos, pregar o alegra-campo pelas paredes, e
pôr em fileira, no contorno da mesa do presépio, as maças, laranjas e peras
pardas, de cujos intervalos pendem as “cabrinhas”…
J. Reis Gomes, 1935,
Natais : contos e narrativas, p.69
Estamos à espera das vossas fotos!!!
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
Por ser dezembro...
Em todas as casas, por esta altura, já se prepara a Festa.
Na memória das gentes que fazem a história, na nossa memória, portanto, há uma imagem destas... que nos traz - de um passado que não deixamos morrer - um cheiro a pomares de peros e de tangerinas, a lembrança de uma arca onde o pão se resguarda do tempo, a alvura de uma toalha de linho que as avós bordaram, um novo vestido para o Menino Jesus que protege as escadinhas e as searas e os licores e as broas e a alma de uma ilha que, por estas alturas - e por ser dezembro - se veste de alegria.
Na memória das gentes que fazem a história, na nossa memória, portanto, há uma imagem destas... que nos traz - de um passado que não deixamos morrer - um cheiro a pomares de peros e de tangerinas, a lembrança de uma arca onde o pão se resguarda do tempo, a alvura de uma toalha de linho que as avós bordaram, um novo vestido para o Menino Jesus que protege as escadinhas e as searas e os licores e as broas e a alma de uma ilha que, por estas alturas - e por ser dezembro - se veste de alegria.
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
os dias da festa ....
Assim escrevia Maria da Conceição para Francisco dos Santos emigrado no Curaçau
Lugar de Baixo 21 de Janeiro de 1920
(...) Meu adorado marido eu recebi a tua estimada e desejada carta na oitava do meio estimei muito em saber as tuas notícias e não calculas a minha alegria parece que enlouqueço de contentamento quando recebo carta tua, pois em dia de festa todo dia chorei por ti apezar de nada me ter faltado para esse dia mas não tive alegria porque senti muito a tua falta porque o cantinho que tu ocupavas na meza estava vazio (...) João veio passar os 3 dias da festa, veio na véspera à noite e foi na última oitava de manhã, elle trouxe-me tanta coisa e ofereceu-me 25$000 e matamos a ovelha (...) o teu irmão Henrique mandou-me uma bonita oferta de carne de porco e tua mãe também me mandou 2 bocados e a mulher do teu irmão João também me trouxe um bocado...
Lugar de Baixo 21 de Janeiro de 1920
(...) Meu adorado marido eu recebi a tua estimada e desejada carta na oitava do meio estimei muito em saber as tuas notícias e não calculas a minha alegria parece que enlouqueço de contentamento quando recebo carta tua, pois em dia de festa todo dia chorei por ti apezar de nada me ter faltado para esse dia mas não tive alegria porque senti muito a tua falta porque o cantinho que tu ocupavas na meza estava vazio (...) João veio passar os 3 dias da festa, veio na véspera à noite e foi na última oitava de manhã, elle trouxe-me tanta coisa e ofereceu-me 25$000 e matamos a ovelha (...) o teu irmão Henrique mandou-me uma bonita oferta de carne de porco e tua mãe também me mandou 2 bocados e a mulher do teu irmão João também me trouxe um bocado...
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
... vieram da Guiné ...
O que se traz da guerra? Mágoas? Tristezas? Traumas? E uma vontade férrea de querer apagar da memória um intervalo da vida? Ou, pelo contrário, pedaços de uma terra quente, imensa, distante, por vezes hostil mas também inesquecível?
Chegou-nos uma coleção de postais. Vieram pelas mãos de Jorge Trindade. Vieram da Guiné.
Há mais?
Aceite o nosso desafio!!! Abra as gavetas e partilhe connosco as suas memórias!
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
Tita (o Pescador)
Chegou às nossas mãos mais uma narrativa das muitas que compõem a vida de uma pessoa. Augusto está na Austrália e é de lá que nos manda Memórias....
Meu Avô Falar de meu avô é começar a escrever a minha infância, desde os meus 2 anos de idade. Naquela época, era muito importante as moças casarem virgens e era contra tudo casar grávida. Isto aconteceu com a minha mãe e meu avô pô-la no meio da rua. Apesar dos protestos da minha avó, a minha mãe foi morar com a mãe e as irmãs de meu pai - as LOURAS, como todos lhes chamavam.
O TITA nunca mais quis ver a filha e o neto. Até um dia ...
Já eu gatinhava, quando a minha avó me levou a casa dela. Começou fazendo um berreiro com Virginia, a minha avó, mas se acalmou quando viu o menino subir pelas pernas dele.
Começou aí a minha infância com meu avô. Dizia minha mãe que ele tinha uma loucura por mim, e começou a aceitar a filha. Andava nas ruas a mostrar o seu neto.Levava-me de canoa, a passear e ao cinema (...) ver filmes mudos, do Charles Chaplin, que eu gostava muito. Era proibido levar crianças à noite ,mas meu avô escondia-me dentro um longo capote de inverno e o porteiro não dava por isso. Até um dia, até que quando começou o cinema sonoro ... e as coisas se tornaram pretas. Eu já sabia ler, graças a minha tia Luisa que, com os seus romances, me tornou um viciado na leitura e gastava muito petróleo à minha avó, pois naquele tempo não havia luz elétrica. Então, durante o filme, começava a ler as legendas, em murmúrio mas alguém ouvia e gritava :
- tem criança aqui dentro.
E paravam o filme , pobre porteiro procurando o fedelho, e era uma confusão total, mas o TITA conseguia acalmar a malta e o filme prosseguia.
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
Aventuras...
Entre memórias de mar e de juventudes, encontrámos um voo.
Estávamos em 1935. Do ponto mais alto do Ilhéu da Pontinha, Carlos Gonçalves ensaia um voo. Nessa queda de quase 35 metros, o desportista é um pássaro e dá um sentido novo a palavras como coragem, liberdade, desafio.
No Forte da Senhora da Conceição, uma prancha dá o impulso para o longe do mar...
O registo deste salto - que o Sr. Victor Caires guardou religiosamente - marca para sempre um momento em que, na Madeira, no Porto do Funchal, um homem ganhou asas e voou.
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
Adolescência irreverente
Parte IV.
Quem mais costumava ir ao Teatro
eram os simpatizantes do Corvo que tinham maior poder económico, mas nesse dia,
mal terminou o encontro, muitos desapareceram irritados. Os jogadores e dirigentes
do Arsenal chegaram ao Teatro roucos, foram aclamados e ovacionados que até parecia
não haver outras cores ali dentro. O Arsenal ganhou no mesmo dia três taças:
Simpatia, votada com os bilhetes no Teatro, Torneio e porque marcara mais um
golo do que o Corvo durante a época, recebeu o respectivo troféu.
Foi uma noite plena de emoções,
alegre e feliz.
Terminada a festa, descemos a pé
em cantoria e não sentimos o caminho.
Ao chegar a casa por volta das
dez horas da noite fui recebida com uma surpresa. A minha mãe estava atrás da
porta e sem mais qualquer conversa deu-me duas vergastadas com uma cepa de
videira dizendo: “Toma lá que é para saberes que não te autorizei a ires ao
teatro. Ainda és muito nova para tomares decisões. Se tivesses vindo a casa
podias levar a tua irmã.”
Sabendo que se tivesse ido para
casa não voltaria a sair, apesar de combalida e ferida no meu orgulho,
continuei feliz, porque a festa e a alegria foram superiores à mazela.
A minha irreverência deixou
marca, tentei imitar alguns jovens da minha idade que gozavam de uma certa
liberdade, mas o meu atrevimento foi mal sucedido e envergonhada com a marca
nas pernas, não saí de casa durante uma semana. Foi a única vez que recordo ter
apanhado com uma vergasta.
No dia seguinte fiquei a saber
que havia um bouquet para entregar ao vencedor, mas como não ganhara o Corvo,
as flores apareceram estragadas atrás de um camião.
E como há sempre um poeta em cada
canto, também aqui houve alguém que improvisou umas quadras alusivas ao
acontecimento e as fez distribuir nas casas dos dirigentes e aficionados do
Clube adversário.
Diziam assim:
E numa
tristeza insana
Na cabeça
tantas dores,
Com beiças e muita
gana
Estragaram as flores.
Tudo estava
preparado
Festa, sandes
e canjinha
Mas o ovo foi contado
No traseiro
da galinha.
E sem esquecer
os heróis do acontecimento:
Com Almeida e
grande Elias
Um Fernando e um Garcês
Não vale a
pena arrelias
Pois perdem
p/ra outra vez.
Teresa Valério
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
Adolescência Irreverente - parte III
Esta é a penúltima parte desta estória da história de Teresa Valério:
Em meados de Setembro, estava a
ser preparado com entusiasmo um grande torneio a fim de ser encontrado o
campeão da época. Para maior animação fora convidado o grupo da Ribeira Brava
que costumava levar uma enorme claque. A animação aumentava por toda a
freguesia, onde rapazes e raparigas preparavam faixas, bandeiras, chocalhos e
pandeiretas para terminar em festa e em beleza. O que ninguém estaria à espera
e causou grande surpresa e descontentamento a muitos jovens foi o agendamento
de uma novena no Pico da Cova, no mesmo dia do torneio. A Capela Torre ali
erigida, dedicada a Nossa Senhora de Fátima foi construída para agradecer o fim
da Segunda Guerra Mundial e inaugurada poucos anos antes. Muitos eram os
emigrantes que mandavam celebrar novenas em honra de Nossa Senhora naquele
local implorando a Sua ajuda e pedindo protecção, algumas com pompa e
circunstância, caso desse dia.
Já tinha eu dezasseis anos, pedi à
minha mãe para me fazer sócia do clube da minha simpatia, o que mereceu a sua
concordância. Quando me fui inscrever, convidaram-me para a festa da
inauguração da sede. Aproveitando o forno de uma vizinha que amassara pão, fiz
um bolo de laranja para levar e prontifiquei-me a colaborar nos serviços, como
o fizeram outras simpatizantes. Sendo habituada a servir na casa de chá das
festas da Vila e do Rosário, tinha alguma experiência do assunto e tudo decorreu
com normalidade.
Em meados de Setembro, estava a
ser preparado com entusiasmo um grande torneio a fim de ser encontrado o
campeão da época. Para maior animação fora convidado o grupo da Ribeira Brava
que costumava levar uma enorme claque. A animação aumentava por toda a
freguesia, onde rapazes e raparigas preparavam faixas, bandeiras, chocalhos e
pandeiretas para terminar em festa e em beleza. O que ninguém estaria à espera
e causou grande surpresa e descontentamento a muitos jovens foi o agendamento
de uma novena no Pico da Cova, no mesmo dia do torneio. A Capela Torre ali
erigida, dedicada a Nossa Senhora de Fátima foi construída para agradecer o fim
da Segunda Guerra Mundial e inaugurada poucos anos antes. Muitos eram os
emigrantes que mandavam celebrar novenas em honra de Nossa Senhora naquele
local implorando a Sua ajuda e pedindo protecção, algumas com pompa e
circunstância, caso desse dia.
Eu, conhecia o sentimento da
minha mãe e sabia que a sua decisão seria - primeiro a novena,- embora ela, por
motivos de saúde não se deslocasse à capela que ficava a cerca de uma hora de
caminho a pé. Conformada, e porque tinha ainda na memória o acontecido umas
semanas antes, embora contrariada, aceitei o veredicto.
Com muita mágoa naquele dia, em
vez de descer para o Calhau, tive de subir até ao Pico. Durante a celebração
ouvia os foguetes lá ao fundo e ficava em sobressalto. Sabendo que o Arsenal
naqueles encontros costumava claudicar, só podia ser o Corvo a fazer a festa, o
meu cérebro rodopiava e ainda hoje me sentencio pela pouca atenção prestada.
Terminada a cerimónia, descemos o
pico numa correria e mal chegamos ao Laranjal já um grupo de jovens chegava em
algazarra, animados com apitos e bandeiras do Arsenal. Eu nem queria acreditar…
O Meu clube do coração tinha ganho ao Corvo por dois a zero, em terceiro lugar
ficara o Botafogo.
Nessa mesma tarde havia um
espectáculo no Teatro Gil Vicente nas Feiteiras, onde iriam atribuir uma outra
taça- Simpatia- com os bilhetes da entrada a servirem de voto. Eufórica,
imaginei nova aventura e logo enviei a minha irmã para casa com umas vizinhas
pedindo que levassem o recado à minha mãe. Fiquei com outra amiga e a passo
largo subimos a vereda da Corrida das Feiteiras que ia sair junto ao dito
Teatro. Num ápice lá estávamos. A alegria do reencontro com simpatizantes em
delírio foi tão emocionante que nos abraçámos e chorámos. O bilhete custava um
escudo, a Leonor comprou os dois para eu pagar quando pudesse. Junto à porta
encontravam-se três caixas grandes, cada qual com o emblema do Clube em que
devíamos votar, na caixa do Arsenal colocamos o couto do bilhete e entramos
cedo para conseguir um bom lugar. Subimos para o balcão ainda com muitos
lugares à escolha, mas dispensamos, porque só de pé é que nos apetecia estar.
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
ADOLESCENCIA IRREVERENTE - PARTE II
Parte II
[continuação da narrativa de Teresa Valério]
Um dia, no princípio de Agosto, o árbitro chegou atrasado e o jogo começou bem mais tarde. Tudo decorria num clima de suspense sem que alguém imaginasse quem iria sair vencedor uma vez que o empate entre o Corvo e o Arsenal se mantinha já o jogo se aproximava do final. A minha irmã e eu protelamos a saída para rejubilar com a façanha dos azuis e branco, preferido de ambas, que apesar de não ser favorito estava a dar boa réplica de si, superando todas as expectativas. A cada minuto olhava o relógio, desejando que o tempo parasse até terminar a partida. Feliz porque o resultado não se alterou, mal o jogo terminou, fomos a correr até à Vila, entrando na igreja num estado de quase sufoco. Colocamo-nos uma de cada lado da mãe como de costume, imaginando que ficaria aliviada com a nossa chegada apesar de a novena estar quase a terminar. Ainda ofegantes, fomos surpreendidas, com um beliscão, uma no braço direito a outra no esquerdo, que aceitamos resignadas. Se fosse apenas isso já não era nada mau. Pior seria se no domingo seguinte ficássemos privadas de ir assistir ao jogo, nossa única distracção estival, pois já se falava na ida de uma equipa de Câmara de Lobos que sendo de um nível superior, daria um bom espectáculo. Estávamos por isso curiosas, mas ansiosas com o desenrolar dos acontecimentos. Esses jogos que nos deliciavam eram para eles um prémio pela classificação alcançada na temporada desportiva. Todos sabiam que, indo ao Norte jogar, tinham a garantia de um belo passeio, farra e jantarada.
[continuação da narrativa de Teresa Valério]
Um dia, no princípio de Agosto, o árbitro chegou atrasado e o jogo começou bem mais tarde. Tudo decorria num clima de suspense sem que alguém imaginasse quem iria sair vencedor uma vez que o empate entre o Corvo e o Arsenal se mantinha já o jogo se aproximava do final. A minha irmã e eu protelamos a saída para rejubilar com a façanha dos azuis e branco, preferido de ambas, que apesar de não ser favorito estava a dar boa réplica de si, superando todas as expectativas. A cada minuto olhava o relógio, desejando que o tempo parasse até terminar a partida. Feliz porque o resultado não se alterou, mal o jogo terminou, fomos a correr até à Vila, entrando na igreja num estado de quase sufoco. Colocamo-nos uma de cada lado da mãe como de costume, imaginando que ficaria aliviada com a nossa chegada apesar de a novena estar quase a terminar. Ainda ofegantes, fomos surpreendidas, com um beliscão, uma no braço direito a outra no esquerdo, que aceitamos resignadas. Se fosse apenas isso já não era nada mau. Pior seria se no domingo seguinte ficássemos privadas de ir assistir ao jogo, nossa única distracção estival, pois já se falava na ida de uma equipa de Câmara de Lobos que sendo de um nível superior, daria um bom espectáculo. Estávamos por isso curiosas, mas ansiosas com o desenrolar dos acontecimentos. Esses jogos que nos deliciavam eram para eles um prémio pela classificação alcançada na temporada desportiva. Todos sabiam que, indo ao Norte jogar, tinham a garantia de um belo passeio, farra e jantarada.
Ao regressarmos na companhia de
vizinhos, não vislumbrei qualquer animosidade e aproveitei para trocar olhares
interrogatórios com a minha irmã, pois com os problemas que a minha mãe tinha na
vista dificilmente descortinava os nossos trejeitos. O maior receio estava agora
na chegada a casa. Felizmente a visita surpresa da minha avó materna que vivia
nos Lameiros, um sítio distante, trouxe alegria à minha mãe e fez esquecer no
momento a nossa prevaricação.
Sendo eu a mais velha teria de
dar o exemplo, por isso, sempre atenta à minha irmã para não fazer asneiras,
tentei que durante a semana as coisas corressem bem de modo a não sermos
prejudicadas.
A partir desse dia, pareceu-nos
ter havido uma mudança de página, pois continuamos a ir ao futebol, o senhor
vigário deu folga nas novenas até ao fim do mês e passaram-se dois domingos sem
mais ninguém falar do assunto, aquele episódio torturante que pairou no ar
durante algum tempo, fora votado ao esquecimento.
Andava orgulhosa do meu Arsenal
que fazia acentuados progressos. Embora mais comedido nos últimos jogos, dentro
de campo todo o grupo ia portando-se bem e já pouca diferença fazia do seu
maior adversário, o Corvo, que até ali era considerado o clube mais forte
porque ganhara mais vezes, tinha uma claque de elite, mais associados e adeptos
mais endinheirados.
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
ADOLESCENCIA IRREVERENTE - PARTE I
Começaram a chegar pedaços de vidas. São narrativas, memórias, saudades...
Teresa Valério, natural de São Vicente, mandou-nos
Adolescência Irreverente
Talvez acorde as lembranças de outras pessoas. As suas, por exemplo.
Um dia ...
[ quarta-feira continuamos...]
Teresa Valério, natural de São Vicente, mandou-nos
Adolescência Irreverente
Talvez acorde as lembranças de outras pessoas. As suas, por exemplo.
Parte 1
Os primeiros anos da década de
cinquenta no século XX foram férteis em momentos de lazer e actividades
desportivas que trouxeram um certo burburinho ao Norte da Ilha, onde um grupo
de amigos, dando azo à sua imaginação, se lançou a convidar e orientar rapazes
com alguma aptidão para o futebol. São Vicente era ponto estratégico por ser
equidistante das duas freguesias vizinhas, Ponta Delgada e Seixal, ponto de
passagem obrigatória para aquelas localidades. Sendo um lugar aprazível, começou
por haver aos domingos um ponto de encontro que animava os muitos jovens ali
residentes em particular, mas toda a população em geral.
O futebol dava assim os primeiros
passos naquela região. Para maior animação fundaram três clubes e para poder praticá-lo
com regularidade deitaram mãos à obra construindo um campo com dimensões
mínimas no Calhau à esquerda da foz da Ribeira, paralelo ao caminho que seguia
para o Seixal, em plena orla marítima rodeado das pedras arredondadas e lisas
que muitas vezes serviram de assentos.
O Botafogo integrava no seu
plantel apenas jovens do sítio da Fajã da Areia, contava com a colaboração de
emigrantes no Brasil orgulhosos e saudosos da sua terra que enviaram material e
equipamento verde e amarelo, alem de colaborarem com algumas verbas para a sua
manutenção. O Corvo, nome da ave que segundo a tradição, esteve vários dias a
guardar o corpo do santo padroeiro, vestia de preto e vermelho. O Arsenal
equipava-se de azul e branco. Todos mantinham entre si uma normal rivalidade,
mas o Corvo e o Arsenal que recrutavam jogadores de toda a freguesia, a
adversidade era mais acentuada especialmente entre os adeptos que discutiam
muito, por vezes amuavam, chegando ao ponto do corte de relações.
Todos os domingos de Verão o
Calhau vivia momentos de muita animação atingindo por vezes a euforia
transformando-se num autêntico arraial. Quando organizavam torneios por norma
convidavam os jovens da Ribeira Brava e como bons anfitriões não faltavam os
agradáveis convívios que culminavam em agitado alvoroço na Vila pela noite fora.
Os dois maiores clubes do Funchal
tinham um acordo de cavalheiros e colaboravam enviando os seus jogadores para ensinarem
as regras, técnicas e truques, aproveitando o ensejo para fazerem o seu
jogo-treino semanal. O Marítimo dava apoio ao Corvo, enquanto o Nacional
ajudava o Arsenal, daí que a minha simpatia pelos alvinegros tenha surgido nessa
altura em plena adolescência.
Vivendo eu no sítio da Terra-chã,
sobranceiro ao Calhau, tinha autorização para assistir aos jogos se acompanhada
com determinadas amigas, mas condicionada a participar na novena que aos domingos
era celebrada na igreja paroquial.
Um dia ...
[ quarta-feira continuamos...]
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
MALAS...
Dentro delas, cabe um mundo. Dentro delas, cabe a esperança
e a saudade. Dentro delas, cabem sonhos e desilusões. Cabe o nada que é preciso
preencher. Cabe o passado e o futuro.
Nas nossas mãos, guardadas como relíquias, estão estas duas recordações:
uma, de porão, guardou angústias e medos, mas também presenças e afetos, num
tempo em que os rapazes iam para a Guerra
Mala de porão pertencente a Leonel Martinho Nóbrega
a
outra, de cartão, levou o vazio e as ausências de um rapaz de 12 anos rumo à
África do Sul, à procura da vida e da
paz, num tempo em que muitos rapazes-meninos fugiam da Guerra.
Mala de cartão pertencente a Manuel
Alexandre da Costa
terça-feira, 5 de novembro de 2013
Primeira viagem [ estórias de uma narrativa de vida]
Nos meados de 1952,trabalhava eu como aprendiz de desenhador, na fabrica Patrício e Gouveia. Tinha 16 anos. Era escuteiro, como eram os meus amigos de infância.
Nestes tempos nós não tínhamos televisão, o rádio ouvíamos muito mal, com muito ruídos.
A nossa diversão eram os livros, que eram devorados em poucos dias, as nossas praias belas e rochosas, onde passávamos a maior parte do tempo. E as caminhadas nas maravilhosas serras e acampamentos, onde dormíamos debaixo das estrelas.
Recordando agora, éramos bem mais felizes do que a mocidade de hoje. Tinha eu, como passatempo, escrever cartas para amigos no Continente e estrangeiro, e trocávamos postais e fotografias.
Nesse ano, havia um acampamento nacional dos escuteiros em Coimbra. Pedi ao meu pai que me deixasse ir e, ao mesmo tempo, fazer umas férias na casa do meu amigo e correspondente, José Carlos da Fonseca que vivia em Vila Nova de Famalicão. Vila muito pequena, nessa altura.
Ele morava com o pai , a mãe, e a única irmã, mais velha. Embarquei no navio Vera cruz . Muito preocupado, o meu pai pediu a um casal de amigos que ia para Lisboa na mesma viagem, para olhar por mim, como também a um empregado de bordo que era barman no navio .
Durante a viagem o barman viu que eu ficava a olhar um velhinho, que ficava numa cadeira no convés, embrulhado numa manta que lia o tempo todo e disse-me:
- Menino, o senhor que está ali é o famoso Almirante Gago Coutinho.
Chegando a Lisboa, foi um mundo novo que se abriu para mim: comboios, elétricos, arranha-céus ,etc. Apanhei o comboio para o Porto. Durante a viagem, no comboio, eu levava alguns presentes para o Carlos e para a família. Entre estes, ia um grande cacho de bananas, o qual chamou a atenção de alguns passageiros, que começaram a perguntar quem era o dono das ditas bananas. Eu, pequeno e franzino, respondi que era meu, mas que não era para vender.
Cheguei à estação de Campanhã, no Porto e, para a minha aflição, não encontrei ninguém me esperando. Quem me salvou foi um jovem que notou que eu usava um distintivo de escuteiro e, porque ia demorar o próximo comboio para Famalicão, se ofereceu para levar-me a sua casa para lanchar.
A senhora sua mãe deliciou-nos com o mais rico lanche que já tinha tido: bolinhos de bacalhau, rissóis de carne, de galinha etc.
Eu estava muito desconfiado devido ao facto de meu pai me ter dito que tivesse cuidado com os continentais.
Segui para Famalicão, e tive o mais belo tempo da minha vida. Conhecendo o meu amigo, a sua mãe, pai e irmã e as suas comidas e hábitos como também a vila, pela qual, depois deste tempo, continuo enamorado.
Depois de 3 semanas no Norte, continuei para a bela cidade de Coimbra, onde me encontrei com os meus escuteiros do grupo 88 do Socorro. Vim de volta no navio Serpa Pinto que me deixou no Funchal.
Augusto Sousa Melbourne, 03 Novembro de 2013
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
MEU PADRINHO - O JUANICO
DESTA VEZ, O TEXTO NÃO É NOSSO. FOI-NOS ENVIADO POR MAIL, COMO REAÇÃO À NEWSLETTER Nº 10, PUBLICADA NO POST ANTERIOR.
Nasci na madrugada chuvosa e fria de 5 de Dezembro 1935 . Fui o primeiro filho de Mariazinha, como todos a chamavam. A minha mãe era filha da Virginia ( A Botica ) e de José (O Tita ). Meu pai, o Augusto, era mais conhecido como “O Quanza”.
Houve problemas com o parto, como era costume nesses dias, e eu vim ao mundo quase morrendo.
A minha Avó, correndo, me levou, embrulhado num xaile, até à igreja de Nossa Senhora do Socorro, acordando o bondoso padre Laurindo.
Lá foram até a igreja, minha Avó, explicando a urgência do Batizado. Ele perguntou, então, onde estavam os padrinhos.
Botica lhe respondeu, chorando, que não sabia que preciso naquelas circunstâncias.
Responde-lhe o padre:
- A madrinha pode ser Nossa Senhora do Socorro, mas precisamos de um padrinho.
Botica, aflita, correu para o adro da igreja, com a esperança de que alguma alma caridosa aparecesse .
Algum tempo depois, já perdendo a esperança, viu que, lá longe, vinha um homem alto e forte que ela reconheceu.
- Juanico, vem salvar meu neto que está morrendo e precisa ser Batizado.
Ele logo disse que sim e eu, o seu neto Antoninho, fui Batizado com todas as bênçãos.
Anos mais tarde, com 5 ou 6 anos de idade, via meu padrinho Juanico, que era como nós o chamávamos. Como era costume naqueles tempos, pedia-lhe:
- Padrinho a sua bênção,
e lá vinha uma moedinha. Mas o melhor eram as histórias que me contava, Ilhas maravilhosas, cobertas de praias de areias douradas, sereias lindas, Baleias do tamanho de um Vapor, papagaios que falavam e outras coisas que me deixavam a sonhar acordado. Hoje, muitas vezes, voltando ao passado, continuo a ver este homem,
alto e esbelto como um gentleman.
Augusto Sousa
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Newsletter
Há histórias de gente que o tempo guardou... Esta, por exemplo, a do Juanico: o homem do mar, o bomboteiro, o Homem, o galã....
Vale a pena espreitar. https://app.box.com/s/v8cf1zyjur22js8o8jhh
Vale a pena espreitar. https://app.box.com/s/v8cf1zyjur22js8o8jhh
terça-feira, 29 de outubro de 2013
entre cá e lá ......
Maria da Conceição ficou em casa no Lugar de Baixo, Ponta do Sol. Francisco partiu para o Curaçau. Entre cá e lá a vida vai correndo dorida pelas saudades ...
… os nossos filhinhos me fazem tonta com perguntas a teu
respeito. O Fernando já diz pae, o
Clemente ajuda-me a trabalhar mas às vezes também chora para não hir e o Luiz traz os molhinhos de herva à cabeça. (CEHA- Arquivo memórias:
carta de 19 novembro 1929)
…também te dou a saber que teu irmão ficou dentro não ficou
livre o pobre do teu pai trabalha que mete dó a tratar de a sua vaca e a d’elle e regar cavar tratar de
porcos rachar lenha e fazer todo o serviço e elle
coitado anda sempre doente (…) é cramar que não encherga nada que conhece as pessoas é pela fala porque não tem um
tabaquinho … (CEHA-
Arquivo memórias: carta de 16 junho 1930)
…o teu irmão José falou à Ilda do Andrade pra casar andou
lá de noite e dia mas os amores duraram pouco porque elle já a largou
enfastiou-se d’ella (CEHA- Arquivo memórias:
carta de 21 janeiro 1920)
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
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