Construir uma vida. Habitar as memórias, trazendo o tempo para as palavras. Empreender uma viagem pela história pessoal e, porque não pode ser de outra maneira, pela história dos lugares que habitamos, pela história da Ilha.
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
um sobrescrito...
De vez em quando, Manuel Costa traz um bocadinho mais da sua vida. Este ano é, para ele, um ano especial. Há 50 anos, menino ainda, sai para a África do Sul, à procura da vida. Vai fugido a uma guerra colonial que conhecia através do olhar: rapazes que iam e vinham diferentes: mais velhos, mais parados, feridos; mães que recebiam cartas a dizer...
Manuel não queria que a mãe chorasse dessas lágrimas. Por isso foi. Antes de ser homem. Fazendo-se homem antes da altura de se entender o que é isso de crescer.
Não sabe por que razão a mãe guardou este envelope. Vazio. Trouxe-o no meio de outras coisas desse primeiro ano de ausência. O que viria escrito lá dentro? Que recados? Que saudades? Que coragens? Que medos?
Manuel não queria que a mãe chorasse dessas lágrimas. Por isso foi. Antes de ser homem. Fazendo-se homem antes da altura de se entender o que é isso de crescer.
Não sabe por que razão a mãe guardou este envelope. Vazio. Trouxe-o no meio de outras coisas desse primeiro ano de ausência. O que viria escrito lá dentro? Que recados? Que saudades? Que coragens? Que medos?
sábado, 15 de fevereiro de 2014
Retalhos do tempo

Passados muitos anos sobre a morte do pai, os filhos encontram, no forro da gaveta, uma série de agendas onde se escreve a vida de uma homem do mar... Partilhamos duas páginas dessa história - já digitalizadas e encadernadas, conforme me chegou às mãos.
Na apresentação desse documento - presente de Natal aos mais próximos - este parágrafo:

" Em sua honra, pai, (...) reconhecemos a sua capacidade de ter sabido ser uma pessoa arrojada por entre as ondas do mar, piloto das artes de navegar. (...) Assim, pai, saibamos ser sábios como o senhor, com cabecidade, palavra que inventou para nos educar" (E. F. )
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
LEMBRA-SE?
| Pormenor do Presépio dos Bombeiros [Calheta] |
Pensar memória é pensar as casas que fizeram parte das
nossas vidas: ricas ou pobres, grandes ou pequenas, nossas ou arrendadas, a
verdade é que, por entre as brumas do tempo, há um lugar que nos ajudou a
criar...
Por entre as histórias que temos recolhido, há casas. Dentro
das casas, a cozinha é sempre um lugar que guarda lembranças de pão ou de fome,
de objetos que já não há, de uma mesa à volta da qual se comia, se falava, se
liam as cartas que vinham de fora, se chorava e se deitava contas à vida.
Hoje, a memória é a de uma cozinha que, no longe que os anos
trazem, nos fazem lembrar pessoas, momentos,
sentimentos, sabores, saberes...
Convidamo-lo a partilhar connosco as memórias das cozinhas
que – de um jeito qualquer – fazem parte da sua história.
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Histórias das histórias de vida
Universidade Sénior
do Funchal
Lançámos o repto: e se se escrevesse a história de vida? No
início, um pouco a medo, depois, com a vontade que as memórias vão trazendo,
fomos falando do tempo e do que ele mudou; fomos escrevendo histórias, atrás de
um guião que não era mais do que isso: um caminho.
Por entre escritas do eu e do mundo, ora alegres, ora
tristes, fomos recebendo capítulos soltos de histórias da Ilha que, num
determinado ponto da linha dos anos, tocou a história de alguém:
Partilhamos, hoje, este excerto que Maria da Graça Fráguas
escreveu no dia 5 de dezembro de 2013, no CEHA:
Entre casas e lembranças, fala de CINEMA. Há 60 anos, era
assim:
“ (...) O meu pai filmava tudo,
Os filmes, rolos de 8mm eram enviados para a Alemanha a fim de serem revelados.
Quando chegava, havia festa em casa. No quintal era colocado um lençol branco,
cadeiras alinhadas: as mulheres sentadas e os homens em pé, para darmos início
à sessão de cinema. Passavamos a tarde a rir e a comentar os filmes da nossa
vida, terminando com filmes mudos do Charlot”.
Nesses filmes de casa estão certamente quotidianos, festas,
passeios, paisagens... A ilha ficou lá, plasmada, gravada no para sempre das
fitas... A saudade também.
Pela partilha, D. Maria da Graça, muito obrigada!
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
HISTÓRIAS DE VIDA (PARTE 2)
Voltamos à história de Augusto e ao seu orgulho de ter
nascido na babugem do mar.
No Campo Almirante Reis, havia um Parque Infantil, onde
andei com muitos garotos da minha rua. As
freiras davam-nos comida e ensinamento. Lembro-me de uma que era linda!
Depois, fui para escola primária de Santa Maria, que era por
cima do Alexandre, do Clube Marítimo. Depois, frequentávamos os Escuteiros, ao
lado da Igreja do Socorro. O Grupo 88 foi uma escola de vida. Fomos os primeiros
garotos do Calhau que se juntaram aos meninos de fora da nossa freguesia. Nunca
vi distinções dentro do nosso grupo. Isto ajudou muito na minha maneira de ser:
me deu hombridade, honestidade, lealdade e respeito para com os outros.
![]() |
| Igreja do Socorro |
Tenho muito orgulho de ter nascido nesta freguesia, por mim
tão amada e nunca esquecida.
Melbourne 04 de Dezembro
de 2013
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Newsletter nº 13 - Um ano de Memórias
Por entre memórias, percorremos o tempo, à procura de outras histórias para a história da ilha. Durante um ano, redondo, fomos partilhando informações, deixando recados do passado, trazendo, ao presente, retalhos de vidas, de situações, de medos e de coragens, de fugas e de sucessos.
Histórias ... de vida
De Augusto, do lado de lá do mundo, chegou-nos este texto:
Nasci na zona do Calhau, como se dizia nos anos 40. Ali,
viviam pescadores e bomboteiros, lado a lado com gente de “sangue azul” – os Ferras,
o Coronel Pereira, os Rodrigues da casa alta, os Abreus...
![]() |
| Augusto (o rapaz mais velho) e a família- Forte de São Tiago |
Ao lado da nossa casa, viviam o Joãozinho Sem Maldade e a
Luisinha, o Gordaça e a Menina Nazaré, os Serveteiros, a Mariazinha da Braza e
as suas quatro filhas lindas, uma das quais, a Cristina, foi a minha primeira
paixão.
E havia os amigos – os Japoneses, os filhos do Cambado, os
Canexas, entre outros que me acompanhavam nos banhos de mar e na Bilhardeira,
um jogo que, hoje, me faz lembrar o Cricket inglês
(continua)
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
O "DESENHO" DA GUERRA
Ontem, entrevistámos
José Faustino Diogo – professor aposentado, músico, homem de negócios.
Por entre lugares da vida – o Faial, o Funchal, o Porto Santo e Moçambique, foi
contando a sua história...
Na parte da guerra do
Ultramar, pegou numa folha branca, numa caneta e foi desenhando a geografia dos
sentimentos, o esquema das operações, as lógicas das vivências...
Fotografámos essa folha. É o desenho de um ano de vida
de um rapaz que, como todos os outros,
partiu... Estávamos em 1973. | Rabiscos feitos por José Diogo, durante a entrevista |
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
| À água |
J. A. Vieira foi o nosso último entrevistado. Além das
fotografias, trouxe-nos memórias de Moçambique, retratos de gente cujo nome não
sabe , mas que lhe ensinou que há mundos diferentes do nosso, cheiros
diferentes dos nossos, sonhos diferentes dos nossos.
No correr das folhas do álbum da guerra, foi contando o tempo...
Lembranças? Muitas. Saudades? Também.
| Troféus |
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
RETRATOS ...
... de Moçambique
| Pormenor da capa do álbum fotográfico |
Generoso, o Sr. Vieira fala de si, da guerra que foi fazer a
Moçambique, das imagens que não esquece e da alma nova que trouxe de lá.
Na primeira página daqueles retratos de 1971, um dos novos
heróis pátrios. O próprio. Com o olhar preso na distância de um futuro que pode
(ou não) começar ali, de uma uma vida que pode (ou não) acabar ali.
| 1ª página |
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
O ultramar dentro de um álbum
Um álbum de fotografias costuma guardar o tempo. Cada página
tem uma história que, por razão do momento, se quis guardar.
Recebemos este álbum da mão do Sr. Vieira. Contém
Moçambique: as gentes, a guerra, a juventude, as saudades, os medos. Revela-nos
uma memória – mais uma – do Ultramar, de homens e de armas, de cheiros,
- o cheiro do capim molhado fica para sempre em nós,
de mulheres, de camaradas,
- dependíamos uns dos outros,
da vida.
Ainda não nos tinha aparecido um álbum assim: específico
para aqueles 25 meses – foi o tempo do Sr. Vieira – longe daqui, na tropa.
Desvendaremos alguns destes retratos. Devagar. Porque é de vagar que a memória
é feita.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
Memórias do mar
Das memórias das gentes, há histórias menos felizes. Um dia
– podia ser hoje – o mar encapelou-se. O céu desfez-se, líquido, sobre a
cidade. Estamos na foz da ribeira de S. João. Há de ser inverno. A Gruta – que
ainda era restaurante – mirava a força das ondas. À frente, a Pontinha segurava os barcos...
Fotografia cedida por Sílvio Fernandes
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
outras memórias
Por entre as memórias da ilha, fica o tempo. Hoje, apenas
para evocar lembranças que ainda moram no longe das nossas casas, duas
fotografias quase etnográficas. São parte do presépio que os Bombeiros da
Calheta construíram este ano. Outras memórias.
Dentro das nossas casas guardam-se papéis. A história. A da sua família. A da Madeira.
Venha ter connosco, sim?
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
APELO DE ANO NOVO
De regresso. Desta vez, para
lembrar que continuamos à sua espera. E para lhe dizer que precisamos da sua participação: 2014 é o seu ano!

Guarda ainda as cartas e os
aerogramas do tempo em que Angola, Moçambique, Guiné , ... faziam parte da
nossa vida, da nossa história, dos nossos medos e das nossas coragens?
O
projeto Memória das gentes que fazem a História gostaria muito de as estudar, de
perceber a humanidade que aquela guerra guardou, de entender as palavras com as
quais a ilha se escreveu nesse período do nosso passado.
E
cartas, documentos antigos, fotografias ou histórias que, se não contar,
vão morrer consigo? Tem? Por favor, contacte-nos!
Venha ter connosco. Venha
contar-nos a sua história. Estamos na Rua das Mercês, nº 8. Telefone-nos:
291214970.
Desejamos-lhe um Ano muito feliz!
A sua participação no nosso projeto é muito importante: para nós, para si, para
a ilha, para a ciência.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Boas Festas
Às portas da Festa, agradecemos a participação de todos os que acreditaram no nosso Projeto e no sonho de não deixar morrer as nossas memórias.
Estes são, portanto, os nossos votos:que, nas vossas casas, haja saúde, paz, alegria e que a Festa seja um tempo de retemperar as forças e de preparar o futuro.
Estaremos à vossa espera, em janeiro: contamos com as vossas histórias, com as cartas que guardaram de outros tempos, com documentos que nos possam continuar a ajudar a manter acesa a Memória da nossa Terra.
Um Natal Feliz e um Ano Novo cheio das maiores venturas.
Estes são, portanto, os nossos votos:que, nas vossas casas, haja saúde, paz, alegria e que a Festa seja um tempo de retemperar as forças e de preparar o futuro.
Estaremos à vossa espera, em janeiro: contamos com as vossas histórias, com as cartas que guardaram de outros tempos, com documentos que nos possam continuar a ajudar a manter acesa a Memória da nossa Terra.
Um Natal Feliz e um Ano Novo cheio das maiores venturas.
quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
sobre saudades
DE LONGE, CHEGOU-NOS OUTRA MEMÓRIA DA FESTA... Sempre que chega Dezembro e o Natal, sinto que a Madeira toda participa da alegria profunda deste banquete do nosso Deus … "Dir-se-á naquele dia: aí tendes o vosso Deus …".
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
NA VIVENCIA DE UMA GUERRA, HOUVE NATAL... ( FIM)
O assalto (golpe de mão) deu-se em poucos minutos. Enquanto dois“turras” conseguiam fugir por entre a densa mata, outros sete jaziam no chão.Um deles, ao tentar fugir, foi baleado de rajada pelas nossas G3. Não sei explicar o que senti. Foi um misto de glória, qual atirador que atinge a sua presa, e ao mesmo tempo se sente como um Caim fugindo para o deserto…
Reuniu-se o pessoal. A “safra” fora excelente. Além da eliminação de sete elementos IN, apreendemos grande quantidade de munições, uma bazooka de fabrico chinês, três Kalashnikov, duas PPSH, uma Sterling e três HK21.
Regressámos de seguida, trazendo orgulhosos os troféus… Um milícia(tropa nativa) trazia, pendurada ao peito, a orelha de uma vítima que, no dizer dele, «Éle mató méu “errmao”»…
Pela manhã, chegados ao nosso aquartelamento a 24 de Dezembro desse longínquo, mas sempre presente 1970, fomos recebidos como heróis. Os nossos camaradas que, conjuntamente com milícias e GE (Grupos Especiais) ficaram aguardar o destacamento, davam tiros para o ar, ao mesmo tempo que a população vibrava em ritmos africanos…
Era véspera de Natal…
Ao chegar ao Posto Rádio, enviei mensagem para o comandante de Companhia dando conta do feliz “golpe de mão”.
À noite fizemos a Consoada. Não faltou o bacalhau com as batatas e umas couves regadas com azeite e vinagre. O “apoio logístico“, como se chamava ao tinto também não faltou. No meio da refeição, o alferes não se cansava de dizer: «Eu não disse que este ano seríamos nós a lhes darmos as Boas Festas?!…»
A meu lado, o cabo enfermeiro Faustino falava-me da sua noiva em Paço de Arcos… Eu, o único madeirense da Companhia, contava-lhe que na Madeira o Natal tinha o seu quê de típico: as missas do parto, o característico almoço de Natal com carne de vinho-e-alhos e milho frito, etc., os licores caseiros, o bolo de mel…
Já bem “aviado”, pegando numa garafa de “Constantino”, o alferes, órfão de pai e de mãe, aproximou-se do nosso recanto e, ao despejar uma boa dose de brandy, pediu: «Camacho, tu que andastes lá nos padres, canta uma canção de Natal para o pessoal… E tu também, Faustino. Olha, e aqui o Silvino que anda sempre a cantarolar… Cantem qualquer coisa de Natal. Hoje é noite de Natal!»
Fizemos a vontade. E até cantámos a duas vozes. Semi-ensaiados à pressa, entoámos o “Noite Feliz” de Franz Grüber. Não tivemos nem guitarra nem gaita de beiços. Só as nossas três vozes que silenciaram todo o pelotão…Enquanto uns, lutando pela sua liberdade, tinham morrido dois dias antes, nós festejávamos a nossa, celebrando com copos e lágrimas, o nosso estado de vida…
Saindo da cantina, com uma Nocal na mão, fui andando sozinho até junto do arame farpado. Parei, olhando o céu, onde as estrelas pareciam não ter brilho para mim nessa noite. Imaginava o que os meus familiares estariam a fazer… Como desejaria estar ao pé deles… enfim, e… aquela figura negra acair-me aos pés cravada de balas…
Ouvindo no transistor os Beatles, em “All you need is love”, o soldado que estava a fazer “reforço” no posto de abrigo perguntou: «Quem é o maricas que está para aí a chorar?… Oh! Logo vi, tinhas de ser tu, madeirense!»
— Toma, bebe tua cerveja… Vou-me deitar. Bom Natal!
Reuniu-se o pessoal. A “safra” fora excelente. Além da eliminação de sete elementos IN, apreendemos grande quantidade de munições, uma bazooka de fabrico chinês, três Kalashnikov, duas PPSH, uma Sterling e três HK21.
Regressámos de seguida, trazendo orgulhosos os troféus… Um milícia(tropa nativa) trazia, pendurada ao peito, a orelha de uma vítima que, no dizer dele, «Éle mató méu “errmao”»…
Pela manhã, chegados ao nosso aquartelamento a 24 de Dezembro desse longínquo, mas sempre presente 1970, fomos recebidos como heróis. Os nossos camaradas que, conjuntamente com milícias e GE (Grupos Especiais) ficaram aguardar o destacamento, davam tiros para o ar, ao mesmo tempo que a população vibrava em ritmos africanos…
Era véspera de Natal…
Ao chegar ao Posto Rádio, enviei mensagem para o comandante de Companhia dando conta do feliz “golpe de mão”.
À noite fizemos a Consoada. Não faltou o bacalhau com as batatas e umas couves regadas com azeite e vinagre. O “apoio logístico“, como se chamava ao tinto também não faltou. No meio da refeição, o alferes não se cansava de dizer: «Eu não disse que este ano seríamos nós a lhes darmos as Boas Festas?!…»
A meu lado, o cabo enfermeiro Faustino falava-me da sua noiva em Paço de Arcos… Eu, o único madeirense da Companhia, contava-lhe que na Madeira o Natal tinha o seu quê de típico: as missas do parto, o característico almoço de Natal com carne de vinho-e-alhos e milho frito, etc., os licores caseiros, o bolo de mel…
Já bem “aviado”, pegando numa garafa de “Constantino”, o alferes, órfão de pai e de mãe, aproximou-se do nosso recanto e, ao despejar uma boa dose de brandy, pediu: «Camacho, tu que andastes lá nos padres, canta uma canção de Natal para o pessoal… E tu também, Faustino. Olha, e aqui o Silvino que anda sempre a cantarolar… Cantem qualquer coisa de Natal. Hoje é noite de Natal!»
Fizemos a vontade. E até cantámos a duas vozes. Semi-ensaiados à pressa, entoámos o “Noite Feliz” de Franz Grüber. Não tivemos nem guitarra nem gaita de beiços. Só as nossas três vozes que silenciaram todo o pelotão…Enquanto uns, lutando pela sua liberdade, tinham morrido dois dias antes, nós festejávamos a nossa, celebrando com copos e lágrimas, o nosso estado de vida…
Saindo da cantina, com uma Nocal na mão, fui andando sozinho até junto do arame farpado. Parei, olhando o céu, onde as estrelas pareciam não ter brilho para mim nessa noite. Imaginava o que os meus familiares estariam a fazer… Como desejaria estar ao pé deles… enfim, e… aquela figura negra acair-me aos pés cravada de balas…
Ouvindo no transistor os Beatles, em “All you need is love”, o soldado que estava a fazer “reforço” no posto de abrigo perguntou: «Quem é o maricas que está para aí a chorar?… Oh! Logo vi, tinhas de ser tu, madeirense!»
— Toma, bebe tua cerveja… Vou-me deitar. Bom Natal!
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
Em dezembro: Memórias da Festa
Estas são as nossas MEMÓRIAS, as Memórias das gentes que fazem a História... da Ilha.
[agradecemos a todos aqueles que têm feito parte deste projeto]
Boas Festas! https://app.box.com/s/bprxp9ve8nt0ym1677wy
[agradecemos a todos aqueles que têm feito parte deste projeto]
Boas Festas! https://app.box.com/s/bprxp9ve8nt0ym1677wy
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
NA VIVENCIA DE UMA GUERRA, HOUVE NATAL... ( II)
No fundo, tínhamos medo, por vezes, de prosseguir estas dissertaçõesperante alguns soldados. Um havia que tinha fama de “bufo” e, curiosamente, um dia, fazendo gala dos dotes literários, o alferes declamou “O Mostrengo” de Fernando Pessoa, ao que o transmissões Camacho retorquiu com “O Menino de sua Mãe”, do mesmo poeta. O dito soldado mirando-os, estupefacto, andou o resto da comissão a olhar-lhes de soslaio. Talvez a suspeita não fosse errada. Viemos a saber, mais tarde, que ele, na vida civil, trabalhava numa barbearia na Calçadada Estrela, ali bem perto de São Bento…
Alferes Lourenço, passada a meia hora em que enfiei o “dolman” sobre o camuflado, o cinto com as cartucheiras bem municiadas, e meti o PRC-10 às costas, veio para o meio da parada aguardar o pessoal escolhido. O cabo vago-mestre não dava mãos a medir, distribuindo rações de combate para três dias… O pessoal questionava o que é que ia fazer. O olhar, entre angustiante e quase de negação em sair àquela hora, naquela quadra, deixava no ar um presságio de que algo nos iria correr mal. O alferes, à frente do pelotão, pede ao furriel Oliveira para dar voz de “firme, sentido”!
— Camaradas, tenho conhecimento de que o IN pretende vir estragar o nosso Natal, tal como o ano passado, quando estávamos no Sete. Lembram-se? Até canhão sem recuo eles utilizaram… Este ano, quem lhes vai dar as Boas Festas somos nós…
— Mas, meu alferes…
— Não quero ouvir mais nada. Vamos embora e… calou…
E o pelotão lá saiu silencioso, cabisbaixo entreolhando-se e encomendando a alma a Deus, à Virgem de Fátima e a todos os Santos das devoções de cada um.
A noite, fria, trouxe em breve nuvens engras que cobriam o céu estrelado. O Cruzeiro do Sul deixou de irradiar a sua potente e bela luminosidade que torna as noites mágicas na savana africana. As bátegas da chuva tropical aumentaram copoiosamente, ao ponto de nos pôr completamente encharcados. No firmamento, os raios iluminam o céu de lés-a-lés, imprimindo cenas dantescas por entre os ramos esqueléticos das árvores da floresta. O ribombar constante dos trovões, ao compasso das nossas botas, por entre asfolhas no chão, empresta ao ambiente a atmosfera dum inferno que se aproxima… A noite alonga-se num caminhar constante em direcção ao objectivo. Já madrugada, parámos para retemperar forças. Após um cigarro fumado e de mais um questionar por entre a malta, do porquê daquela operação, foi dada ordem de avançar. O rio que, à nossa frente, nos separava da outra margem e que nos levaria ao acampamento dos guerrilheiros do MPLA, corria caudaloso, turvo, como que a nos querer dizer das dificuldades que teríamos que enfrentar. Em “bicha depirilau”, lá conseguimos atravessá-lo a vau, vencendo a torrente que nos impelia para jusante. Feita a recolha, prosseguimos o itinerário que o alferes jamais nos referiria.
Sabendo das minhas obrigações de operador de transmissões, em fazerQTR diário, dirigi-me ao alferes perguntando-lhe como justificaria a minha ausência no “ar”. Resposta pronta:
— O rádio avariou…
— E a caminhada prosseguiu, ora por entre o capim, ora por entre a savana…
Na manhã do terceiro dia, 22 de Dezembro, acordámos aos sons do“kisenje”. Arrepiei-me todo, e penso que todo o pelotão, a julgar pelas expressões de toda a malta. Nos olhos do alferes Lourenço, um brilho misturado de vitória, de ansiedade e de ódio, expressou-se nas palavras: «Merda! Somos ou não somos o batalhão “Leões do Leste”? Somos ou não somos o pelotão “Tigres”? Vamos lixá-los…»
Não sei porquê, mas, nessa como noutras alturas esquecemo-nos de tudo e de todos. Sei que pensei em Deus, na minha mãe, na minha namorada e…
( continua...)
Alferes Lourenço, passada a meia hora em que enfiei o “dolman” sobre o camuflado, o cinto com as cartucheiras bem municiadas, e meti o PRC-10 às costas, veio para o meio da parada aguardar o pessoal escolhido. O cabo vago-mestre não dava mãos a medir, distribuindo rações de combate para três dias… O pessoal questionava o que é que ia fazer. O olhar, entre angustiante e quase de negação em sair àquela hora, naquela quadra, deixava no ar um presságio de que algo nos iria correr mal. O alferes, à frente do pelotão, pede ao furriel Oliveira para dar voz de “firme, sentido”!
— Camaradas, tenho conhecimento de que o IN pretende vir estragar o nosso Natal, tal como o ano passado, quando estávamos no Sete. Lembram-se? Até canhão sem recuo eles utilizaram… Este ano, quem lhes vai dar as Boas Festas somos nós…
— Mas, meu alferes…
— Não quero ouvir mais nada. Vamos embora e… calou…
E o pelotão lá saiu silencioso, cabisbaixo entreolhando-se e encomendando a alma a Deus, à Virgem de Fátima e a todos os Santos das devoções de cada um.
A noite, fria, trouxe em breve nuvens engras que cobriam o céu estrelado. O Cruzeiro do Sul deixou de irradiar a sua potente e bela luminosidade que torna as noites mágicas na savana africana. As bátegas da chuva tropical aumentaram copoiosamente, ao ponto de nos pôr completamente encharcados. No firmamento, os raios iluminam o céu de lés-a-lés, imprimindo cenas dantescas por entre os ramos esqueléticos das árvores da floresta. O ribombar constante dos trovões, ao compasso das nossas botas, por entre asfolhas no chão, empresta ao ambiente a atmosfera dum inferno que se aproxima… A noite alonga-se num caminhar constante em direcção ao objectivo. Já madrugada, parámos para retemperar forças. Após um cigarro fumado e de mais um questionar por entre a malta, do porquê daquela operação, foi dada ordem de avançar. O rio que, à nossa frente, nos separava da outra margem e que nos levaria ao acampamento dos guerrilheiros do MPLA, corria caudaloso, turvo, como que a nos querer dizer das dificuldades que teríamos que enfrentar. Em “bicha depirilau”, lá conseguimos atravessá-lo a vau, vencendo a torrente que nos impelia para jusante. Feita a recolha, prosseguimos o itinerário que o alferes jamais nos referiria.
Sabendo das minhas obrigações de operador de transmissões, em fazerQTR diário, dirigi-me ao alferes perguntando-lhe como justificaria a minha ausência no “ar”. Resposta pronta:
— O rádio avariou…
— E a caminhada prosseguiu, ora por entre o capim, ora por entre a savana…
Na manhã do terceiro dia, 22 de Dezembro, acordámos aos sons do“kisenje”. Arrepiei-me todo, e penso que todo o pelotão, a julgar pelas expressões de toda a malta. Nos olhos do alferes Lourenço, um brilho misturado de vitória, de ansiedade e de ódio, expressou-se nas palavras: «Merda! Somos ou não somos o batalhão “Leões do Leste”? Somos ou não somos o pelotão “Tigres”? Vamos lixá-los…»
Não sei porquê, mas, nessa como noutras alturas esquecemo-nos de tudo e de todos. Sei que pensei em Deus, na minha mãe, na minha namorada e…
( continua...)
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