segunda-feira, 14 de abril de 2014

O balamento da avó Virgínia

A Botica

A avó Virgínia era muito alta, muito branca e tinha um sentido de humor muito particular. Para os outros era  "A Botica", para ele era, simplesmente "a avó".
Na proximidade da Páscoa, jogavam os dois ao Balamento e inventavam formas de se surpreender:
"Eu jogava sempre com ela. Mas como ela era muito esperta, ganhava sempre. Ora se vestia de mendiga, ora mandava-me recado para a encontrar no Popular. Depois, escondia-se atrás dos homens, apontava-me o dedo e 
- Balamento, Antoninho.  
Um dia, chegou à nossa casa  com uns saquinhos bonitos e disse à minha mãe:
- Mariazinha, trago aqui as amêndoas para os meus netos.
Meus irmãos saltaram logo de alegria, procurando o seu saco. Minha avó exclamou:
- o primeiro é o meu neto que me ganhou este ano o balamento. É para ele o saco maior.
e eu, guloso como era - e rindo da cara de inveja dos meus irmãos - abri o saco e não pensei em mais nada, ao ver aquelas amêndoas de todas as cores.
De repente, trinquei uma. dei um grito. Era uma pedra redondinha, pintada de cor-de-rosa".
(das Memórias de Augusto Sousa)
 

quinta-feira, 10 de abril de 2014

MAIS REMÉDIOS...

O que faz uma mulher registar num caderno escolar remédios que parecem tratar doenças: artroses, pedra no rim, problemas na pele?
Imaginamo-la a pensar que as informações - que naturalmente recebera de outros - [veja-se a expressão "uma Senhora se corou"] -  podiam, um dia, vir a ser úteis...
doado por Teresina Teixeira

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Uma lição...

Tudo serve para estudar... No verso do postal, uma lição de Francês... Nunca se sabe...

do acervo de Teresina Teixeira

quinta-feira, 3 de abril de 2014

REMÉDIOS?

Por entre papéis e recortes e fotografias que Teresina nos trouxe - manuseando cada documento com um cuidado de arqueólogo - veio um caderno [daqueles que se levava para a escola]. Lá dentro: receitas de bolos, orações, transcrições da Bíblia ou de vidas de santos, explicação de doenças, remédios caseiros. Estes, por exemplo:

 
DARÁ CERTO?


segunda-feira, 31 de março de 2014

histórias...


 -Faltam alguns.

Augusto trouxe-nos fotografias que encontrou em gavetas e que estuda, com a delicadeza dos seus 78 anos. Ele é o rapazinho da gravata e mantém o olhar num horizonte que foi alargando ao longo da vida.

Disse-me,

- Você é das poucas pessoas que gosta das minhas histórias…

E conta outras coisas que ainda não me tinha contado, porque,

- vivo no passado, sabe?

Parece-me ser desse passado que alimenta o presente, porque o futuro …

Estamos a construir juntos a sua história de vida que cruza a ilha com o além-mar. E sorri, doce:

- Todos os dias agradeço a minha vida. Tive tanto amor!

 

terça-feira, 25 de março de 2014

Retratos

O tempo guarda-se, tantas vezes, em caixas velhas, em envelopes amarelos, em memórias que, às vezes mesmo querendo, não se pode esquecer.
Quando se revê os retratos, re-sente-se as dores e  as alegrias de quem já talvez não sejamos mas daquilo que compõe- tantas vezes- a matéria do que - ainda - somos.
Imagem doada por Joel

Imagem doada por Teresina

Imagem doada por Teresina

CONTINUAMOS À SUA ESPERA. QUEREMOS CONTAR A SUA HISTÓRIA, ESTUDAR A CORRESPOPNDENCIA QUE FOI GUARDANDO: A DA GUERRA, A DAS MOBILIDADES. QUEREMOS FAZER DE SI UM PROTAGONISTA DA HISTÓRIA.

sábado, 22 de março de 2014

Madeira

Por ser o Dia da Poesia, ontem, recebemos estes versos, por mail.  Estes e mais. Porque o autor [ou a autora] pensou em cada freguesia, em cada lugar que compõe a geografia dos afetos da Madeira. Manuel da Costa recebeu-os e enviou-os.
Agradecemos aos dois: são rimas da voz do povo. Memórias também:



quarta-feira, 19 de março de 2014

segunda-feira, 17 de março de 2014

16 de março 1971

 
De Angola para a Madeira.
De António para Maria
 
 



(...)
 
 

 
Este um tempo em que Portugal era também em África e que havia guerra. Contamos consigo,
caso ainda guarde a História dentro de cartas e de aerogramas que contam histórias que a História ainda não conhece. Venha ter connosco. Contacte-nos.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Vidas...


José Nunes
José Nunes nasceu em 1940 e veio viver para a Travessa das Torres ainda menino. Naquele tempo, havia fome. Muita. A Sopa do Cardoso resolveu muitos almoços,

- muitas vezes, era só isso, mais nada.

Veio ter connosco, na sequência de uma conferência que fomos fazer à Barreirinha, sobre Bombote e Mergulhança. Tinha muitas histórias de pobreza e de mar para contar: histórias de contrabando e de mulheres… Sabe do que fala: andou na  Mergulhança como os irmãos para ganhar um dinheirinho:

- Sempre ajudava: se fosse bom, dava para meio pão com peixe; se não, 12 tostões só dava para pão com molho  – o molho não se pagava…

A vida de José Nunes mudou: foi taxista, teve uma loja de artefatos, viajou…  Hoje, ri-se de quem se riu dele...

segunda-feira, 10 de março de 2014

Campeões



O insular ama o mar. Vive com ele, lado a lado. Às vezes, o mar fá-lo chorar. Outras, não. 


 José Custódio esteve connosco já há algum tempo a contar a sua história. Foi um campeão. Tratava a água do mar e das piscinas por tu. Trouxe-nos memórias de  juventude. Trouxe-nos amigos e viagens. Trouxe-nos a saudade de um tempo feliz, em que a natação fazia parte da vida. e o sucesso. e a saúde.

 

quinta-feira, 6 de março de 2014

Dinheiros...

Por entre cartas que contam a ilha, que falam de casa, dos filhos e da saúde... chega o tempo... De 1919, num papel que o século amarelou, o dinheiro...

(...)


Carta gentilmente doada por Teresina Teixeira



segunda-feira, 3 de março de 2014

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Uma memória de amor...

 Tinha 17 anos, era muito maduro, romântico, cheio de sonhos e queria abraçar o mundo. O tempo em que nasci era muito romântico e eu lia muito, apesar de ter pouca instrução: Steinbeck, Jonh dos Passos, Hemingway,Charles Dickens...
Já trabalhava como desenhista, numa fábrica de bordados... e pedi ao meu pai para me deixar ir, uma vez mais, a casa do meu amigo Carlos – que ainda hoje venero como irmão – a Vila Nova de Famalicão, no belo e verde Minho. Ele tinha uma irmã. Não sei quando nem como senti-me apaixonado por aquela moça. Ela não era bela nem feia, mas muito esbelta, muito simpática e muito carinhosa, não só para mim como para os outros.
Lembro-me que era uma tarde quente de verão. Nós dois estávamos no terraço e, apanhando suas mãos, lhe disse que a amava com todo meu coração. Ela sorriu e me falou:
- Menino, eu sou mais velha 6 anos que você,e seria bom que voltasse para a escola e depois então falamos... Respondi que não me importava da diferença de idade, pois era o amor que eu tinha por ela.
- Será que você não sente nada por mim?
Ela, com um doce sorriso, me respondeu que me amava, mas que era um caso impossível para a época, por causa da diferença de idade. Namoramos sem ninguém ver ou saber. No meio disto, havia um senhor abastado e mais velho do que ela que queria casar e os pais dela olhavam essa possibilidade com bons olhos. Fiquei desesperado e me lembrei de um filme que tinha visto: eram dois jovens apaixonados que os pais não queriam que casassem. O nome do filme era Explendor in the grass...http://www.youtube.com/watch?v=dWDkdsZQq_c E resolvi imitar o protagonista...


Augusto Sousa.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

"atesta por sua honra..."

Para emigrar, era necessário fazer prova de que se estava bem, de que não se sofria de nenhuma doença contagiosa ou mental.
Por entre papéis guardados e gentilmente emprestados por Teresina Teixeira, este:
Atestado Médico

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Da infância


Dentro de um envelope, uma história de vida...  
 

 
Apenas alguns trechos...
 

“da Ponta do Pargo ao Funchal, de horário, era um amédia de 4 horas e meia a 5 horas”


O poço...
“a minha infância não foi muito fácil, que tinha de trabalhar: regar as verduras, as semilhas, o feijão”

“a bola era uma meia com panos e o brinquedo, um  pião “




quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Newsletter n.º 14 - Escrever vidas

Construir uma vida. Habitar as memórias, trazendo o tempo para as palavras. Empreender uma viagem pela história pessoal e, porque não pode ser de outra maneira, pela história dos lugares que habitamos, pela história da Ilha.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

um sobrescrito...

De vez em quando, Manuel Costa traz um bocadinho mais da sua vida. Este ano é, para ele, um ano especial. Há 50 anos, menino ainda, sai para a África do Sul, à procura da vida. Vai fugido a uma guerra colonial que conhecia através do olhar: rapazes que iam e vinham diferentes: mais velhos, mais parados, feridos; mães que recebiam cartas a dizer...
Manuel não queria que a mãe chorasse dessas lágrimas. Por isso foi. Antes de ser homem. Fazendo-se homem antes da altura de se entender o que é isso de crescer.
Não sabe por que razão a mãe guardou este envelope. Vazio. Trouxe-o no meio de outras coisas desse primeiro ano de ausência. O que viria escrito lá dentro? Que recados? Que saudades? Que coragens? Que medos?

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Retalhos do tempo



Passados muitos anos sobre a morte do pai, os filhos encontram, no forro da gaveta, uma série de agendas onde se escreve a vida de uma homem do mar... Partilhamos duas páginas dessa história - já digitalizadas e encadernadas, conforme me chegou às mãos.


Na apresentação desse documento - presente de Natal aos mais próximos - este parágrafo:





" Em sua honra, pai, (...) reconhecemos a sua capacidade de ter sabido ser uma pessoa arrojada por entre as ondas do mar, piloto das artes de navegar. (...) Assim, pai, saibamos ser sábios como o senhor, com cabecidade, palavra que inventou para nos educar" (E. F. )



segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

LEMBRA-SE?


Pormenor do Presépio dos Bombeiros [Calheta]
Pensar memória é pensar as casas que fizeram parte das nossas vidas: ricas ou pobres, grandes ou pequenas, nossas ou arrendadas, a verdade é que, por entre as brumas do tempo, há um lugar que nos ajudou a criar...

Por entre as histórias que temos recolhido, há casas. Dentro das casas, a cozinha é sempre um lugar que guarda lembranças de pão ou de fome, de objetos que já não há, de uma mesa à volta da qual se comia, se falava, se liam as cartas que vinham de fora, se chorava e se deitava contas à vida.

Hoje, a memória é a de uma cozinha que, no longe que os anos trazem, nos fazem lembrar pessoas, momentos,  sentimentos, sabores, saberes...

Convidamo-lo a partilhar connosco as memórias das cozinhas que – de um jeito qualquer – fazem parte da sua história.