segunda-feira, 23 de março de 2015

Uma homenagem


Bordadeiras

 


 
 

Sentam-se á porta mal desponta o dia,
- em ao lado o cestinho de costura-
Cercadas de maciços de verdura
Aonde canta  alegre cotovia.
 
E n’esta doce paz, n'esta harmonia,
Beijadas pela aragem suave e pura,
N’uma cambraia da maior alvura,
-Tanta que a propria neve a invejaria ;-
 
Bordam um enxoval  para noivado ;
Mas que lindo que elle é! que bem bordado!
Nunca se viu uma  belleza assim;
 
Tão fresco ! todo a flôr de laranjeira!
E suspiram uma e outra bordadeira :
-Ah! se tudo isto fôsse para mim !
 
 RODRIGUES, António Feliciano (Castilho), Sonetos, Lisboa , 1916, p. 51.

terça-feira, 17 de março de 2015

Newsletter 26: Bordados da Madeira [uma história de vida(s)]

Há lugares onde o tempo se demora. Há lugares onde a História se borda, porque a História da Madeira é [também] uma História de se bordar. Há lugares assim: feitos de tesouros embrulhados em papel de seda, feitos de histórias de gente sem nome, feitos de viagens. Há lugares que ajudam a construir outras histórias, possibilitando mais um dinheirinho para ajudar a subsistência, abrilhantando festas em outros lugares do mundo, permitindo levar a Ilha em viagem…
Este é um lugar desses. Fica na Rua das Mercês, 31.
E tem um rosto: Joaquim Pedro Drumond de Sá e Sousa.
Data de nascimento:  16 de agosto de 1937
Profissão: Fabricado de Bordados da Madeira, melhor dizendo:  “Manufactures and Exporters of Madeira hand made Embroideries”.

segunda-feira, 16 de março de 2015

A próxima história...



O protagonista
 
Filho de Pedro Damião de Sousa e de Maria Drumond de Sá, Joaquim Sá e Sousa vive (d)os bordados há 62 anos...

Di-lo, entre gargalhadas, como se o tempo não lhe doesse e a vida continuasse a ser como era: cheia. De trabalho. De viagens. De amigos. De negócios feitos...

- O meu pai tinha uma fábrica de bordados, que ficava na Rua Conde Carvalhal, no Chão da Loba. Apenas ele e um outro irmão (durante algum tempo, apenas) se deixaram enredar nas teias dos pontos e das linhas, dos linhos e dos algodões…
-  Fui colega do Pinto da Costa, o próprio. Tudo o que ele sabe, foi eu que lhe ensinei (risos).

Joaquim Sá e Sousa (foto de Cláudia Faria)

quinta-feira, 12 de março de 2015

É ESTE O LUGAR...


Foto Cláudia Faria
 

 
A casa é um labirinto cheio de memórias. Por entre corredores escuros e trémulos  - porque a idade não perdoa [também aos edifícios], fomos descobrindo tesouros que mãos de artistas foram construindo, no vagar da vida de casa, no vagar da fazenda…

Em caixas de cartão, o trabalho [ainda] espera o seu lugar definitivo… Um dia destes, vamos desvendar o lugar… este lugar

segunda-feira, 9 de março de 2015

onde andarão?




foto Cláudia Faria 


o pó cobria a o armário, as prateleiras ... e a caixa de cartão ... assim que a abrimos ... ecoou naquela torre, abandonada, vozes de outros tempos ... murmúrios de mulheres que, incansavelmente, dia após dias, puxavam a linha ... diligentemente, aperfeiçoando os garanitos, as cavacas, as viúvas e as folhas...
... este tempo [antigo] cansou-se de nós ... por onde andam as bordadeiras?

quinta-feira, 5 de março de 2015

O princípio

Foto de Cláudia Faria
Começa aqui a descoberta de um mundo que acorda memórias antigas, daquelas com cheiro a anil e a brasas preparadas para o ferro de engomar.
Começa aqui. Uma porta aberta. Uma escadaria velha. Uma parede descascada. O silêncio...
Começa aqui a nova história de vida que havemos de contar...

segunda-feira, 2 de março de 2015

À espera do fim

Já foi uma casa de bordados. Já não é.
Na torre de uma casa velha da cidade, com vista para os telhados de uma rua [ainda] movimentada, jazem os restos da vida de muita gente ligada à indústria...
Os sacos, rotos de ratos e de velhice, esperam... o fim, talvez...
Foto de Cláudia Faria

Será este o futuro do Bordado Madeira?

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

um mistério ...


Eduardo Santos faleceu. Estava hospedado num hotel do Funchal… a 17 de outubro de 1922, o Tribunal anuncia publicamente, e tal como previsto na lei, o processo de arrecadação pelos herdeiros … incertos …
... não foi possível identificar estas pessoas...
... quem serão?
... o que faziam estas fotos na mão de Eduardo Santos?
 
 
 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

como recusar?




..e de repente... a máquina estava ali.. em cima de uma pequena secretária... a folha de papel ali colocada há largos anos ... alinhada... como que a convidar à escrita...ao desabafo... à confissão...

( prometemos voltar)

como se pode recusar um convite de uma página em branco?



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Newsletter 25: ARTUR DE BARROS E SOUSA, LDA. (entre a vida e o vinho: dois irmãos – Artur e Edmundo)

Porta fechada. À porta, com o olhar à espera, Artur Barros e Sousa de Olim aguarda Edmundo Barros e Sousa de Olim, seu irmão e companheiro de trabalho.
Da porta ao lado, aberta e movimentada, na casa Pereira d’Oliveira, Vinhos, uma saudação, um aperto de mão e a chave. Será ela a abrir o passado de um lugar cheio de história, de um lugar que, ao longo do tempo, recebeu o mundo e levou a ilha, engarrafada, em estado líquido, para os quatro cantos da terra.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

ERA UMA VEZ...

Dr. Pedro Lomelino

 
um médico que se chamava  Pedro José Lomelino,formado pela Escola Médico-Cirúrgica do Funchal. Nasceu na ilha do Porto Santo, a 19 de novembro de 1864 e faleceu – de acordo com o Registo Bio-biliográfico de Madeirenses, de Luiz Peter Clode  - a bordo do vapor “Sierra Morena”, em que regressava de Lisboa, no dia 9 de novembro de 1930. Era filho de Justiniano Lomelino e de D. Fortunata Augusta de Castro. Chamavam-lhe o erudito. Por se ter formado. Por ser doutor. 

Foi diretor e professor da Escola Distrital de Habilitação ao Magistério Primário, depois, Escola Primária Superior do Funchal. Foi, ainda, diretor do Banco da Madeira e da companhia de Seguros Aliança Madeirense e presidente da Assembleia Geral da Associação de Agricultura.

Exerceu vários cargos públicos, entre eles, o de governador substituto do distrito (por decreto de 22 de outubro de 1904), presidente da Comissão de Viticultura da Região da Madeira e Vogal da Junta Geral, como procurador do concelho do Porto Santo.

O pai tinha muitos terrenos de vinha e, para guardar a sua produção de vinhos do Porto Santo, adquiriu um prédio sito à Rua do Comércio, hoje, Rua dos Ferreiros...

Quadro de Edmundo Barros e Sousa de Olim
 
Vinha ali ao fim de semana, tomava um copo com amigos, fechava porta e ia-se embora. No ano seguinte, entrava mais vinho e foi entrando sempre mais vinhos, todos os anos. .. Ora, um dia...
 
 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Entramos




 Entramos. À nossa espera, Artur e Edmundo abriam, uma vez mais, uma porta que já não era sua...com eles, guiados pelo tempo e pela serenidade de quem cumpriu, percorremos os lugares ... as lembranças .. e fizemos MEMORIA do que afinal [ainda] não morreu..


 




quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Entramos?



- Está exatamente como deixamos...

Tudo permanece igual. Na parede, os patriarcas continuam atentos; sobre a mesa,  assuntos [que já não estão pendentes] aguardam um novo olhar.

O relógio parou. O telefone está calado.
Devagar,  Artur e Edmundo Barros percorrem um lugar onde guardaram grande parte da sua vida... E nós. com eles.


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Atrás de uma porta fechada...


Adicionar legenda
“A firma em questão é resultado do empenho pessoal do Dr. Pedro José Lomelino (1864-1930). (...)Decidiu desfazer-se da adega, entregando-a ao sobrinho, Artur Barros e Sousa, regressado do Brasil, que (...) deu sociedade a Edmundo Menezes Olim. A empresa é actualmente administrada pelos netos, Artur (…) e Edmundo (…).”

Vieira, Alberto, 2003, A Vinha e o Vinho na História da Madeira, Séculos XV a XX, CEHA, Secretaria Regional do Turismo e Cultura, Funchal, p. 455.

Já não é. A porta 109-111 da Rua dos Ferreiros está fechada. Lá dentro, tudo se mantém, igual, guardando a história de uma casa que se confunde com a história de uma família. Lá dentro, o mistério...

 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Casas...

Na Rua dos Ferreiros, que foi outrora, Rua do Comércio, a arquitetura marca o tempo. As casas são  memórias de vidas e de negócios. Guardam a alma da cidade, atrás dos ferros das varandas, atrás dos olhos das janelas...
Perdemos o hábito de pousar o nosso olhar nessas memórias que ainda vivem no seio da cidade. Esta que a Cláudia Faria registou, enquanto esperava por outras, mais próximas de nós... e que para fevereiro desvendaremos...
Ver-se-ia o mar daquela torre?

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

EM ESPERA



Algures, na cidade, numa mansarda que o tempo esqueceu, moram histórias escondidas…

Naquele tempo, o bordado era o outro lado da vida, aquele que permitia (sobre)viver à luta de cada dia, na conquista do pão que a terra (nem sempre) dá.

Hoje, nesta casa de bordados que já não o é, estão memórias: são objetos, restos de linho, selos espalhados pelo chão, luzes azuis de anil, cheiros de infância…

É o tempo em modo de espera.  Cristalizado. Bem no centro do Funchal.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

uma pequena descoberta ....


 
O número cinco da revista ORBIT de 1963 apresenta na capa uma florista da Madeira ... e Albert R. Perkins, repórter americano em visita à ilha das flores, na companhia da sua mulher, Jane, dedica quatro páginas à nossa ilha ... à passagem de ano, ao fogo de artificio, às piscinas do Lido, ao Mercados dos Lavradores e, por fim, à construção da pista do aeroporto... que nesse ano ... arrancava finalmente... aumentando as expetativas quanto ao número de visitantes.....
 

domingo, 18 de janeiro de 2015

Newsletter 24. Rebelo Quintal: Um Homem. A História

Ao iniciar 2015, o Projeto Memória das Gentes que Fazem a História inaugura uma nova série de Newsletters dedicadas à História da Madeira, a partir do olhar de homens e de mulheres que, de algum modo, contribuíram para construir aquilo que é, hoje, a História da Região Autónoma da Madeira.

Faz-se memória. Dos acontecimentos. Das pessoas. Dos ditos e dos não-ditos.
Na Biblioteca Pública Regional, uma exposição deu a conhecer a doação da Biblioteca Dr. Rebelo Quintal. Foi esse o pretexto para esta Newsletter. O que aconteceu na Madeira, ao longo do tempo que durou a vida de António Manuel Rebelo Pereira Rodrigues Quintal? Que acontecimentos marcaram a terra onde nasceu, viveu e morreu, desde o início da década de 30 do século XX e o início do século XXI (2013).

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

... um azul de anil

 Janeiro tem manhãs de céu azul ... cristalino ... e o sol, mesmo mais alto, aquece a cidade ... e quem se dispõe a observar a vida que corre à sua volta, tropeça, quiçá, num qualquer tesouro escondido...numa história por desvendar... num sonho interrompido...

 
 
 
 
e, assim, como que por magia, encontramos .... um outro azul [anil]  que nos transportou, de imediato, a outros tempos ...  às linhas, ao linho branco, às tardes mornas de trabalho, durante as quais a minha avó insistia em me ensinar a pegar na agulha e a fazer garanitos....

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Um postal... de ontem

Há gavetas que guardam o tempo. Mesmo sem memória, porque não se conhece as pessoas, porque não se conhece o sentido, porque ninguém sabe  o significado deste postal que a Cláudia encontrou por entre retratos velhos, de gente que já só mora dentro da família.  Sabe-se apenas que Maria de Nóbrega recebeu este postal da irmã, Elvira de Nóbrega, ausente na Austrália. Mais nada.

Postal do espólio de Cláudia Faria

De repente, uma história. Que segredos contarão estes jovens? De que falam? O que pretexta este chá? e o romantismo juvenil da mesa posta? O que contará este postal? E a porta aberta para o futuro?