Mostrar mensagens com a etiqueta Madeira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Madeira. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Por causa da invejidade...

 
 É termo bem característico madeirense - a invejidade, significando a inveja mal reprimida, encapotada, que moe e ginga, repiza e muito gira, a lançar mão de todos os meios para se alastrar, procurando anular a sombra que a escurece e molesta, umida e fria, infiltrante, deprimindo o que é alheio, a roçar-se a esquina, para realização dos seus fins. É a inveja dinâmica, sem sentido, nem direcção, impando uma coragem embexigada pela vacina do medo.
                                                                                                                     A. A. Sarmento (1944)
... uma cruzinha de alecrim...


... e uma reza:

... eu te curo de olhado mal  invejado e emprezado, em o nome que o padre te poz  na pia,  com  o nome de Deus e da Virge-Maria e das tres pessoas  da Santissima  Trindade.  Se está mal invejada, no  seu comer, ou no seu  beber, no seu vestir, no seu calçar,  no  seu  ter, na  sua  boniteza, na sua formosura (...)

.. .na  sua gordura, no seu andar; quem invejou  com  mau mado não torne a invejar. Arrebenta-te, cão, vae-te p'ra  o inferno. Alecrim  verde,  que  nasce no  campo, tirae  este mal  e  este  quebranto.  Home  bom,  mulher irada, palhas aguadas, por onde este mal entrou por lá sáia.  Credo, tres vezes credo, arrebenta  cão nas profundas do inferno. (SARMENTO, 1912:114-115).

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

a bordo do Arriaga...



Porque Agosto cheira a férias ... e a Porto Santo ... fica aqui um relato de tempos mais recuados ... de viagens por mar... a bordo do Arriaga...




... a minha primeira viagem....


Onze horas, eu e minha mãe chegamos ao cais da Vila Baleira e fomos ao encontro do meu Pai na altura tripulante de um cargueiro chamado Arriaga, comandado pelo então Arrais Paulino, homem calejado no mar, alto e robusto pendia uma das pálpebras de um dos olhos, que me fazia lembrar os tempos antigos dos piratas, tinha sofrido em tempos idos alguma maleita que lhe deixava o olho entre aberto quando olhava para nós.

Meu pai, aproximou-se e disse-nos “…vamos para bordo, que hoje sairemos mais cedo, as uvas, a cal e a água já estão a bordo…” assim o fizemos.

A bordo o meu pai esmerava-se em nos explicar como haveríamos de passar a viagem na câmara do barco (compartimento localizado no convés da embarcação de formato rectangular paralelo as bordas do barco e com uma altura útil que não permitia as pessoas adultas andar de pé) era ali que iríamos passar as quatro horas de viagem até a ilha da madeira....

Eu fiz a viagem a explorar o barco, ora na câmara ora perto do posto de comando que era na altura um leme comandado manualmente para bombordo e estibordo com um ferro em feitio de foice que lhe davam o nome de “cana de leme.


Trindade Melim

sexta-feira, 10 de julho de 2015

ADULTOS ANTES DO TEMPO

Estávamos em 1963. Manuel saiu da ilha com 12 anos, rumo à África do Sul. Fugia ao medo da guerra colonial, procurava um lugar onde os sonhos se realizassem com mas facilidade. Deixava, no cais, o pai e a professora. Partia... como tantos outros rapazes... rumo ao futuro.
Voltava dois anos depois: homem.


 
Guardamos a história do Manuel. Queremos preservar a sua. Se, um dia, emigrou, venha ter connosco e deixe-nos contar a sua história...



Visita de Manuel à Madeira. Tem 14 anos. Um copo de vinho pela mão da mãe, sinal de que já não é um menino.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

AGRADECIMENTO


Quase 3000 interações, no facebbok... A Newsletter das Memórias do mês de maio ultrapassou todos os números.


A si, que nos tem visitado e percorrido connosco os caminhos da memória, MUITO OBRIGADO. O nosso blogue já foi visitado por quase 30.600 pessoas... Uma honra!

 Sem a sua colaboração, este projeto não seria possível. Continuamos a contar com as suas histórias, com as tradições que não quer deixar morrer, com a correspondência que tem guardado ao longo do tempo, com as fotografias antigas que nos mostram a ilha de outras eras, com os papéis amarelos perdidos debaixo do forro das gavetas...

Estamos à sua espera. Venha ter connosco.

quarta-feira, 25 de março de 2015

HERBERTO HELDER de Oliveira

A morte está agora diante de mim
como o fim da chuva
como o regresso de um homem
que um dia partiu para além-mar.
(HELDER, 1996:213)

De procuras. De uma longa procura do coração da ilha. De conquistas. De uma longa conquista do mundo que mora para além das paredes basálticas que lhe serviram de berço. De universo. De uma constante busca do universo que se guarda dentro do poema: ligando a noite ao dia, o oculto ao revelado, o pressentimento ao acontecimento, / - tudo no mundo, na história. / A poesia propõe a história no mundo (HELDER, 1977:15).

Nascido na Madeira, em 1930, cedo se afastou da ilha e foi à procura de vestígios de uma arquitetura oculta do universo. Procurou(-se) certamente pelos mundos que o mundo lhe abriu. e encontrou-se Poeta, tantas vezes possuído pela força animista da linguagem, porque as regras de organização do poema são as mesmas da natureza (HELDER, 1977:9) e essa ele conhecia bem.

A escrita tornou-se um exercício de montagem, de criação da ordem, do significado, da instauração de uma unidade cósmica, de si, talvez. O centro: o poema revitaliza a vida ( HELDER, 1977:10).
Então, sim, a epifania. Ou o apocalipse: Vou morrer /O ouro está perto. (HELDER, 1977:27).

Morreu o homem. Não o poeta. Talvez tenha encontrado o ouro. Talvez o ouro o tenha encontrado. Talvez tenha perdoado. e regressado.

A morte está agora diante de mim
como o instante em que o céu se torne puro,
como o desejo de um homem de rever a pátria
depois de longos, longos anos de cativeiro.
(HELDER, 1996:213)
 
HELDER, Herberto, Cobra & Etc, Lisboa, 1977
HELDER, Herberto, Poesia Toda, Lisboa, 1996
 

segunda-feira, 23 de março de 2015

Uma homenagem


Bordadeiras

 


 
 

Sentam-se á porta mal desponta o dia,
- em ao lado o cestinho de costura-
Cercadas de maciços de verdura
Aonde canta  alegre cotovia.
 
E n’esta doce paz, n'esta harmonia,
Beijadas pela aragem suave e pura,
N’uma cambraia da maior alvura,
-Tanta que a propria neve a invejaria ;-
 
Bordam um enxoval  para noivado ;
Mas que lindo que elle é! que bem bordado!
Nunca se viu uma  belleza assim;
 
Tão fresco ! todo a flôr de laranjeira!
E suspiram uma e outra bordadeira :
-Ah! se tudo isto fôsse para mim !
 
 RODRIGUES, António Feliciano (Castilho), Sonetos, Lisboa , 1916, p. 51.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

uma pequena descoberta ....


 
O número cinco da revista ORBIT de 1963 apresenta na capa uma florista da Madeira ... e Albert R. Perkins, repórter americano em visita à ilha das flores, na companhia da sua mulher, Jane, dedica quatro páginas à nossa ilha ... à passagem de ano, ao fogo de artificio, às piscinas do Lido, ao Mercados dos Lavradores e, por fim, à construção da pista do aeroporto... que nesse ano ... arrancava finalmente... aumentando as expetativas quanto ao número de visitantes.....
 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

agora e no passado.....

Hoje recuamos ao século XIX ... a meados do século mais concretamente... a um tempo em que a cidade do Funchal, cosmopolita e vibrante, preenchia o seu dia-a dia com a chegada e a partida de estrangeiros ... maioritariamente ingleses... e relembramos um caso polémico... de perseguição religiosa..

 
Robert Kalley (1809- 1888) médico escocês chegou à ilha em 1838 e cedo se tornou popular, não apenas devido às consultas grátis que dava mas também porque acolhia em sua casa, ao Vale Formoso, todos os que queriam aprender a ler a escrever. Fundou assim "escolas de primeiras letras’ em diversas partes da Ilha, onde a alfabetização se baseava no estudo da Cartilha e na versão vernácula da Bíblia.
 
Kalley e todos os que frequentavam a sua casa e as suas aulas foram perseguidos, os seus bens vandalizados e foram inclusivamente alvo de processo da Câmara Eclesiástica que os acusou de heresia.


 
 
 
 
O ponto mais alto da perseguição  registou-se no dia 9 de agosto de 1846, quando uma enorme multidão de populares furiosos cercou e invadiu a casa do médico. Kalley conseguiu escapar, refugiando-se na casa do Cônsul britânico, que o aconselhou a sair imediatamente da Ilha. Disfarçado de mulher e conduzido numa rede, Kalley embarcou num navio inglês que se encontrava no Funchal rumo à América...


 

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Colóquio Mobilidade e Insularidade 2014

Estivemos reunidos, nestes últimos dois dias, aqui no CEHA discutindo e partilhando ideias sobre a Mobilidade e a Insularidade.
Os trabalhos foram profícuos, vários desafios foram lançados ... e ficou já agendado o encontro do próximo ano!!











terça-feira, 25 de março de 2014

Retratos

O tempo guarda-se, tantas vezes, em caixas velhas, em envelopes amarelos, em memórias que, às vezes mesmo querendo, não se pode esquecer.
Quando se revê os retratos, re-sente-se as dores e  as alegrias de quem já talvez não sejamos mas daquilo que compõe- tantas vezes- a matéria do que - ainda - somos.
Imagem doada por Joel

Imagem doada por Teresina

Imagem doada por Teresina

CONTINUAMOS À SUA ESPERA. QUEREMOS CONTAR A SUA HISTÓRIA, ESTUDAR A CORRESPOPNDENCIA QUE FOI GUARDANDO: A DA GUERRA, A DAS MOBILIDADES. QUEREMOS FAZER DE SI UM PROTAGONISTA DA HISTÓRIA.

sábado, 22 de março de 2014

Madeira

Por ser o Dia da Poesia, ontem, recebemos estes versos, por mail.  Estes e mais. Porque o autor [ou a autora] pensou em cada freguesia, em cada lugar que compõe a geografia dos afetos da Madeira. Manuel da Costa recebeu-os e enviou-os.
Agradecemos aos dois: são rimas da voz do povo. Memórias também:



quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

NA VIVENCIA DE UMA GUERRA, HOUVE NATAL... ( II)

No fundo, tínhamos medo, por vezes, de prosseguir estas dissertaçõesperante alguns soldados. Um havia que tinha fama de “bufo” e, curiosamente, um dia, fazendo gala dos dotes literários, o alferes declamou “O Mostrengo” de Fernando Pessoa, ao que o transmissões Camacho retorquiu com “O Menino de sua Mãe”, do mesmo poeta. O dito soldado mirando-os, estupefacto, andou o resto da comissão a olhar-lhes de soslaio. Talvez a suspeita não fosse errada. Viemos a saber, mais tarde, que ele, na vida civil, trabalhava numa barbearia na Calçadada Estrela, ali bem perto de São Bento…
Alferes Lourenço, passada a meia hora em que enfiei o “dolman” sobre o camuflado, o cinto com as cartucheiras bem municiadas, e meti o PRC-10 às costas, veio para o meio da parada aguardar o pessoal escolhido. O cabo vago-mestre não dava mãos a medir, distribuindo rações de combate para três dias… O pessoal questionava o que é que ia fazer. O olhar, entre angustiante e quase de negação em sair àquela hora, naquela quadra, deixava no ar um presságio de que algo nos iria correr mal. O alferes, à frente do pelotão, pede ao furriel Oliveira para dar voz de “firme, sentido”!
— Camaradas, tenho conhecimento de que o IN pretende vir estragar o nosso Natal, tal como o ano passado, quando estávamos no Sete. Lembram-se? Até canhão sem recuo eles utilizaram… Este ano, quem lhes vai dar as Boas Festas somos nós…
— Mas, meu alferes…
— Não quero ouvir  mais nada. Vamos embora e… calou…
E o pelotão lá saiu silencioso, cabisbaixo entreolhando-se e encomendando a alma a Deus, à Virgem de Fátima e a todos os Santos das devoções de cada um.
A noite, fria, trouxe em breve nuvens engras que cobriam o céu estrelado. O Cruzeiro do Sul deixou de irradiar a sua potente e bela luminosidade que torna as noites mágicas na savana africana. As bátegas da chuva tropical aumentaram copoiosamente, ao ponto de nos pôr completamente encharcados. No firmamento, os raios iluminam o céu de lés-a-lés, imprimindo cenas dantescas por entre os ramos esqueléticos das árvores da floresta. O ribombar constante dos trovões, ao compasso das nossas botas, por entre asfolhas no chão, empresta ao ambiente a atmosfera dum inferno que se aproxima… A noite alonga-se num caminhar constante em direcção ao objectivo. Já madrugada, parámos para retemperar forças. Após um cigarro fumado e de mais um questionar por entre a malta, do porquê daquela operação, foi dada ordem de avançar. O rio que, à nossa frente, nos separava da outra margem e que nos levaria ao acampamento dos guerrilheiros do MPLA, corria caudaloso, turvo, como que a nos querer dizer das dificuldades que teríamos que enfrentar. Em “bicha depirilau”, lá conseguimos atravessá-lo a vau, vencendo a torrente que nos impelia para jusante. Feita a recolha, prosseguimos o itinerário que o alferes jamais nos referiria.
Sabendo das minhas obrigações de operador de transmissões, em fazerQTR diário, dirigi-me ao alferes perguntando-lhe como justificaria a minha ausência no “ar”. Resposta pronta:
— O rádio avariou…
— E a caminhada prosseguiu, ora por entre o capim, ora por entre a savana…
Na manhã do terceiro dia, 22 de Dezembro, acordámos aos sons do“kisenje”. Arrepiei-me todo, e penso que todo o pelotão, a julgar pelas expressões de toda a malta. Nos olhos do alferes Lourenço, um brilho misturado de vitória, de ansiedade e de ódio, expressou-se nas palavras: «Merda! Somos ou não somos o batalhão “Leões do Leste”? Somos ou não somos o pelotão “Tigres”? Vamos lixá-los…»
Não sei porquê, mas, nessa como noutras alturas esquecemo-nos de tudo e de todos. Sei que pensei em Deus, na minha mãe, na minha namorada e…
( continua...)

quarta-feira, 10 de julho de 2013

MADRINHA DE GUERRA...



Episódio 3: o regresso

 

Continuaram, porém a corresponder-se. Quando ele voltou , levou-a  a conhecer os miradouros bonitos de Lisboa, sempre com muito respeito. Um dia, tiveram de se recolher debaixo de uma árvore, porque começou uma chuva de granizo, ela sacudiu-lhe o  casaco e  ela entendeu que aquele rapaz se tinha apaixonado por ela. E teve medo. E deu-lhe a entender que não.

Continuaram a encontrar-se: ele ia buscá-la ao comboio, iam lanchar juntos a uma confeitaria, conversavam. Era um homem ciumento, o Guerrinha, ou o Jonas. E ela não queria para si um homem que a impedisse de olhar , de falar, de rir...  

Depois, deixaram de se ver. M. G. tinha alugado um quarto numa casa de familia. Às vezes, o telefone tocava , perguntava por ela e ninguem falava.

- só podia ser ele. eu não conhecia mais ninguém.

M.G. escreveu-lhe, então,  duas cartas para a casa dos pais: uma, zangada e outra mansa. Dizia que queria ser amiga dele, que não se sentia bem em ser uma pessoa zangada, porque lhe tinha dedicado o seu tempo. Que ele escolhesse uma das cartas, que qualquer delas identificava a sua personalidade e a sua maneira de pensar.

Um dia, recebe a resposta. Pedia-lhe que o deixasse crescer, que não havia de demorar muito tempo.

Ela não gostou dessa conversa. Ela já percebera que ele gostava dela, que tinha boa intenção, mas estar ali tão perto e não se verem – ela que estava sozinha em Lisboa ...

Um dia, marcaram encontro no Cais do Sodré, para irem almoçar a casa de um irmão que vivia na outra banda. Ela inventou uma desculpa e não foi.

Veio embora para a Madeira e não lhe disse nada. Um dia, vinha da praia, em Câmara de Lobos, viu-o. Ficou tão atrapalhada, tão aflita, não sabia se falava ou não:

- Olhei para as Rochas do Rancho, para o Rancho, para o Cabo Girão, passei por ele como se não o conhecesse. Ela subiu e não voltou a olhar para trás.

Passados anos, ele casou-se, ela também. Não sabiam um do outro.

Num  1ºde janeiro, de manhã, M. G. recebe um telefonema. Reconheceu a voz. Era o Jonas. Olhou para cima e viu o marido na escada. (ri) Já era casada e tinha filhos.  Perguntou-lhe como tinha conseguido o seu número de telefone. Explicou: tinha ligado para a Madeira e a mãe dela tinha dito que ela estava no Porto .

Contou-lhe, então,  que se tinha casado, que tinha 2 filhos e que estava divorciado . Ela disse que se tinha casado também.

Se podiam voltar a ser amigos? Não. Ele continuava a manifestar a mesma insegurança da juventude. Nunca mais se viram.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Uma guitarra


 
A história de hoje, traz fado dentro. Pela voz da filha, conhecemos a história de João - jardineiro da Câmara, nos anos 40, plantador de flores e de sonhos.

Já casado, decide partir para a Venezuela, à procura de futuro. Tem lá um irmão que o manda chamar. .. Pede, então, dinheiro ao tio padre, para a viagem. Tinha de passar em Lisboa por causa do visto. Mas o visto demorou. Demasiado tempo.

E o dinheiro para se manter em Lisboa – por mais humilde que fosse a pensão – acabou. Era preciso mais uma remessa. Escreveu, então, uma carta que chegou ao destinatário uma semana depois. Demasiado tarde.

Não havia outra solução, senão vender um dos dois valores que levava: a aliança do casamento ou a guitarra. Vendeu a..... aliança.

Ele morreu, mas a  guitarra permanece. Sentada . Ainda guarda a mesma corda que lhe abraçou as noites duras dos primeiros tempos em Venezuela:

- o meu pai tirava areia de um rio e dormia sobre sacas, mas nunca deixou de cantar o fado.

A vida mudou. Como outros emigrantes, João construiu a vida. Levou consigo a familia. Conheceram treze casas. Porque à procura do lugar melhor. Sempre de passagem.

O seu lugar era aqui. E voltou. Para ficar. Logo que pôde, comprou outra aliança. Mas  foi fiel à guitarra. E ao  fado. E à família. E ao seu lugar. 



A guitar


Our tale of today tells about Fado. Joao´s daughter remembers her father so well – a gardener, who during the 40s, went away chasing his dreams.

He was already married when he decided to leave Madeira. He wanted to go to Venezuela because he had already a brother there. He asked for a loan to one of his uncles, who was a priest. João had to stop for some days in Lisbon waiting for the visa.

The days passed and he spent all the money. He wrote a letter back home asking for more money but it took too long to get to Madeira.

He had no other choice. He needed money desperately and the solution was either to sell the wedding ring or the guitar. He decided to sell ….. the wedding ring.

João is already dead. His daughter still keeps his guitar … the one that helped him endure the long and harsh nights in Venezuela:

-          My father used to work in the river…. he collected sand…. and he used to sleep on the top of the sand sacks … and he never stopped singing Fado.

Life has changed. Like most of Madeira emigrants, João struggled hard to build his own life. He sent for this family after a while. They were always on the move: they have lived in 13 different houses… always rolling.

But he belonged here and so he came back. As soon as possible, he bought another wedding ring. He never ever sold his guitar, though. Nor will his daughter!!

 
 
 


 
 




 

quinta-feira, 7 de março de 2013

ARAÚJO, Lídio, 2003, Os Bravos da Picada, O Liberal, Madeira.


Um diário de guerra. Ou quase. Porque a escrita do eu – jovem furriel madeirense – se esconde atrás de uma terceira pessoa:

“24/11/73: (...) Poderia ter fugido para lá dos Pirinéus, como muitos rapazes da sua idade, e trabalhar nas obras em França, no Luxemburgo ou na Alemanha. Mas para quê? Este era o seu país. (...) Ali era o lugar onde desejava constituir família e viver sem problemas de consciência po ser considerado refractário. Partiria, com fé e muita esperança de regressar são e salvo.” (p.11)

 

Ao longo de 127 páginas,o leitor acompanha a vida da 2ª Companhia do Batalhão Expedicionário 5014, entre novembro de 1973 e dezembro de 1974, entre Viana do Castelo e Moçambique, entre o Zóbué  e Lisboa [com a Madeira à vista]. São memórias de coragens e de angústias, lembranças de aerogramas e silêncios.

Deixamos-lhe  alguns excertos:

“25/11/73: Sem possibilidade para receber os últimos conselhos dos familiares mais queridos, guardar um abraço amigo, provar o beijo amargo da partida (...) os furriéis Araújo e Medeiros, ambos ilhéus, da Madeira e dos Açores, encontraram acolhimento, vão consolo de despedida, no gesto de solidariedade de uma desconhecida figura feminina(...). (p. 12)

“26/11/73: Pediu uma Coca-Cola. Era o seu primeiro contacto com aquela bebida americana. (...) E as Províncias Africanas não pertenciam à mesma nação? Coisas da governação salazarista” (p. 14)

26/11/73 : “é urgente vencer o primeiro inimigo, o medo” (p.15)

29/11/73 – 1ª CARTA: “os que já estão contaram-me coisas que não sei se devo ou não acreditar, mas tudo se ha-de compor...Adeus até ao meu regresso” (p.18)

4/12/73: “ Rezou à Virgem de Fátima, pediu-lhe protecção para si e para os seus companheiros e prometeu-lhe ir visitá-la no Santuário se conseguir regressar ao convívio dos seus familiares são e salvo” (p.22)

 25/12/73 [militares]: “escravos da incongruência bélica de uma alcateia de lobos atacada por semil demência”  (p. 27)

3/3/74:“Recebemos o pré. A nível dos furrieis, 4.300$00, ca e na Metrópole ficaram 11.700$00 (...) Quase todso os militares optaram por deixar 2/3 do pré na Metrópole, à guarda da família. (p.54)

1/4/74: “A grande maioria dos mainatos é composat por crianças os cinco aos doze anos, subnutroidos, esfarrapados e sem escolaridade que vagueiam pelo quartel, voluntários,sempre prontos a executar qualquer trabalho. Nada mais querem senão comida e protecção.

Uma vez por semana, levam a roupa para ser lavada no rio e trazem-na fresca e passada a ferro, quase sempre pelas suas próprias mãos, recebendo em troca 50$00 mensais. (p. 65)

Epílogo:

“fomos actores e espectadores de um drama que (...) deixou marcas profundas”  (p. 109)

“partimos contrariados. (…) Regressámos de cabeça erguida” (p. 109)

ESPERAMOS AGORA PELO SEU RELATO. Contacte-nos.
 

A war journal. Or a war notebook. It does not really matter the text type because what is important is that this is the story of a young soldier who created a persona to tell about wartime in the former Portuguese Overseas colonies:
24/11/73: (…) I could have tried to escape at the Pyrenees, like some did, and go to work in the construction field in France, Luxemburg or even Germany. But what for? This was my homeland (…) this is where I belonged and where I was sure to build my family in the future. Besides would I be able to live with the idea of being a deserter? So, I went to war and with hope and faith I was sure I was going to come back home safe and sound. (p.11)
In a 127 page book the reader gets to know the everyday life of the 2nd Expedition Company 5014 between November 1897 and December 1974. The story location is centered in Viana do Castelo, Mozambique, Zóbué and Lisbon [with Madeira Island always in sight, though]. These are pages full of courage, anguish, memories and many silences:
25/11/73: With no chance of listening to the advice of family and friends, to give a hug and kissed them goodbye (…) soldiers Araújo and Medeiros, from Madeira and from Azores found themselves welcomed and somehow comforted by an unknown feminine figure …. (p. 12)
26/11/73: He ordered a coke. It was the first time he was going to taste the American drink. (…) Were the Oversea colonies a part of the Portuguese nation? He wondered. Salazar policies he answered. (p.14)
26/11/76: The most important thing is to conquer the worst enemy: our fear. (p. 15)
19/11/73: 1st Letter: the ones who have arrived here first have told me stories I am not sure whether to believe or not, but I am sure everything will turn out right…. Goodbye and see you soon. (p. 18)
4/12/73: He prayed to Our Lady of Fatima and asked for her protection and made a promise to visit the Sanctuary if he ever came back safe and sound. (p.12)
25/12/73 [military]: we were the slaves of an absurd war; a pack of wolves suffering of insanity. (p.27)
3/3/74: We received the salary. The Senior Officers were paid 4.300$00 but here and in the mainland the amount of 11.700$00 was left. (…) Almost all the military chose to leave 2/3 of the salary in the mainland to be sent to their families. (p.54)
1/4/74: most of the servants were young boys, 5 to 12 year old boys, starving, ragged and illiterate who voluntarily were always ready to do any job. They only asked in return some food and protection. Once a week they did the laundry and brought the clothes back already ironed and were paid 50$00 for this service. (p.65)
Epilogue
We have been actors and spectators of a life drama (…) which has caused so many traumas. (p. 109)
Most of us left against our will (…) but we came back proud of ourselves. (p. 109)
This was officer Araújo’s tale. What about yours? Come and share it with us!!!!

 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Esta vai ser a minha terra.


Refere-se à África do Sul, a Durban. Aquilo sim, que era o mundo. Na Madeira, na Fajã, o trabalho era duro e a vida difícil. A chegada à África do Sul foi um  sonho. Aquela era uma cidade com mar e amigos.

- Não vou voltar à Madeira! 

Maria tinha 16 anos. Já estava casada com um rapaz que não conhecia. Assim: ele – vamos chamar-lhe M. – veio à Madeira com intenção de casar. Um primo provocou o encontro, trocaram olhares, receberam a bênção do pai, apertaram a mão e casaram na Igreja de S. Pedro – que o tempo não era de festas.

Fala, ri, chora, canta. Teve uma vida de trabalho, mas uma vida feliz.

A África do Sul foi a sua vida. Hoje, tem pena de ter voltado, de ter vendido tudo, de ter perdido aquela terra, aquelas gentes, aquela vida. Afinal, as áfricas não são todas iguais....

Maria trouxe-nos passaportes. Estão ali os seus caminhos, afinal.





This is where I want to live

 It meant South Africa, Durban. She had finally seen the world. Back in Madeira, in the country side life was hard and miserable. Arriving to South Africa was a dream came true. She encountered old friends and relatives.

-          I am not ever going back to Madeira!

Maria was 16 years old. She had just married to a young boy she had met once. He had come to Madeira to look for a bride. A cousin arranged the meeting. After a quick glimpse,  he talked to the girl’s father,  gave a hand shake to seal the matter and the young couple married at S. Peter’s church in Funchal – a family dinner was more than enough.

She is a cheerful lady. She laughs at lot, she sings and occasionally she drops a tear ( when painful memories get in the way). She has worked hard but she enjoys life.

She regrets having returned to Madeira. The family had to sell everything they owned … and part of her was left there. South Africa was a good place to live in.

Maria showed us some old photos and her passports… so as to show us the endeavours of (her) life.

 







 

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Entre a Madeira e a Madeira [ as áfricas]




O protagonista de hoje embarca no navio Angola, no dia 28 de dezembro de 1960. Tem 18 anos, uma carta de chamada para Moçambique e um mundo de possibilidades pela frente. Durante 18 dias, o mar, S. Tomé e os tubarões, Luanda, Lobito, Moçâmedes e umas bananas enormes, Capetown [Capitão,no dizer dos madeirenses que com ele embarcaram no navio]

O que o seu mundo mudou, desde então: foi funcionário do Governo do Distrito de Lourenço Marques (ai a baía do Espírito Santo!  E o porto... o nosso estava em obras, o navio ainda ficava lá fora...); trabalhou com os indianos quando “rebentou a Índia” , foi à tropa, esteve em Tete, leu tudo o que havia para ler “no período mais «útil» da sua vida, foi apanhado pelas cheias, foi escuteiro e fez teatro, foi locutor da Rádio Clube, escreveu poemas, artigos de jornal, constroi a sua casa naquele lugar de sonho, enamora-se, casa, tem filhos, sofre a angústia da doença de uma filha, foge para a África do Sul, conhece a vida de um campo de refugiados, vai trabalhar para uma fábrica de tijolos em Belfast e regressa à ilha. Sem nada.

Depois, foi começar. Outra vez. Reconstruir a vida. Encontrar trabalho. Refazer casa. ..

Chama-se Gualberto Teixeira e contou-nos a sua vida. Trouxe-nos documentos importantíssimos para a construção da “outra” história das gentes da nossa terra.

ALGUNS NÚMEROS:

- ordenado de um furriel: 5.100$00 (25 euros e 50 cêntimos)

- emprestimo para a casa: 600$00 (3 euros)

- 1Kg de carne da melhor: 9$00 (menos de 5 cêntimos)

- 1Kg de camarão grande: 12$50 (pouco mais de 6 cêntimos)

- 1l de gasolina: 4$00(2 cêntimos)


 
Today’s main character went on board the ship Angola on the 28th November 1960. He was 18 years old and was carrying a letter of introduction to help him settle down in Mozambique and a bag full of dreams.  During the sea travel that lasted 18 days his young boy’s eyes met the deep sea, sharks, and endless ports: S. Tomé, Luanda, Lobito, Moçamedes and Capetown [pronounced Capitão by the Madeirans].

And what a roller coaster life has turned out: He started as official of the Civil Government in Lourenço Marques (you can’t imagine how beautiful the bay of Espírito Santo was! And the harbour: huge, busy, modern … Funchal harbour was being enlarged when he left the island …) ; he was responsible for the registration of the Indian population when the “India thing” arose;  then he joined the army and in Tete he read everything he could  in order to pass the time( the most profitable time of his life, he said smiling); he joined the Scouts, entered theater plays and soon after started working at the Radio Clube. He also wrote articles and poems in the local papers. At the same he had found a place to build his house; fell in love and got married. Years later he and his wife had to go to South Africa because their little daughter was seriously ill. Things were getting hard in Mozambique (but no one could ever imagine what was to follow).  While in South Africa the couple stayed in a refugee camp and could not turn back. Although the rest of the family was still in Africa, the only solution was to go to Belfast where a job in a factory had been procured. Two years later they were landing in Madeira: empty pockets.  Safe and sound.  And ready to start from scratch!!

His name is Gualberto Teixeira. We have had an interesting talk … hard to put in words as you can all imagine … he brought us documents … precious sources that will help us to understand this important period of our history.
 

We share some (curious) figures:

- sergeant’s salary: 5.100$00 (25 euros and 50 cêntimos)

-  loan to have a house built: 600$00 (3 euros)

- 1Kg of best quality beef: 9$00 (less than 5 cêntimos)

- 1Kg of shrimps: 12$50 (a little more than 6 cêntimos)

- 1l of petrol: 4$00(2 cêntimos)