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quinta-feira, 13 de março de 2014

Vidas...


José Nunes
José Nunes nasceu em 1940 e veio viver para a Travessa das Torres ainda menino. Naquele tempo, havia fome. Muita. A Sopa do Cardoso resolveu muitos almoços,

- muitas vezes, era só isso, mais nada.

Veio ter connosco, na sequência de uma conferência que fomos fazer à Barreirinha, sobre Bombote e Mergulhança. Tinha muitas histórias de pobreza e de mar para contar: histórias de contrabando e de mulheres… Sabe do que fala: andou na  Mergulhança como os irmãos para ganhar um dinheirinho:

- Sempre ajudava: se fosse bom, dava para meio pão com peixe; se não, 12 tostões só dava para pão com molho  – o molho não se pagava…

A vida de José Nunes mudou: foi taxista, teve uma loja de artefatos, viajou…  Hoje, ri-se de quem se riu dele...

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Bombote e Mergulhança


Amanhã. 18horas. Gare marítima. Conferência. Memórias do Porto. Nós e eles: os bomboteiros, os mergulhadores, o Dia de São Vapor.....


https://app.box.com/s/dabmtpo2ucwcsboear21

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

estrelas de prata .....

são moedas, sim...são pedaços de uma vida feita de vagas de mar ....são estrelas do mar trazidas pela mão do Jana .... um às da mergulhança!

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

o cais das nossas vidas .....


A meia travessa, um encontro inesperado no deck do Lobo Marinho ….

- Estiveste de férias?

- Sim! E tu? Foste visitar a família?!

- Pois … tem de ser!!!

E por entre recordações de infância e adolescência, na ilha dourada, o cais do Porto Santo: pano de fundo para tudo o que de importante se passava nas nossas vidas naqueles tempos em que o sal do mar se misturava com o sal da vida…. tomou conta da conversa. Trindade Melim recordou, com um sorriso largo nos lábios e os olhos raiados de saudade, os tempos de menino ...

- Sabes, quando chegava o barco (Maria Cristina, Devoto, Arriaga) nós ficávamos à espera … Os homens descarregavam as mercadorias e nós, os pequenos, se avistávamos um carro (uma corsa) livre, pegávamos nele e ajudávamos a colocar as bagagens … Por cada carreto entre a ponta do cais e a atual Praça do Barqueiro ganhava-se 2$50 …

 - E davam mergulhos? – Perguntei, partilhando o entusiasmo e recordando também a azáfama do velhinho cais das colunas …

- Sim. Mas não muitos!!! Os estrangeiros eram poucos. Muito poucos!! Mas quando lá aparecia algum, um de nós atirava uma moeda (a servir de engodo) e um grupo começava a mergulhar… dava pouco … isso e os carretos talvez chegasse a 20 escudos … em dias bons, claro!!!

E fomos ficando, assim os dois, nesta conversa marinha, embalados pelo tempo que o balanço do barco sugeria….

- Um dia destes, hás de contar-me mais coisas.

Trindade prendeu os olhos no mar. Disse que sim.

terça-feira, 13 de agosto de 2013


RAPAZES DA MERGULHANÇA OU APANHADORES DE ESTRELAS

 

Eram rapazes com pele de mar. Era miúdos a crescer na pressa dos dias, a querer participar no movimento colorido das canoas a povoar o azul do mar.

Eram anfíbios: corriam atrás da bola de trapos no Campo Almirante de Reis e enfiavam os corpos franzinos no mar, como se aquele fosse também o seu lugar. E era. Eram apanhadores de estrelas. Ora do céu. Ora do mar.

Quando o navio chegava, saltavam para a água, da canoa ou do navio, ao encontro da moeda que os ingleses lhes atiravam. Se branca, melhor. Dava para mais: para um almoço de meio pão com molho, para uns cigarrinhos que ajudavam a enganar o tempo.  

Alguns eram verdadeiros artistas – desenhavam movimentos aéreos, atravessavam o navio de ponta a ponta a ponta, apresentavam a moeda presa entre o polegar e o indicador ou entre os dedos dos pés.  E pediam palmas. E agradeciam como os verdadeiros acrobatas. E queriam mais.

Nas canoas, outros rapazes preparavam-se: o Anão, o Venena, o Jana e os outros, os da mergulhança. Às vezes, tentavam fugir. Da mesma forma que fugiam da escola. Outras, eram apanhados pelo Cabo do Mar, ou porque não tinham licença, ou porque….

Quando os barcos vinham de noite, saltar do barco era uma aventura maior. Era como se uma estrela saltasse do céu e descesse aos ziguezagues, no bailado prateado da maré. Tinha de ser branca. Melhor, portanto.

Às vezes, enganavam os turistas – talvez não se chamassem assim, nesse tempo, os senhores e as senhoras que se embebedavam da beleza da aproximação a terra. E enfiavam a moeda – que, efetivamente, tinham apanhado – na dobra do calção de ganga rude e pediam mais.

Desse tempo de meninice, ficaram os restos dessa meninice que ainda se percebe nos olhos do Duílio e do Jana. Sobrevivem à vida, às marés e às mudanças. Sobrevivem e contam, com orgulho, como eram os tempos e as coragens, como era a vida na Rua de Santa Maria, de que cor eram os sonhos, com que linhas se cozia o futuro.

Os outros miúdos olhavam-nos com alguma inveja. E imitavam-nos, saltando das rochas da Barreirinha, atrás de caricas brancas como as moedas que vinham do resto do mundo. São parte das Gentes que fazem a Historia. Guardamos as suas Memórias, no âmbito do nosso Projeto, no Centro de Estudos de História do Atlântico. Graças a este Projeto de Memórias, é possível descobrir novos heróis e protagonistas da ilha, da cidade e do porto do Funchal. Estes meninos-mar são personagens da História do Porto. São heróis de uma cidade com o mar aos pés. Não podemos deixar que o tempo os esqueça.
in JM: 13 de agosto

quarta-feira, 24 de abril de 2013

mais uma história do calhau ... o Anão...


Chama-se Duílio, por causa de um vapor. Os mais velhos ainda o conhecem como o Anão, um dos miúdos da mergulhança que povoavam o calhau. É um homem pequeno que ainda (ou já- porque tem 87 anos) ginga os passos ao ritmo do cigarro que leva à boca.
 
 
 
 

Ri muito, o Anão. Conta que a vida não era fácil, que mergulhava da amurada dos vapores atrás da moeda que os “ingleses” atiravam.

Jogou no marítimo. O Sr. Alexandre andava atrás de nós quando faltávamos aos treinos. Levávamos sopa de canelo.

- Sabe o que é sopa de canelo?


Conta do Alemão.

- maldito que até meteu o pai na prisão. Conta que era um Cabo do Mar terrível e que o prendeu em S. Lazáro porque não tinha licença para mergulhar.

 

Quando foi para a tropa, só queria duas balas – uma delas era para esse Cabo do Mar que nunca perdoou.

Um dia, resolveu ir. Venezuela. Um vapor daqueles que conhecia tão bem. Clandestino.

- Entrei para mergulhar. Enfiei-me na casa de banho e deixei-me ficar. Depois, depois foi fácil. Era questão de não dar nas vistas e de se misturar com os outros.



Another tale from the seashore..
 
His name is Duílio. He was named after a vessel. He is still known as the Dwarf – one of the diving boys that used to live at the seashore in Santa Maria. He is a small man of 87 years old that swings while walking following the rhythm with which he takes his cigarette to his mouth.
He laughs a lot. And with a smile in his face he told us how life was hard when he used to climb up on board and jumped into the water to catch a penny that the passengers threw down to the sea.
He used to play football at Maritimo Football Team. Mister Alexandre was always watching us and if we ever missed a training session he would beat us up.
-          Do you know what is to be banged around?
He also told us about a man whose nickname was the German.
-          Dammed him!!! He even put his father in prison, in São Lazáro, because he did not have a license. He was such a mean man!!
 
When he joined the army he asked for two bullets – and one of them was to shoot the German.
One day, he decided to leave Madeira. He went on board one of the vessels and stayed there. He travelled under covered.
-          I went on board as usual as if I was going to dive. I hid in the bathroom and stayed there for some time. Then, then, it was easy. I just mingled with the other passengers and pretended to be one of them.
 
( … to be continued…)






 

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Mais histórias do calhau....


Hoje o dia começou cedo!!! Às 7.30h o encontro estava marcado. Em frente à Sé! O senhor Augusto António ( nosso companheiro nesta angariação) esperava já pela Graça e juntos foram até ao Vera Cruz, onde o Anão os esperava!!!!

 
 



Não vamos contar já a história … hoje ainda não… mas temos que partilhar a alegria deste homem – Duílio José Lomelino  que durante muitos anos foi um ÀS DA MERGULHANÇA e que partilhou connosco a sua história de vida … brincando aqui e acolá com fantásticas tiradas em inglês -  sim porque todos no calhau falavam inglês!!!!

Aguardem!

 
 
 
 
One more tale from the seashore….

Today we had to wake up earlier than usual! At 7.30h Graça had to be in front of the Cathedral in Funchal. António Augusto ( our partner in this business of finding people who lived in Santa Maria) was already waiting for them and together they went to Vera Cruz ( local bar) where a man – called Anão ( dwarf) was waiting for them.

We are not going to tell the entire story …. not today, sorry… but we do have to share the enthusiasm and cheeriness of  Duílio José Lomelino who during many years was THE KING OF DIVING and who shared his life story with us … and who during our conversation, suddenly started to speak in English …. explaining that -  yes, everybody spoke English at the seashore in Almirante Reis.

Don’t miss it!

segunda-feira, 4 de março de 2013

UM BOMBOTEIRO - LUIS DA MOTA

Luis da Mota é (ainda) bomboteiro, filho de bomboteiro:

- o meu pai morreu a bordo do vapor do Cabo. Foi o coração. Estava a fazer negócio e deu-lhe um ataque, Eu e o meu irmão fomos tirar a licença.

Tem 83 anos, usa uma barreta preta, como nos outros tempos, vive na Rua de Santa Maria e continua a amar o mar, que lhe traz (ainda também) o pão de cada dia. Ele e mais uns ainda tentam vender os seus produtos na Pontinha, apesar de continuar a dizer

- quando há navio, vamos ao mar.

Traz uma ampliação de um retrato antigo de canoas e bombote

- os marítimos,

e vai narrando a arte , apontando para a imagem, como se voltasse atrás, a um tempo de durezas e alegrias, de negócios e de ingleses. Conta das canoas, das licenças, dos vimes que iam comprar à Camacha, das bonecas, dos barris, dos bordados

- que as nossas mulheres bordavam,

no intervalo das vidas.

Fala da forma como faziam subir a mercadoria, entre a canoa e o vapor, quando não era um vapor do Cabo, porque a esses podiam ir a bordo. Fala das vezes em que a mercadoria era recebida e

- não arriavam o dinheiro.

Fala pouco e precisa das fotografias para apoiar o seu discurso: 

- A mergulhança era isto: os pequenos saltavam das canoas. Eram  8 ou 9 canoas da mergulhança. Isto era daquele tempo do Venena.  Era dinheiro que entrava no país, de graça. O dinheiro era para os 3 do barco O cabo do mar deu cabo dessa mergulhança. Era reles, esse cabo do mar. Era o Alemão. Alguns ainda estão vivos. Ainda conheço alguns. Andam na zona velha. Param ali. Há um que trabalha com a gente, o Jana.

Fica depois calado, quando lhe perguntamos de outras coisas, como era a vida, se havia outros negócios, embrulhados nas toalhas que vinham de volta.

Que a vida era melhor, naquele tempo:

- às vezes, fazia-se mais de cinco contos e cinco  contos dava para as compras , para pagar a casa. Agora não dá para nada.

Como não tem mar para olhar, olha para os retratos que nos trouxe. Diz que serviram de reclame na Expo. E isso foi bom. Já ninguém se lembra deles….



Luis da Mota: a bumboat’s salesman

Luis da Mota was ( and still is) a bumboat’s salesman like his father was:

-          My father died on board a vessel. He had a heart attack. He was doing business and had a stroke, so me and my brother we decided to take a license.

He is 83 years old. He wears a black hat and he still lives in Rua de Santa Maria. He loves the sea and most of all he is thankful for having been able to make a life out of it. He, and some other guys sell their products at Pontinha whenever a vessel anchors at Funchal and although they have a small shop at the harbour they still say:

-          When a vessel comes in, we go to sea.

He brought along a painting of old bumboats and men selling their products

-          All men of sea,

And he pointed to the picture and going back on time he told  about good and bad moments, of business, of the English. He remembered the boats, the licenses, the wickerwork bought in Camacha, the dolls, the wine barrels, the embroidery,

-          Our wives stayed at home and made embroidery,

in their spare time.

He explained how the merchandize was lifted up on board. They were only allowed to go on board in the vessels that were destined to Cape Town. And he recalled the occasions when they kept the goods

-          And did not pay back.

He did not talk much and he needed the photos to organize his speech:

-          Young boys jumped from the little canoes into the water. Normally there were 8 to 9 canoes. One of them was called Venena. This was a way of earning money, for free. The money was divided between the men. The sea captain put an end to this activity. He was very strict. His nickname was “the German”. Some of these boys are still alive. I still know some of them. They come frequently to the old part of the town. They hang out there. One of them, works with us, his name is Jana.

Then he stopped. We asked him about living conditions and if there were other types of business … if smuggling was frequent…

And he answered that life was better back then:

-          Sometimes, we earned around 5 contos and the money was enough to pay the rent and go to the supermarket. Nowadays is not enough.

He focused on the photos he had brought to show us. They were used as a promotion during the Expo. It was a good thing to do. Now, nobody remembers these men any more…..