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quinta-feira, 6 de março de 2014

Dinheiros...

Por entre cartas que contam a ilha, que falam de casa, dos filhos e da saúde... chega o tempo... De 1919, num papel que o século amarelou, o dinheiro...

(...)


Carta gentilmente doada por Teresina Teixeira



quarta-feira, 13 de março de 2013

uma carta misteriosa


A vida também se completa com os imprevistos … com os acontecimentos inesperados que chegam ao nosso colo ….

A nossa história de hoje começa com um passeio em família na Praia Formosa. Vitor Bettencourt, encontrou-se com uma folha de papel amarelecido que esvoaçava ao sabor do vento atlântico ...

Sem hesitar, pegou na folha … olhou de relance e vendo de que se tratava de uma carta datada de 11 de março enviada de Lourenço Marques (presumimos que do ano de 1944) e resolveu guardá-la. Já se passaram cerca de 10 anos e há dias, a carta ganhou vida ( sim, porque as palavras têm vida própria!!) e exigiu de Vitor Bettencourt um olhar mais atento:

O primeiro passo foi transcrever a missiva. Em seguida, e para facilitar a leitura dos menos habituados, Vitor Bettencourt reescreveu a carta, já sem erros ortográficos e tentando completar o que entre linhas se esconde. Não satisfeito ainda, passou alguns dias no Arquivo Regional do Funchal à procura de Sofia … a destinatária da carta …. aquela a quem o marido escreveu dando conta de que

- estou muite  bam pago 800$00 per meis cama e comoda roupa lavada e gomado e pontiada …

A carta está ( supostamente) incompleta. Faltará eventualmente alguma folha. Não sabemos quem é a Sofia. Não sabemos quem é o marido de Sofia. Mas sabemos que Sofia e o marido viveram longe um do outro, que ele lhe escrevia para matar as saudades e para lhe dar noticias do que estava fazendo e de como ia a vida em Lourenço Marques…

É assim a vida… interrompida… ziguezagueante …. esvoaçante, mas feita de gente como nós …

a misterious letter

Life is also made up of unexpected and special moments … the story of today began with a family walk at Praia Formosa. Vitor Bettencourt found an old and yellowish piece of paper flying in the Atlantic breeze…

He picked it up and gave it a glance. It was a letter dated from March 11th (presumably from the year 1944) and decided to keep it in a drawer at this home office. It has passed almost ten years, and some days ago, the letter gained life (yes, words do have a life of their own!) and demanded Vitor Bettencourt to examine it more carefully:


The first step was to transcribe the letter. Then, and in order to facilitate reading, Vitor Bettencourt re-wrote it, getting rid of the mistakes and trying to complete the sense, that is, reading between the lines – a demanding but rewarding task, indeed. Later, and still not pleased with the results, he spent some days at Funchal Archive looking for Sofia … the person to whom the letter had been sent … the wife whose husband had written telling that :

-         I am very well paid 800$00 per month for a bed and cleaned laundry…

The letter is incomplete. We think that a page might be missing. We don’t know who Sofia is. We don’t know who her husband is, either. However, we do know that Sofia and her husband lived apart from each other and that he wrote to her telling about his life in Lourenço Marques and how he missed her so much…

Sofia’ s letter is a perfect example of the ways of life … fragmented, twisted … winding, but made up of people just like you and I.





quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

uma carta do Brasil


13 de Novembro 1985

Amiga Dona ...

Desejo que esta minha carta os vá encontrar de saúde assim como o seu marido e filho.

Nós felizmente vamos indo sofríveis. Dona ... como vê mesmo longe a gente se lembra de si e mais uma vez para lhe pedir um favor, a minha mãe está a acabar os comprimidos da tensão alta e os calmantes e por isso a gente gostaria que a Dona ... fize-se o favor de comprar e enviar pelo correio para fazer o volume mais pequeno talvez fosse melhor por tudo dentro de uma. Isto é uma ideia a  Dona ... depois vê qual a melhor maneira. Era bom também por algodão que eles no correio abanão o pacote e se faz barulho eles não deixam vir. Assim que a minha mãe chegou a gente levamos ao doutor este que ela foi aqui aconselhou para minha mãe deixar os calmantes, mas como sabe a minha mãe estava tomando três por dia e talvez ainda vá deixar de tomar, agora os outros da tensão ela tem de tomar.  Do primeiro doutor não gostamos muito vai-se levar a outro, entretanto os remédios estão a acabar se fosse da sua vontade fazianos este grande favor. Vai aqui 1.500$00 para os remédios e  5.  doláres para o seu filho que eu lhe mande isto é uma pequena lembrança mas já a umas semanas que não trabalho a semana inteira há falta de trabalho. Vai se esperando até que melhor não há outro remédio.  

E por hoje é tudo receba um grande abraço para si e beijinho para o seu filho e cumprimentos ao seu marido.

                                                                                                                                             (assinatura)

 

O Brasil está longe. É do outro lado do mar. Um outro lado que fica não sabe bem onde. Longe é suficientemente distante para aumentar as saudades que se sentem dos que ficam para trás… e há sempre tantos motivos para nos lembrarmos dos amigos … nem que seja para dar notícias e pedir um favor… porque só os amigos nos estendem a mão… perto ou longe… só os amigos!!!!

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Uma carta que a literatura guardou

Maria de Jasus: Gracas a Deus vua indo bem na casa. Os patroes so no sabado e que vem ao escritorios pagar a feria. Eu ainda nao os intendo proque eles falo ingles e na conhecem a nossa fala. Aqui tudo e munto grande comparado com ei nossas casas e ruas. O jardim é comprido. Maria de Jasus, espero tar aqui cinco anos e ao depois vua a Madeira p’ra gente se casar. O dinheiro de quatro anos deve chegar para manda fazer ũa casa. Nao ha cuma se viver naquilo que e nosso. Nao se paga renda nem o dono aumenta renda. Ja tenho soidades de ti e alembro-me sempre do Palheiro Ferreiro onde nos conhecemos, naquele mes de Maio. Da soidades a tua mae e arrecebe muntas soidades que so a vista terao fim, do Manulinho. (Gouveia,Horácio Bento, 1959, Lágrimas correndo mundo, pp. 65-66)