segunda-feira, 14 de janeiro de 2013


HISTÓRIAS DE GUERRA E DE PAZ (PARTE 2)

- E a guerra, Sr. F.?

- Não gosto de me lembrar. Mudávamos de sítio durante um dia. À noite, havia emboscadas. Mesmo assim, uma vez, um rapaz abafou uma granada com o corpo. Íamos morrer todos. Não sei se tinha coragem de fazer o que ele fez.

- Um herói.

- Acho que a família recebeu uma medalha. Para quê?

Não sei se o silêncio que a minha memória guardou, foi o silêncio da voz, ou o silêncio de mim.

- Doutra vez, o jipe que ia à nossa frente ficou estilhaçado. Era uma mina. Por muito que viva, não posso esquecer. Nunca.

A mulher do Sr. F. calou-lhe a angústia:

- Chegou aqui que ele tinha morrido.

Contou que o pai que trabalhava para o Blandy, deitou ao Comando para saber… Acontecia muitas vezes: 

- Houve uma rapariga que se casou antes do noivo ir para a guerra. Foi e nunca mais deu notícias. Foi dado como morto. E ela, que era nova, voltou a casar… Mas um dia, ele voltou.

- E depois?

- Devia ter ficado dividida. Mas já tinha filhos…. Não sei o que foi feito dela

[confesso que gostaria de saber…]

A conversa, entretanto, foi mudando de rumo,

- Tinha um colega… era doente… só comia sopa… chorava todas as noites… de saudades… do medo de morrer…. da dor dos pais. Rezava…. era demais….

- E o Sr. Francisco, rezava?

- Eu, não. Quer dizer, pedia à Senhora do Monte que me deixasse voltar… Tinha lá uma Bíblia…  Ofereci-a ao João.

[O João é o mais velho de oito filhos. Tinha os olhos presos nos olhos do pai.]

 - E em casa?

[lembrei-me das palavras de Pessoa e d’ O Menino da Sua Mãe:

Lá longe, em casa, há a prece,

Que volte cedo e bem,]

- Recebíamos notícias. Vinha o helicóptero – acho que era um helicóptero – , atirava o saco e o sargento – devia ser o sargento – chamava os números… Era uma alegria quando as notícias eram boas. Era uma dor quando não vinha nada.

Uma nota de humanidade: os soldados liam as cartas sozinhos,

- dava sempre vontade de chorar,

mas o oficial chamava um por um para saber se estava tudo bem, se as notícias tinham sido boas, se ….

Escrevia também: à noiva, à mãe. Nos aerogramas, não pagavam. E dizia que sim, que estava bem, que ia regressar. Claro que não contava do medo, nem da dor, nem

 

A guerra roubou-lhe a juventude. E a saúde.

- Mas voltei. Vim a 15 de agosto de 1964. Não sei se foi milagre da Nossa Senhora do Monte…

Trabalhou muito para poder casar, três anos depois.

- Ainda dava saltos na cama…

- Nunca me hei-de esquecer. Nunca.  

Rasgou as cartas. Guardou apenas algumas fotografias num álbum que os filhos gastaram à força de o folhear. E três livros: a Bíblia, um livro de receitas e um outro… proibido.

Guardou o silêncio. Não fala muito destas coisas.

- Já não dói tanto, agora.

E pronto. Agora, a sua história é de paz. Sorri. Cumpriu. Cumpriu-se.

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