Nos meados de 1952,trabalhava eu como aprendiz de desenhador, na fabrica Patrício e Gouveia. Tinha 16 anos. Era escuteiro, como eram os meus amigos de infância.
Nestes tempos nós não tínhamos televisão, o rádio ouvíamos muito mal, com muito ruídos.
A nossa diversão eram os livros, que eram devorados em poucos dias, as nossas praias belas e rochosas, onde passávamos a maior parte do tempo. E as caminhadas nas maravilhosas serras e acampamentos, onde dormíamos debaixo das estrelas.
Recordando agora, éramos bem mais felizes do que a mocidade de hoje. Tinha eu, como passatempo, escrever cartas para amigos no Continente e estrangeiro, e trocávamos postais e fotografias.
Nesse ano, havia um acampamento nacional dos escuteiros em Coimbra. Pedi ao meu pai que me deixasse ir e, ao mesmo tempo, fazer umas férias na casa do meu amigo e correspondente, José Carlos da Fonseca que vivia em Vila Nova de Famalicão. Vila muito pequena, nessa altura.
Ele morava com o pai , a mãe, e a única irmã, mais velha. Embarquei no navio Vera cruz . Muito preocupado, o meu pai pediu a um casal de amigos que ia para Lisboa na mesma viagem, para olhar por mim, como também a um empregado de bordo que era barman no navio .
Durante a viagem o barman viu que eu ficava a olhar um velhinho, que ficava numa cadeira no convés, embrulhado numa manta que lia o tempo todo e disse-me:
- Menino, o senhor que está ali é o famoso Almirante Gago Coutinho.
Chegando a Lisboa, foi um mundo novo que se abriu para mim: comboios, elétricos, arranha-céus ,etc. Apanhei o comboio para o Porto. Durante a viagem, no comboio, eu levava alguns presentes para o Carlos e para a família. Entre estes, ia um grande cacho de bananas, o qual chamou a atenção de alguns passageiros, que começaram a perguntar quem era o dono das ditas bananas. Eu, pequeno e franzino, respondi que era meu, mas que não era para vender.
Cheguei à estação de Campanhã, no Porto e, para a minha aflição, não encontrei ninguém me esperando. Quem me salvou foi um jovem que notou que eu usava um distintivo de escuteiro e, porque ia demorar o próximo comboio para Famalicão, se ofereceu para levar-me a sua casa para lanchar.
A senhora sua mãe deliciou-nos com o mais rico lanche que já tinha tido: bolinhos de bacalhau, rissóis de carne, de galinha etc.
Eu estava muito desconfiado devido ao facto de meu pai me ter dito que tivesse cuidado com os continentais.
Segui para Famalicão, e tive o mais belo tempo da minha vida. Conhecendo o meu amigo, a sua mãe, pai e irmã e as suas comidas e hábitos como também a vila, pela qual, depois deste tempo, continuo enamorado.
Depois de 3 semanas no Norte, continuei para a bela cidade de Coimbra, onde me encontrei com os meus escuteiros do grupo 88 do Socorro. Vim de volta no navio Serpa Pinto que me deixou no Funchal.
Augusto Sousa Melbourne, 03 Novembro de 2013
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